As referências a Valério de Rajanto [1888-1980] são escassas. Foi dramaturgo, poeta, jornalista, compositor, ensaísta de ópera e de teatro.
Nas ‘Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação’ [Edições Ática, 1966], de Fernando Pessoa, são cinco as referências diarísticas a Valério de Rajanto, entre fevereiro e abril de 1913: “No Chiado encontrei o José Figueiredo e estivemos uns tempos à entrada da Rua da Emenda a discutir Wagner, e depois o Valério de Rajanto” [18/02, p. 35]; “Fui para a Brasileira, estive falando com o Rajanto” [30/03, p. 55]; “Depois andei até às 6 passeando com Valério” [03/04, p. 57]; “Falei com vária gente durante o dia. (Valério principalmente)” [08/04, p. 59]; “Estive de noite na Brasileira falando com o Valério” [09/04, p. 60].
Em setembro de 2014, a livreira Gabriela Gouveia teve o exemplar de ‘A Confissão de Lúcio’ que Mário de Sá-Carneiro dedicou a Valério de Rajanto no dia 13 de novembro de 1913 [?]: “A Valério de Rajanto — à sua admirável sensibilidade artística. Com todo o apreço e simpatia de Mário de Sá-Carneiro”.

Guilherme de Faria inscreveu três livros de Valério de Rajanto no catálogo da sua biblioteca: ‘Os Segredos da Águia’ [1919], ‘Ironias’ [1924] e ‘El Dominador’ [tradução espanhola, 1927], os dois últimos oferecidos pelo autor.
No espólio de Guilherme de Faria, apenas esta extraordinária carta de Valério de Rajanto, com data de abril de 1927:

Meu querido Guilherme de Faria
Perdoe-me que tardio seja o meu agradecimento. Li o ‘Destino’. E relendo-o, vi que este segue, em linda e admirável linha de parábola, na avançada dos seus livros, sobrepujando, ‘Saudade Minha’.
E deixe-me dizer-lhe, amigo: — cheia de amplitude e de beleza é a sua estrada de Poeta!
O lirismo português, castiço, puro — monumento de peregrino feitiço —, galga do século XIV até aos nossos dias e nele, troveiro mavioso e lindo cantar, aparece o Guilherme, símbolo e figura, coluna e arquitrave, aguentando a vasta cúpula de tão grande monumento, na expressão daquela milagrosa força de Orfeu, dominando a sanha da bruteza.
Na sua Obra há a singeleza do alecrim campestre, a limpidez das geleiras árticas e a profundeza das cisternas medievais! Do seu Génio, Guilherme, falará o Tempo pela voz da Memória! Aquele que É, Será!
É este o vaticínio de quem o admira, porque o leu, com a alma e com o cérebro.
Ex-corde,
Valério de Rajanto

 


José Rui Teixeira | 2018