Mário Saa nasceu em 1893, nas Caldas da Rainha. Em 1895, a família regressa a Avis e o seu pai constrói [quatro anos depois] a Herdade de Pero-Viegas, onde Saa residiu quase toda a vida. Em 1913, era aluno do Instituto Superior Técnico, em 1918 esteve inscrito no curso de Ciências Matemáticas e, em 1930, no de Medicina, em 1930. Autor frenético, a sua vida entre a administração agrícola das suas propriedades e a investigação e produção literária. De acordo com o perfil dos intelectuais do seu tempo, interessou-se por temáticas distintas, publicou inúmeros livros e artigos em periódicos, em áreas tão diversas como literatura, filosofia, arqueologia, genealogia, geografia e mesmo astrologia. A investigação que realizou sobre vias romanas resultou nos seis volumes de ‘As Grandes Vias da Lusitânia’, resultado de mais de vinte anos de investigações e prospecções arqueológicas. Mário Saa destacou-se, também, no panorama da poesia portuguesa das décadas de 20 e 30. Morreu no Ervedal [Avis], em 1971.
Tendo-se relacionado com parte significativa da ‘intelligentsia’ portuguesa das décadas de 20 e 30, Mário Saa foi amigo de Guilherme de Faria. Tendo recebido a edição de ‘Destino’, o autor de ‘A Invasão dos Judeus’ escreve esta carta:

“Herdade de Pero-Viegas, 11 de abril de 1927

Meu querido Guilherme de Faria
Tanto o ‘Destino’ como o seu postal eu recebi; e li; e achei que obra é boa: é a mais bela encarnação do antigo [que] por um português moderno se tem escrito. Que grande português e que grande poeta. Renasce em si o anterior aos clássicos, o trovador. Poderá haver influência, que na sua alma sensível se insinuassem aqueles formosos modos: mas o que será a influência senão o acordar duma afinidade latente?
Enfim, tenho vontade de dizer de si o que tenho em um soneto que escrevi:

Tinha por fora uma figura pequena,
Lá dentro um coração do tamanho da MÚSICA!

Tem urgência nas ‘Tábuas genealógicas’ [refere-se à publicação de ‘Tábua Genealógica da Varonia de Vaz de Camões’, de 1924]? Se tem, peço-lhe que procure 2 ou 3, ou mesmo mais (as que quiser) nas catacumbas da Bertrand: escolha as mais encarnadinhas, que algumas são pálidas.
Peço-lhe um favor: dizer ao Xico Amaral para me mandar com urgência os tais papéis.
Voltando a Destino: no gosto da 1.ª e da última poesias é que eu pressinto verdadeiramente o seu gosto; aí se sente verdadeiramente bem: está aí no seu ótimo de condições. Viva a Pátria, viva o Exército!
Alguns apertados abraços do
Mário Saa”

São cinco os livros de Mário Saa inscritos no catálogo manuscrito da biblioteca de Guilherme de Faria: ‘Evangelho de S. Vito’ [1917], ‘Poemas Heroicos de Simão Vaz de Camões’ [1921], ‘Portugal Cristão-Novo’ [1921], ‘Camões no Maranhão’ [1922] e ‘A Invasão dos Judeus’ [1925]; destes cinco livros, os exemplares de ‘Evangelho de S. Vito’ e ‘A Invasão dos Judeus’ foram-lhe oferecidos por Mário Saa. O único exemplar recuperado foi o de ‘Poemas Heroicos de Simão Vaz de Camões’ [assinado por GF, com data de 13 de novembro de 1926]. Este livro e a carta que aqui transcrita são os únicos documentos de Mário Saa que restam no espólio de Guilherme de Faria.
Sobre os livros que ofereceu e dedicou a Mário Saa: João Rui Sousa, ‘Mário Saa, um poeta do Modernismo’, in Mário Saa, ‘Poesia e alguma prosa’, Lisboa, IN-CM, 2006, p. 22.


Fotografia inédita de Mário Saa, datada de 18 de julho de 1913. Dedicatória para Aquilino Ribeiro no exemplar do ‘Evangelho de S. Vito’ [1917], datada de 1 de fevereiro de 1924.

 


José Rui Teixeira | 2018