O pai de TEIXEIRA DE PASCOAES [1877-1952] morre em 1922. Como lembra a irmã, Maria da Glória: “Depois da morte do seu pai, o Poeta nunca mais suportou os invernos em Pascoaes. A lareira, onde tanto conversavam, perdeu todo o interesse para ele. Desapareceu para sempre o calor, por mais lenha que lhe deitassem. Resolveu ir passar os invernos a Lisboa, com a mãe, a irmã Miquelina e a sobrinha e afilhada Maria José que viviam com ele.”
Também Maria José Teixeira de Vasconcelos recorda este período e as estadas em Lisboa: “Nos primeiros anos, alugámos uma casa na Calçada da Estrela, 129, 2.º […]. Passámos um inverno numa pensão na Rua Alexandre Herculano — e depois instalámo-nos numa simpática e romântica estalagem na Rua das Janelas Verdes, 31 — a York House”. E descreve o quotidiano de Teixeira de Pascoaes em Lisboa: “de manhã, escrevia. À tarde descia e subia o Chiado com dois amigos e não faltava às tertúlias da Brasileira e às reuniões à porta da Bertrand, onde apareciam Raul Brandão, Mário Beirão, Câmara Reis, o extraordinário pintor Columbano Bordalo Pinheiro e outros”.
Na mesa do fundo d’A Brasileira do Chiado sentavam-se Teixeira de Pascoaes, Vitoriano Braga e Gualdino Gomes; “apareciam sempre, à tarde, Raul Brandão, João Correia d’Oliveira, Francisco Lage, Alfredo Cortês, Mário Beirão” [como lembra Joaquim Paço d’Arcos]. Foi neste contexto que Guilherme de Faria conheceu Teixeira de Pascoaes.

O desinteresse e o consequente desinvestimento nos estudos condenam Guilherme de Faria a uma frustrante reprovação no 5.º ano. Por outro lado, entre 1923 e 1924, encontra uma profissão coerente com a sua cultura literária e com o seu interesse por livros, aventurando-se com o amigo Manuel de Castro num empreendimento editorial: D. Manuel de Castro e Guilherme de Faria Editores.
Desde o princípio de 1924 que Guilherme de Faria conhece e frequenta a roda de Teixeira de Pascoaes n’A Brasileira do Chiado, integrando o séquito literário do consagrado autor de ‘Regresso ao Paraíso’, que tinha então 46 anos. Foi nesse contexto que Guilherme de Faria e Manuel de Castro se ofereceram para editar as obras do grande poeta.
Joaquim Paço d’Arcos lembra que Pascoaes, “que tivera até aí e continuaria a ter editores responsáveis, aceitou a oferta do rapazito de dezasseis anos. Enganaram-se ambos a si próprios”. Guilherme supôs, na sua falta de experiência, que a grandeza literária de Pascoaes lhe asseguraria um êxito editorial; por seu lado, o poeta de Amarante acreditou, “na ingenuidade de artista que os anos não lhe haviam tirado, que os jovens editores dariam à sua obra, com o entusiasmo que demonstravam, expansão à altura do seu génio. Em breve se desiludiram e desentenderam”.
Porém, até meados de agosto de 1924, a relação entre Guilherme de Faria e Teixeira de Pascoaes foi muito cordial. Apesar de Manuel de Castro ter adoecido e, por isso, se ter retirado para uma propriedade rural da família, em Vila Franca de Xira, Guilherme prossegue com algum entusiasmo os trabalhos relativos à edição de dois livros de Pascoaes: ‘Elegia do Amor’ e ‘Sonetos’.
Guilherme de Faria revela, neste período, uma grande dedicação ao trabalho editorial, procurando tipografias com mais qualidade e melhores preços. Apesar da sua inexperiência e da ausência de Manuel de Castro, percebe-se pelas cartas que o jovem editor estava empenhado e reagia às dificuldades próprias da atividade.
No dia 26 de julho, escreve a Teixeira de Pascoaes: “Tenho continuado, e com o maior entusiasmo, os trabalhos relativos à publicação dos ‘Sonetos’ e da ‘Elegia do Amor’. Felizmente tem corrido tudo muito bem”. Na resposta a esta carta, Pascoaes, satisfeito com o evidente empenho de Guilherme de Faria na edição dos seus livros, comunica-lhe a intenção de compor uma “poesia sobre Londres”. Guilherme responde-lhe: “Fico esperando-a com a maior e a mais justificada ansiedade”. Nesta fase, o jovem poeta e editor era ainda o “amigo e admirador devotado e agradecido” e tratava Pascoaes como “querido e divino Poeta, e meu Amigo”. As cartas que escreve a Manuel de Castro neste período não desmentem esta afeição.

É a ausência de Manuel de Castro que nos permite conhecer o quotidiano de Guilherme de Faria de um modo próximo e detalhado: “As primeiras 16 páginas da ‘Elegia’ estão impressas e, louvores a Deus, bem impressas! Na Tipografia todos estão na melhor vontade de trabalhar o melhor possível. E este facto alegra-me, como a ti, por certo, te alegra também. Hoje, ou o mais tardar amanhã, a ‘Elegia’ ficará concluída. Depois o Armindo vai desenhar a fonte do Pascoaes e ponto final no nosso primeiro ensaio editorial. Recebi agora uma carta muito amável do Pascoaes. O grande Poeta, exilado em Amarante, entre a sombra formidável do Marão e a névoa etérea que dimana das águas límpidas do Tâmega, prodigaliza amabilidades para nós os dois […]. Depois fala com grande entusiasmo das nossas edições e diz que vai compor a poesia sobre Londres. Tudo ótimo!”.
E no dia seguinte, 31 de julho, fica concluída a ‘Elegia do Amor’: “Não está uma maravilha. Tem meia dúzia de pequenos defeitos que eu não pude corrigir porque, em verdade, não reparei neles quando vi as provas de máquina. Felizmente que o conjunto parece bom”.
É em meados de agosto de 1924 que a afeição de Guilherme de Faria por Teixeira de Pascoaes muda radicalmente. Os “cantos nebulosos e metafísicos do nosso bom Pascoaes”, assim como o “querido e divino Poeta”, terão a partir de 16 de agosto um tratamento profundamente depreciativo. Creio que esta mudança de atitude, tão repentina e radical, deve-se ao contacto com Mário Beirão, que Guilherme de Faria conheceu no dia 14 de agosto. O que Mário Beirão lhe terá contado sobre Pascoaes e Raul Brandão condicionou definitivamente o modo como o jovem poeta passou a considerar os dois escritores.
No dia 16 de agosto, Guilherme de Faria escreve a Manuel de Castro: “Duas palavras apenas: estou com muita pressa, porque o Mário Beirão acaba de chamar-me pelo telefone. Conheci há dois dias este grande poeta, muito mais poeta do que todos os Pascoaes, e já uma grande simpatia me prende à sua alma. Parece meu amigo. Conversámos ontem até altas horas”.
Passados três dias, escreve este desabafo: “Lisboa todos os dias está mais desagradável. A vida é mil vezes pior que os versos do Pascoaes e as prosas do Brandão, os dois grandes jacarés! […] E perdoa, uma vez mais, ao teu muito amigo que, neste momento, tem a cabeça mais nebulosa e confusa do que o espantalho de Amarante, bloco de trampa e literatura que canta dores etéreas, sapos com almas de Mar e lágrimas com portas e janelas”.
A simpatia por Mário Beirão e a antipatia por Pascoaes crescem proporcionalmente. Uma carta de 20 de agosto testemunha-o: “É um grande poeta, este Mário Beirão. Tenho conversado com ele e, em verdade, merece-me grande simpatia. Tem muito mais merecimento do que o Pascoaes e nunca recorreu aos torpes expedientes de que este se serve para fazer reclamo do seu nome e da sua obra, muito pior do que supúnhamos. Apesar de até hoje só ter recebido atenções do jacaré de Amarante, tenho por ele o maior desprezo. É uma criatura vil. O que tenho sabido a seu respeito é suficiente razão para um completo desprezo, para um desprezo em que predomina a repugnância. E a sua obra, a sua decantada obra, constituída por dislates e vergonhosos plágios, é profundamente estúpida, confusa e contraditória, sendo também literariamente literária (dêmos à palavra ‘literária’ o sentido deprimente que o Joaquim pobre tolo costuma dar-lhe)”. […] O Pascoaes é muito vil. Estou com sérios receios acerca das suas edições. Podemos amanhã ser vítimas duma perfídia desse réptil. Todavia, já temos concluída a ‘Elegia’. Vamos fazer os ‘Sonetos’, quando houver dinheiro. E depois esperemos o ‘D. Carlos’. Tenho a impressão de que ele, covarde como é, não tem coragem para o publicar. Muito embora! Esperemos confiadamente… Saberás que o Sr. Teixeira de Pascoaes me convidou, há dias, para uma visita às suas propriedades. Não vou porque o conheço. O pobre Alves Martins andou a encher-se de ridículo, assoprando a tuba da fama e chamando as atenções sobre o réptil de que venho falando: pois, hoje, o monstro abocanha e achincalha o pobre Alves Martins e diz que lhe matou a fome em Pascoaes. É ainda e sempre o mesmo trapaceiro que afirma em público que um Correia d’Oliveira qualquer tem génio e logo diz, em particular, que o mesmo litera não passa de um cretino. É, como quase todos, um escarro”.
É curioso que a tendência de Guilherme de Faria para referir-se a Pascoaes em tom depreciativo aumenta significativamente sempre que escreve a Manuel de Castro acerca de Mário Beirão. Numa carta de 5 de setembro lê-se: “Fui há bocado despedir-me do Mário Beirão, que vai para o norte. Gosto imenso dele. É um grande poeta, sem dúvida o maior poeta contemporâneo e é, ao mesmo tempo, um dos mais nobres caracteres que eu conheço”. E esta afirmação constitui pretexto para escrever: “Rareiam cada vez mais os bons caracteres. E então nesse lameiro da literatura só encontramos bilontras da pior espécie: são os pobres tolos, os putos tarimbeiros, em suma, todos os grandes jacarés. São todos muito vis, muito falsos, muito pérfidos! Este Mário Beirão é, em todo o sentido, uma exceção: por isso as alimárias o invejam e os biltres o anavalham”.

Na verdade, Guilherme de Faria estava duplamente enganado: nem Teixeira de Pascoaes seria tão mau como Guilherme de Faria pensava, influenciado certamente por Mário Beirão, nem este seria tão bom como ingenuamente o jovem poeta supunha. Aparentemente, Guilherme de Faria ainda não tinha percebido que A Brasileira era a ‘Câmara dos Deputados’ e a ‘Academia’ desse ‘estado livre’ que era o Chiado, presidido pelo “erudito e boémio Gualdino Gomes, esteio septuagenário da má-língua local” [Joaquim Paço d’Arcos].
Um interessante testemunho de José Gomes Ferreira — ‘Quase um relatório do convívio com um grande poeta nos cafés de Lisboa nos anos 30’ — ajuda-nos a contextualizar esta questão: “O nosso culto por Pascoaes talvez acendrasse em Beirão uma natural hostilidade ciumenta […]. Teixeira de Pascoaes fingia não reparar nesta pequenina tempestade em copo de água. Ou — quem sabe? — talvez ela lhe agradasse. Mas ficaria com certeza forrado de picadela de alfinetes se assistisse à cena a que o Carlos Queirós assistiu e logo correu a contar-nos, a ferver de fúria: ‘Querem saber como o tipo se referiu ao Pascoaes, quando o viu entrar na Brasileira? Desta maneira infame: Lá vem o homenzinho de Amarante… Ora o…!’ Não, não me afoito a escrever como o Carlos Queirós classificou o Mário Beirão”.
É o mesmo meio literário em que Teixeira de Pascoaes desprezava a poesia de Fernando Pessoa e este afirmava que o poeta de Amarante sofria de “pouca arte”, um meio particularmente afetado por invejas, intrigas e maledicência, em que a sensibilidade apura egocentrismos cruéis. Por temperamento, Guilherme de Faria lidava muito mal com este tipo de situações e progressivamente distancia-se do meio literário.
A última carta de 1924 data de 2 de outubro, pouco antes do regresso de Manuel de Castro a Lisboa. Nela pode ler-se: “Preciso muito de conversar contigo. O Anrique Paço d’Arcos, que hoje mesmo regressou de Pascoaes, veio procurar-me e, depois de nos felicitar pelas nossas edições, disse-me que o pobre tolo delirou com a Elegia e aguarda em ânsias os ‘Sonetos’. Mais, o mesmo pobre tolo promete-nos a edição dum livro novo que tenciona publicar brevemente e, segundo o mesmo Arcos, é caso assente, a publicação do livro sobre D. Carlos feita por nós. Como deves compreender, fazes-me imensa falta neste momento. Conheces suficientemente o meu feitio para poder calcular que estou cheio de hesitações e dúvidas horríveis. Precisaria de conversar durante largas horas contigo, para solucionarmos da melhor forma este grave e complicado problema. Ao que parece, Pascoaes supõe-nos dois fervorosos e entusiásticos admiradores das suas almôndegas literárias, vivendo absorvidos na constante adoração do seu lirismo etéreo e inatingível, e na disposição de lançar no mercado livresco todas as possíveis e imaginárias obras de sua excelência. É desnecessário dizer que esta convicção de poeta provinciano é fundamentalmente errada. Mas é também indispensável acentuar que o nosso dever consiste em tirar dela o máximo de proveito. Por isto e por muitas coisas mais preciso de conversar contigo. Manda dizer quando voltas daí”.
No fim desse intenso verão de 1924, Guilherme de Faria era editor de Teixeira de Pascoaes. Ainda se encontram em livreiros antiquários e alfarrabistas exemplares da ‘Elegia do Amor’, livro que, como se lê na última página, “acabou de se imprimir aos 28 de julho de 1924 na Imprensa Lucas & C.ª”. Percebemos que a participação de Manuel de Castro neste trabalho resume-se à leitura das notícias que lhe chegavam de Lisboa, manuscritas por Guilherme de Faria.

Em fevereiro de 1925, Manuel de Castro e Guilherme de Faria apresentam três livros de Teixeira de Pascoaes: ‘Sonetos’ [impresso nas oficinas gráficas da Biblioteca Nacional], ‘Londres’ e ‘D. Carlos’ [impressos na tipografia da Empresa do Anuário Comercial]. De ‘D. Carlos’ fez-se uma tiragem de 155 exemplares em papel Japão, encadernados por Alexandrino, com ferros especiais, numerados e rubricados por Teixeira de Pascoaes.
Como vimos, desde meados de agosto de 1924 que Guilherme de Faria, na intimidade das cartas que escrevia a Manuel de Castro, desconsiderava frequentemente Teixeira de Pascoaes. No entanto, publicamente mantinha uma relação cordial com o poeta de Amarante que, fugindo aos rigores do Marão, passava o inverno em Lisboa. No dia 24 de fevereiro de 1925, já Pascoaes tinha regressado a Gatão, Guilherme de Faria comunica-lhe que os livros já estavam impressos e que faltava apenas a brochura.
Particularmente arrependido por se ter comprometido com a edição dos livros de Pascoaes, Guilherme de Faria consegue imprimi-los e colocá-los nas livrarias em meados de março. O esforço deste investimento, que certamente nunca terá sido compensado, acabará por sacrificar as aspirações do jovem editor, que frequentemente acusava o desgaste causado por uma atividade mais prosaica do que poética.
Nos primeiros dias de junho, Guilherme de Faria encontra numa carta de Pascoaes o motivo para a rutura. A sua resposta, datada de 9 de junho de 1925, explica a situação:

“Em fevereiro ou março do ano passado, falámos-lhe, pela primeira vez, do desejo que tínhamos de fundar uma casa editora; V. Ex.ª louvou os nossos propósitos […] e com tal sinceridade e entusiasmo o fez que, nessa mesma ocasião, teve a gentileza, que jamais pude esquecer, de nos oferecer, para a nossa futura editora, toda a sua obra literária. […]
Como não podia deixar de ser, aceitámos com o maior alvoroço e reconhecimento a sua generosa oferta […]. Falámos a V. Ex.ª na melhor forma de salvaguardar os seus direitos e perguntámos-lhe, lealmente, as condições que exigia. V. Ex.ª respondeu-nos simplesmente não desejar dinheiro algum, mas apenas que fôssemos felizes na nossa empresa, que classificou de admirável e benemerente. […]
Sem dúvida que esta sua resposta nos comoveu e muito nos impulsionou a realizar cabalmente os nossos projetos. […] Compreendemos, sem grande dificuldade, a renúncia de um homem rico e poeta de afamado valor, mas limitado público, aos míseros vinténs dos seus direitos de autor. […]
Tudo isto estava admiravelmente bem e, sendo muito agradável para nós, creia V. Ex.ª que não nos era menos prejudicial. Porque a sua atitude, que a sua carta de hoje veio modificar completamente, levava-nos ao cumprimento integral da nossa palavra, à publicação de todas as suas obras. Tenha V. Ex.ª a certeza de que os dois rapazes a quem hoje revelou, da forma mais evidente e mais grosseira, a desconfiança que a sua honestidade lhe inspira, estavam firmemente dispostos aos máximos sacrifícios, para assim corresponderem à nobreza da atitude de V. Ex.ª, agora tão desairosamente desmentida! Os editores a quem agora, da sua longínqua propriedade de Gatão e só daí, porque em Lisboa não o ousou fazer, vem magoar e ferir com exigências que envolvem o maior dos agravos, os seus editores, repito, estavam firmemente dispostos a levar a cabo a edição completa das suas obras que, por divinas em excesso, não interessam de forma alguma ao público de Portugal, que não as lê e muito menos as compra.
E a nós que, por gentileza, lhe não comunicamos o estrondoso fracasso do seu livro de maiores possibilidades de venda — o ‘D. Carlos’ — de que ainda não conseguimos vender, em todo o país, oitocentos exemplares; a nós que lhe ocultamos também o estupendo insucesso dos ‘Sonetos’ e de ‘Londres’, de que vendemos, ao fim de meses, muito menos de duzentos exemplares; […] é a nós, Sr. Teixeira de Pascoaes […], que V. Ex.ª vem exigir, como direitos de autor, 20 por cento sobre o preço dos seus livros!
Fique, pois, sabendo, Sr. Teixeira de Pascoaes, que os dois rapazes que, em má hora, se dispuseram a publicar os livros de V. Ex.ª, saberão cumprir os seus deveres até ao fim e, por hoje, perdoam e esquecem os ultrajes que lhes dirigiu, prevenindo-o, contudo, de que será melhor não lhes lembrar outra vez que foi o primeiro a pôr em dúvida, e duma forma tão grosseira, a integridade dos seus caracteres.
Sem mais, subscrevo-me, em nome dos seus ex-editores”.

Assim termina a relação entre Guilherme de Faria e Teixeira de Pascoaes. Esta carta é suficientemente explícita. Os dois poetas conheceram-se n’A Brasileira do Chiado, no final de 1923 ou no princípio de 1924; Guilherme de Faria introduz alguns amigos no séquito de Pascoaes e apresenta-lhe o seu projeto editorial. Pascoaes, que tinha 46 anos e era já um dos mais reconhecidos poetas portugueses do seu tempo, com alguma ingenuidade, oferece a sua obra literária a dois jovens editores com 16 anos; numa atitude própria de um poeta sem preocupações mundanas, renuncia aos direitos de autor e confia no entusiasmo dos dois rapazes. Guilherme de Faria, com apenas 16 anos, inicia-se como editor com um dos mais importantes autores da história da literatura portuguesa e acredita que os livros de Pascoaes trariam prestígio e sucesso comercial. Afinal estavam ambos enganados. Nem Guilherme de Faria era, então, o editor que a obra literária de Pascoaes merecia, nem Pascoaes era o poeta que garantiria o sucesso comercial da editora.
Estou convencido de que existe uma relação entre o modo como Guilherme de Faria passou a desconsiderar Pascoaes, em meados de agosto de 1924, e a sua amizade com Mário Beirão. Com efeito,o jovem poeta admirava profundamente Teixeira de Pascoaes e, dois dias depois de ter conhecido Mário Beirão, passou a referir-se ao poeta de Amarante de modo depreciativo, muitas vezes insultuoso.
Curiosamente, Guilherme de Faria tinha de certo modo previsto, um ano antes, no dia 20 de agosto de 1924, esta situação de rutura: “O Pascoaes é muito vil. Estou com sérios receios acerca das suas edições. Podemos amanhã ser vítimas duma perfídia desse réptil”. Por outro lado, a reação de Pascoaes pode ter sido motivada pela desconsideração de Guilherme de Faria, ou seja: Pascoaes pode ter tido conhecimento da opinião tão depreciativa que Guilherme de Faria tinha de si e, numa atitude de autodefesa, escreve ao jovem editor exigindo-lhe direitos de autor a que antes tinha renunciado.
Uma discussão entre Guilherme de Faria e Anrique Paço d’Arcos, no dia 8 de maio de 1925, documentada numa carta pouco explícita, pode explicar esta situação. Com efeito, Guilherme de Faria escreve a Anrique: “Tive, de facto, razões para ficar sentido e desgostoso […]. Por isso não sei nem posso desculpar-me de lhe haver revelado o meu desgosto, vindo apenas, com esta minha carta, pedir-lhe que me desculpe a rudeza excessiva com que lho revelei”.
Independentemente da relação provável, para Guilherme de Faria o seu desentendimento com Anrique Paço d’Arcos deve-se a Teixeira de Pascoaes. Num bilhete-postal já citado, escrito na Ericeira, no dia 8 de novembro de 1928, e enviado ao seu irmão Miguel, Guilherme de Faria afirma: “Deu-me muito gosto a notícia que me dás do Anrique Paço d’Arcos se querer reconciliar comigo. […] De resto, eu nunca fui seu inimigo e as duas ou três partidas que ele me fez, sempre as atribuí a Teixeira de Pascoaes”.
De certo modo, a carta de Pascoaes apenas precipitou a rutura formal entre os dois poetas e deu um pretexto a Guilherme de Faria, que aproveitou para se descartar duma responsabilidade para a qual não estava preparado.

Depois da rutura, em junho de 1925, os dois poetas encontrar-se-ão uma última vez, no dia 2 de janeiro de 1926, num episódio de algum modo caricato, narrado assim por Guilherme de Faria: “Ontem aconteceu-me uma coisa bem engraçada e inesperada: estive a tarde inteira de cavaco com o Bandarra de Amarante. O Costa Pinto convidara-me para aparecer em sua casa e falarmos aí de poesias e literaturas […]. E eu fui; e qual a minha surpresa ao encontrar lá os líricos Américo Durão e Pascoaes. Ao primeiro, falei como conhecido que sou; ao segundo apresentou-me o Costa Pinto, que ignorava por completo o que entre nós se passou. O que é facto é que eu desempenhei lindamente o meu divertido papel: conversei com o pobre tolo como com pessoa que, pela primeira vez, tivesse conhecido. Ele sempre embaraçadíssimo e perplexo em assumir uma atitude definitiva. A certa altura, porém, o pobre Pascoaes aludiu, de qualquer forma, a cenas entre nós passadas; e eu fui então divino, fazendo-lhe saber, abertamente, que não era o Guilherme de Faria, ex-editor e poeta, que estava conversando na sua presença, mas tão-somente o Guilherme de Faria amigo do amável dono da casa, que a ambos nos convidara e apresentara. O homem ficou simplesmente passado depois desta minha explicação, dada num tom naturalíssimo e, ao mesmo tempo, categórico”.

No dia 8 de junho de 1926, no ‘Comércio do Porto’, Eduardo Salgueiro refere-se elogiosamente ao quarto livro de Guilherme de Faria, ‘Saudade Minha’: “inspiração fecunda e boas imagens, aqui e além nimbadas ora pelo saudosismo de Pascoaes ora pelo negro desalento do pessimismo de Antero”. Este artigo alude à questão do primeiro título que Anrique Paço d’Arcos escolhe para ‘Mors-Amor’. Eduardo Salgueiro narra o episódio nestes termos: “Há talvez mais de seis meses, o poeta Anrique Paço d’Arcos, em palestra amiga, deu-nos a boa nova de que tinha pronto um novo trabalho, a que dera o título de ‘Saudade Minha’, título colhido, segundo sua própria confissão, no verso de Frei Agostinho, ‘Ah, saudade minha, luz divina!’, com o qual abriria a primeira folha do seu livro, porque todo ele havia sido escrito sob aquele estado de alma, segundo nos fora permitido constatar pela rápida leitura de alguns versos. Hoje, o talentoso autor de ‘Sombra’ publica um volume com o mesmo título e abre o texto com o mesmo verso que o brilhantíssimo autor da ‘Divina Tristeza’ escolhera para o volume que tencionava publicar no inverno próximo. Mera coincidência, ou quê?”.
Guilherme de Faria, que não terá gostado da alusão à suposta influência do saudosismo de Pascoaes, reagiu apressadamente à suspeita implícita neste artigo, escrevendo para o ‘Comércio do Porto’ no sentido de clarificar esta situação: “O caso a que alude, de o Sr. Anrique Paço d’Arcos pensar, há já seis meses, na publicação duma obra com o título do meu último livro, obriga-me a fazer-lhe meia dúzia de necessárias explicações: o Sr. Anrique Paço d’Arcos manteve, durante largo tempo, as mais afetuosas relações de estreita camaradagem comigo; mas a partir do meu rompimento, há muitos meses, com o Sr. Teixeira de Pascoaes, essas relações, pela parte do Sr. Paço d’Arcos, foram esfriando pouco a pouco, até ao rompimento […]. Por tudo isso, vê V. Ex.ª não haver possibilidade de sugestão do Sr. Anrique Paço d’Arcos na minha escolha de ‘Saudade Minha’ para título do meu livro. […] Era, de resto, velha tenção minha, e já há muito conhecida de vários amigos meus, como D. Manuel de Castro, Alberto de Cabedo ou António Pedro, pelo menos, dar a este meu livro o título que dei e que não é um título de acaso, mas o único que o sentido e a verdade dos meus versos exigiam e comportavam. A citação do admirável Frei Agostinho da Cruz está perfeitamente nos meus casos: ampliando divinamente o sentido amoroso do verso meu que a precede, é a pura síntese do meu livro”.
E se é certo que a questão do título é uma coincidência que resulta da contiguidade estética destes dois jovens poetas, também é verdade que Guilherme de Faria não é particularmente influenciado pelo saudosismo de Pascoaes.
Curiosamente, no dia 1 de janeiro de 1929, apenas três dias antes do suicídio de Guilherme de Faria, ‘A Voz’ exalta a edição de ‘Manhã de Nevoeiro’, de Guilherme de Faria; evoca ‘Distância’, de António Pedro; e lamenta a “influência desoladora” que Teixeira de Pascoaes exerce sobre os poemas de ‘Mors-Amor’, de Anrique Paço d’Arcos.
Na correspondência entre Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, encontramos duas referências a Guilherme de Faria, ambas de carácter depreciativo. A primeira data de julho de 1928. Raul Brandão escreve: “Ainda hoje me chegou às mãos um livro de versos — que não li nem lerei — ‘Distância’ do António Pedro, com um prefácio onde o Coelho de Carvalho chama ‘grande poeta’ ao Guilherme de Faria”. A segunda foi escrita por Pascoaes apenas seis dias depois do suicídio de Guilherme, a 10 de janeiro de 1929: “O Guilherme de Faria parece que se suicidou. O Pimenta faz-lhe um enorme elogio, n’ ‘A Voz’ — a ele e ao Visconde de Ameal! Sim, para aquele Camões só aquele Camilo! […] Está tudo muito certo, neste País de navegadores do mar das Índias que demudaram em pescadores de águas turvas! Que pouca vergonha!”.

Independentemente da desavença e independentemente das suas causas, importa referir a profunda admiração que Guilherme de Faria sentia pelo poeta de Amarante. No catálogo manuscrito da sua biblioteca, entre 1924 e 1927, os livros de Teixeira de Pascoaes estão listados na quarta página, logo depois de poetas como Camões e Antero de Quental, imediatamente antes de Gomes Leal, Cesário Verde, Camilo Pessanha e António Nobre.
Guilherme de Faria tinha vinte livros de Teixeira de Pascoaes, dos quais quinze tinham-lhe sido oferecidos pelo autor de ‘Terra Proibida’.

Porém, no meio literário, as questões pessoais sobrepõem-se muitas vezes às questões que são especificamente do domínio da literatura e do pensamento. Por isso, ao ler o único manuscrito em que Guilherme de Faria tece algumas considerações sobre outros poetas, provavelmente de 1927 ou 1928, não estranhamos que só Teixeira de Pascoaes mereça um comentário depreciativo: “Julgo a obra de Pascoaes uma pura mistificação literária, pois nela, além da expressão formal, sempre grosseira e confusa, jamais me foi dado visionar o poeta. […] Herdeiro dos mais inferiores vícios e defeitos de Junqueiro, quis Pascoaes criar e proclamar uma nova identidade poética portuguesa, desenhando torvas sombras e visões (revivescências do profetismo hebreu), e procurando escurecer assim a puríssima espiritualidade da nossa Alma e os seus mais nobres sentimentos e criações. António Sardinha e Manuel Múrias denunciaram este escritor que, turvando sempre as suas águas, consegue por vezes que elas pareçam profundas”.

E porque em todas as histórias há encontros, desencontros e reencontros, quando Guilherme de Faria estava sob os escombros de décadas de esquecimento, foi Teixeira de Pascoaes que possibilitou o seu resgate: em meados de 2003, num conhecido alfarrabista do Porto, comprei um exemplar da 1.ª edição de ‘O Génio Português na sua expressão filosófica, poética e religiosa’, assinado e dedicado por Teixeira de Pascoaes: “Ao jovem e querido poeta Guilherme de Faria, lembrança de Teixeira de Pascoaes”; lê-se na última página: “Nota: Pascoaes ofereceu-me este livro em 19 de março de 1924. G. de F.”.
Passados estes anos, a poesia de Guilherme de Faria está reeditada; parte significativa do seu espólio foi recuperada, identificada e está a ser estudada; a sua biografia e a leitura hermenêutica da sua obra foram o objeto de estudo de uma dissertação de doutoramento e de inúmeros artigos e conferências. E tudo começou no nome de Guilherme de Faria manuscrito por Teixeira de Pascoaes, numa espécie de reencontro que, de algum modo, reconcilia estes dois poetas.

 


José Rui Teixeira | 2018