No dia 30 de agosto de 1924, tinham passado quase dois anos sobre a publicação de ‘Mais Poemas’, Guilherme de Faria apresenta ‘Sombra’. Trata-se de um livro com 48 páginas e nove composições.

A edição de ‘Sombra’ representa uma importante etapa no processo de amadurecimento da poesia de Guilherme de Faria. Mantendo as principais características que constituem o seu universo poético e que reconhecemos nos dois primeiros livros, Guilherme de Faria apresenta um conjunto de poemas muito interessantes, assinalados por uma reflexão mais consequente e profunda. A sinceridade dos seus poemas é agora intensamente testemunhada pela correspondência íntima.
O livro abre com ‘Sombra’, poema que nos possibilita uma perspectiva privilegiada do modo como Guilherme de Faria entendia e assumia a condição humana. Prevalece o sentimento de que o desejo de viver esbarra com uma desoladora incapacidade de reter a vida no presente: “Quero viver! — E a vida vai passando/ Sem eu a ver passar”. Esta é uma questão estrutural, com sérias implicações de natureza ontológica e existencial: Guilherme de Faria nunca se identificou consigo próprio, com a sua condição presente, com a sua vida concreta; habitou as projeções de um tempo mítico, passado ou futuro.
Guilherme de Faria persistiu em ser o que não foi, o que não chegou a ser: “Eu vivo, na tortura e na desgraça/ Eterna de não ser”. Desenganado, reconhece as decepções, admite que é inútil o empenho pessoal, arrepende-se de ter sido ingénuo, percebe que apenas entrevê a vida “através as ruínas da memória”. O poeta sente-se só e escuta a voz de Deus: “O mal é a raiz que prende o homem à terra!/ A vida é maldição!”
Há interrogações que Guilherme de Faria repetirá dolorosamente até ao dia em que põe termo à sua vida: “Sinto-me triste. Mas, acaso, existe/ A dor que me tortura?/ E, se existe, meu Deus, em que consiste/ A minha desventura?”. Com efeito, em 1924, Guilherme de Faria sentia-se “Cansado de viver — sem nunca ter vivido”: “Vai perdida nas brumas do passado,/ A sombra do meu ser…/ Vou passando, no mundo, abandonado,/ Sem jamais me poder compreender!”.
O segundo poema de Sombra — ‘Crepuscular’ — parte de uma composição de 1922, com o mesmo título, publicada em ‘Poemas’. Encontramos a mesma paisagem brumosa e marítima, e a hora crepuscular: “Nesta hora, meu amor, eu sinto bem/ O teu olhar de além,/ Beijando com amor,/ Na tarde muda e calma,/ Penumbras ourescentes do sol-pôr,/ Doloridas paisagens da minha alma…”.
Em ‘Carta do meu amor’, Guilherme de Faria recupera o imaginário simbolista e decadentista de alguns poemas de 1922. Com efeito, as imagens, os recursos e os meios de que Guilherme de Faria dispõe em 1924 são significativamente diferentes dos que dispunha dois anos antes. Persiste um amor comprazido na distância, enlevado na noite, redimido na morte: “E sinto a voz do mar./ E sinto, em meu olhar, bênçãos de Deus…// — Olha-me bem, meu bem! A luz do teu olhar,/ O teu olhar de amor — no meu olhar! — Adeus…”.
Guilherme de Faria, refletindo sobre a temporalidade, em ‘Do tempo’, vai estabelecendo um modelo conceptual de amor saudoso e espiritualizado, no qual a figura de Emília Castro se tornará progressivamente mais definida: “Vai passando a sombria claridade/ Das tardes a morrer, brumosas e sem cor./ E sinto perpassar, nos longes da saudade,/ O vulto espiritual do meu Amor”.
Dedicado a Manuel de Castro, aparece em ‘Sombra’ um dos poemas mais representativos da obra de Guilherme de Faria: ‘Eu’. Trata-se de um poema em redondilha maior, em que a estrutura anafórica, as antíteses e a irregularidade estrófica acentuam a expressividade deste autorretrato, exercício egótico, tanto mais perturbador quanto mais coerente com a vida e a morte do poeta.

“Eu não me lembro de mim.
Não me lembro de ninguém.
— Sou a lembrança de mim?
Sou a lembrança de alguém?
Sou uma sombra delida
Vivendo um sonho de vida?
Eu, afinal, o que sou?
Qual o caminho em que vou?
Meus passos onde vão dar?
Vou devagar? Vou depressa?
Vou depressa ou devagar?

[…]
Em sonho, fui luz de aurora,
No esplendor da Eternidade!
Mas, hoje, a minha alma chora,
No desterro da saudade…

E eu, afinal, o que sou?
Qual o caminho em que vou?

Sou noite? Sou alvorada?
Vou ascender ou cair?

— Eu, afinal, não sei nada,
Eu sei apenas sorrir…”.

Guilherme de Faria reconhece-se como uma lembrança de si próprio ou de outro; identifica-se com a sombra, mas em sonho foi luz da aurora; admite que nada lhe interessa e interroga-se acerca do caminho; o seu sorriso traduz a expressão triste de quem se sente no desterro da saudade.
Nos seus primeiros livros percebemos que estes versos estão iminentes: “E vendo, nos céus, a brilhar/ Os astros, fico a chorar,/ Como saudoso de mim”; mas temos que esperar pela edição de ‘Sombra’ para reconhecermos que Guilherme de Faria é fundamentalmente um poeta saudoso de si próprio.
O sentimento de exílio, de desterro, associado a uma saudade marcadamente ontológica, tornar-se-á progressivamente mais presente na poesia de Guilherme de Faria. É o caso de ‘Trova’, em que se lê: “A vida passa por mim,/ E nem ao menos a vejo…/ Vaga lembrança de mim,/ Sombra morta dum desejo…”. E, a outro passo: “Ando no mundo exilado”. Guilherme de Faria enuncia pela primeira vez neste poema o ‘leitmotiv’ do amor não correspondido: “Eu quero a quem não me quer”, que assumirá proporções trágicas na sua vida.
O poema que Guilherme de Faria dedica ao irmão que em 1923, com apenas três anos, fica cego — ‘A meu irmão Nuno’ —, é um bom exemplo do modo como o poeta tinha amadurecido e dos recursos que esse amadurecimento lhe possibilitou: “A luz do teu olhar anoiteceu…// Quando as nuvens, extensas e esmaiadas,/ Alagam todo o azul diáfano do céu,/ E há sombras a ondular, noturnas, desoladas,/ A luz do teu olhar, na sombra, se perdeu!”. Lê-se no final deste notável poema: “Mas sinto, em mim, a eterna e fria Dor/ Que anoiteceu, no mundo, a luz do teu olhar/ E acendeu mais, em mim, a luz do teu Amor!”.

Na sua ‘Confissão’, com epígrafe de Antero de Quental — “Noite, vão para ti os meus pensamentos…” —, Guilherme de Faria evoca a noite: “Tu és a treva eterna e misteriosa,/ E eu sou a luz jamais amanhecida,/ Sombra de horror, sonâmbula e saudosa/ Da luz duma outra vida”. Torna-se assim consistente a consciência duma vida por realizar: “— És a irmã da minha alma, ó pobre, erma roseira/ Que Deus soube criar, mas não deixou florir!”. Guilherme de Faria é, então, capaz de uma descrição perturbadoramente precisa de si próprio, da sua condição: “Ser a névoa dum sonho, a errar, longe de tudo…/ Ser a voz da oração, a ânsia dum voo…/ — Mas eu quero viver, quero ser tudo!/ Só não quero, Senhor!, ser o que sou!”. O suicídio de Guilherme de Faria é o resultado natural deste sentimento de desajuste ontológico, agravado por disfunções e pelas circunstâncias. Teixeira de Pascoaes escreveu em ‘Regresso ao Paraíso’: “A esperança é a saudade do futuro,/ A saudade é a esperança do passado…”. Neste idêntico processo de entendimento da condição temporal, Guilherme de Faria negou a sua condição presente, porque nela não identificou esse outro ‘eu’ projetado na esperança do passado e na saudade do futuro.
O terceiro livro de Guilherme de Faria termina com um poema dedicado a Luís de Almeida Braga: ‘Noturno’. Persistem a noite, as sombras, os lírios… O conhecimento das circunstâncias do suicídio do poeta, em 1929, torna perturbadora a leitura destes versos de 1924: “A minha alma — noite morta —/ Crucificada nas ondas,/ Morreu nas ondas do Mar…”.


ÍNDICE

[1] Sombra [pp. 9-13]
[2] Crepuscular [pp. 15-16]
[3] Carta do meu amor [pp. 17-19]
[4] Do tempo [pp. 21-22]
[5] Eu [pp. 23-26]
[6] Trova [p. 27]
[7] A meu irmão Nuno [pp. 29-30]
[8] Confissão [pp. 31-34]
[9] Noturno [pp. 35-38]

Livro com 48 páginas e nove composições. Formato: 12 x 18 cm. Cólofon: “Acabou de se imprimir este livro aos trinta de Agosto de mil novecentos e vinte e quatro, nas Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional de Lisboa”.
De ‘Sombra’, Guilherme de Faria opta por integrar na antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’ [1929] três poemas: ‘Eu’, ‘A meu irmão Nuno’ e ‘Confissão’; nestes casos as alterações são menos significativas e mantém os títulos. Na organização da antologia, o primeiro poema de ‘Saudade Minha’ [1926] — ‘Exaltação’ — passa para o final de ‘Sombra’.


CONFISSÃO

“Noite, vão para ti os meus pensamentos…”
Antero de Quental

— Noite… Vejo, na sombra, os astros a fulgir… —
Alma da Luz, imersa em funda escuridão
Ó Noite! vem ouvir
A minha confissão!

Tu és a treva eterna e misteriosa,
E eu sou a luz jamais amanhecida,
Sombra de horror, sonâmbula e saudosa
Da luz duma outra vida.

Pelas sombras do mundo me disperso.
Vejo, em todas as sombras, o meu ser.
E sinto, em cada grito, a dor dum universo!
E sinto, em minha dor, mil almas a sofrer!

Oh, triste confissão
De lágrimas e dor,
De gritos e de horror,
De humana contrição!

Ó sombra de alma, aurora anoitecida,
Acaso a tua luz, um dia, amanheceu?
E, enquanto eu ando a errar, perdido pela vida,
Não serás, luz de amor, o Sol dum novo Céu?

Eu quis lutar, sofrer, sonhar a vida inteira!
E choro, sem viver, a mágoa de existir…
— És a irmã da minha alma, ó pobre, erma roseira
Que Deus soube criar, mas não deixou florir!

Sombra de amor, de sonho e desventura,
Ó Noite, vem ouvir a minha confissão,
Que, para além da vida, eternamente escura,
— Sonho eterno de luz – há gritos de ambição!

Quero viver, viver!
Ó fria luz do luar,
Rasga a treva nocturna do meu ser,
E deixa-me sonhar…

— Quero ser a canção dos astros e dos céus,
E sentir, na minha alma, a luz de Deus!

E, em sonhos de quimérica harmonia,
Ser a voz da humildade, a melodia
Das fontes, a cantar…
Ser lágrimas de luz em pétalas de flor,
Ser nuvem, a sonhar, perdida, no sol-pôr
Ao longe, sobre o mar…

Quero ser sombra, eterna escuridão,
Mas viver e ascender em frémitos de chama!
E ser vida de luz, divina redenção,
Ser a bênção de amor que a luz do sol derrama!

Ser a névoa dum sonho, a errar, longe de tudo…
Ser a voz da oração, a ânsia dum voo…
— Mas eu quero viver, quero ser tudo!
Só não quero, Senhor!, ser o que sou!

* ‘Sombra’, pp. 31-34. Este poema foi integrado da antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, pp. 35-38.


IMAGENS: capa de ‘Sombra’ e autógrafo de Guilherme de Faria do poema ‘Confissão’.

 


José Rui Teixeira | 2018