No dia 7 de Maio de 1926, tinham passado quase dois anos sobre a publicação de ‘Sombra’, Guilherme de Faria apresenta ‘Saudade Minha’. Trata-se de um livro com 92 páginas e 22 poemas apresentados em quatro partes: ‘Sombras d’Amor’, ‘Vida escura’, ‘Saudade Minha’ e ‘Redenção’. Guilherme de Faria utiliza na capa desta edição, pela primeira vez, a ‘flor da saudade’, ex-libris desenhado por Emília Castro.

Duas epígrafes introduzem a poesia de Saudade Minha: um verso de Guilherme de Faria – “Amor que, antes de o ser, se fez saudade!” [verso de ‘A carta do mar’, ‘Poemas’, p. 28] — e outro de Frei Agostinho da Cruz: “Ah, Saudade minha, luz divina!”.
Este quarto livro, tal como tinha acontecido com ‘Sombra’, representa um significativo amadurecimento da poesia de Guilherme de Faria. Com 18 anos, em ‘Saudade Minha’, Guilherme de Faria define claramente a sua semântica e ‘leitmotive’. Afasta-se progressivamente do imaginário simbolista e decadentista e afirma-se claramente no contexto da poesia neorromântica lusitanista.

Em ‘Exaltação’ reaparece a apatia e o cansaço existencial que o epistolário do poeta exaustivamente testemunha. Numa carta de 1924, Guilherme de Faria escrevia a Manuel de Castro: “Queria reagir de qualquer maneira. Mas estou contaminado de apatia, terrível doença comum. Sou um ocioso, vivo cansadíssimo”. Neste poema de 1926 pode ler-se: “Nestas horas de apática indolência,/ Cansado de viver, esqueço a vida”.
Em ‘Saudade Minha’, Guilherme de Faria colige fragmentos para uma definição pessoal de saudade — “bênção de Deus, que exalta e que redime” — e dá-lhe uma certa fisionomia onírica e fantasmática: “E, altas horas da noite, quando cismo,/ Longe de mim, na minha solidão,/ Vejo surgir, da sombra em que me abismo,/ A tua graça ideal de Aparição”. Guilherme de Faria dialoga com a saudade e assume a sua presença entre o princípio — “Vejo, no teu olhar, a luz anoitecida/ Na sombra do meu berço!” – e o fim do caminho:

“Quem és, Visão de há tanto amada e pressentida,
Como um astro, sorrindo à minha escura sorte?
— És, num sonho de amor, a eterna luz da vida;
És a vida que vai, sonhando, para a morte”.

Percebemos, em ‘Saudade Minha’, que esse ‘outro’ de que o poeta sente saudade e que é ele próprio, mas não na sua condição presente, aproxima-se da formulação de Mário de Sá-Carneiro: “Eu não sou eu nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o Outro”. Em ‘Exaltação’, Guilherme de Faria escreve: “absorto num outro que já fui”; e em ‘Saudade’: “Senhor! eu não sou eu, sou a lembrança/ Dum outro que não fui, mas sonhei ser”. Na verdade, Guilherme de Faria não é ele próprio nem o outro, a incompatibilidade entre o ‘eu-real’ e o ‘eu-ideal’ é de natureza ontológica e existencial.
Percebe-se que o sentimento por Emília Castro aflora em poemas em que Guilherme de Faria associa, em idílio, a formosura da amada, o amor espiritualizado, a ausência ou a distância que a saudade interpreta e a esperança redime. Encontramos este ‘leitmotiv’ em poemas como ‘Maria’, ‘Êxtase’, ou ‘Trova’.
Mas, tal como no epistolário, fruto da sua bipolaridade, a uma melancolia suave, própria de um certo comprazimento saudoso dos poetas líricos, sucede o desengano, a omnipresença da morte, num tom elegíaco — como em ‘Velha cantiga’: “Apenas, saudoso, encaro/ A noite imensa da morte…” — e progressivamente mais sombrio, como em ‘Desencanto’ — “Tu não existes, meu amor… Na vida,/ Onde passei inutilmente a amar,/ Toda a ilusão é morta e desmentida…” — ou em ‘De noite’:

“Não sonhes mais de amor…
Deixa os astros, na sombra, a cintilar,
Que, para nós, é vão o seu fulgor,
E deixa de sonhar.

Adormece, não queiras mais sonhar;
Fecha os olhos, amor… A vida é assim…
Deixa as sombras e os astros divagar,
E esquece-te de mim!

A vida não é um sonho de ansiedade
Inútil de sofrer,
Que, para além da vida, há uma verdade
— E temos de morrer!

[…]
Não desejes o sol que reverbera:
– Olha, no poente, a fulva luz da aurora…
E fiquemos assim, eternamente à espera
Da morte redentora!”

Persistem na poesia de Guilherme de Faria breves alusões ao amor sensual: “Ah, se a tua alma é estranha e dolorosa,/ Quero o teu corpo voluptuoso e lindo!// A minha febre só a carne acalma”. Mas, no final, na poesia como na vida, predomina um desolador desengano e conformismo, como em ‘Não vale a pena’: “Viver na febre intensa dos desejos/ E sonhos da luxúria, que envenena/ As almas, ao calor de falsos beijos,/ – Não vale a pena…”.
Na poesia de Guilherme de Faria, persiste a noite – como em ‘Canção’, ‘Vida escura’ ou ‘Noturno’ –, por vezes iluminada por uma vaga esperança. Um sentimento amoroso ingénuo em toada popular, o sonho, a solidão, as sombras e o desencanto povoam poemas como ‘Destino’, ‘A uma mulher’, ‘Canção’, ‘A uma fonte’, ‘Cantiga’ ou ‘Eternidade’. Encontramos ainda uma ou outra composição mais circunstancial, como é o caso de ‘Balada do fim do mundo’.
Porventura, ‘Não vale a pena’ é o poema que melhor ilustra o estado de espírito de Guilherme de Faria em 1926. Com efeito, não são apenas os “sonhos da luxúria” ou a “febre intensa dos desejos” que não valem a pena; para Guilherme de Faria, nem o “fogo ardente/ Da mais alta ambição”, nem viver “cantando, d’alma leda e pura”, nem sequer viver para o seu amor, “Vida e Doçura! –/ Doce mulher cheia de graça, plena/ Do mais divino amor e formosura”… nada vale a pena. Guilherme de Faria, agastado pela neurastenia, sente-se muitas vezes incapaz de reagir e conforma-se com o sentimento de que nada realmente importa.
Dois poemas – ‘Oração’ e ‘Redenção’ – retomam a temática religiosa, de um modo mais autêntico do que nos livros anteriores e possibilitam esta expressão comovida:

“Sonha! vive do amor que pressentiste
Sorrindo à imperfeição de que descende
A dor do meu viver e, em mim, ascende
A fé do eterno bem que em Deus existe!

– Porque essa luz divina que entrevejo
No céu que, para além desta amargura,
Eu pressinto, e que surge ao meu desejo

Como bênção de Deus – no seu esplendor
Que é um sorriso de encanto e de ternura,
Só pode ser, Amor, o teu amor!”.

Com efeito, a verdade da relação de Guilherme de Faria com Deus assenta, fundamentalmente, na ideia da redenção. Talvez a sua fé não fosse tão débil como pensava Joaquim Paço d’Arcos; talvez diante de uma vida que não reconhecia como sua e que suportava como um exílio, Guilherme de Faria só pudesse desejar a morte e esperar o perdão de Deus. Na verdade, tendo em consideração a sua vida e a sua poesia, o suicídio de Guilherme de Faria não é apenas um sintoma de resignação, mas também uma poderosa expressão de fé na misericórdia de Deus e um profundo desejo de redenção:

“E quando a vida escura e dolorosa
Passar, desfeita em névoas de ilusão,
Na hora fatal da morte misteriosa,

– Oh piedosa e sagrada Aparição! –
Doira a minha alma com a luz radiosa
Do teu olhar de bênção e perdão!”.

Em última análise, como se depreende em ‘Elegia’, é a “infinita desgraça” de ter nascido e o pressentimento da morte que incendeiam no poeta as saudades do Céu.
Em Janeiro de 1929, espalhou-se o boato que dizia que o amor de Guilherme de Faria por Emília Castro tinha sido o motivo do seu suicídio, mas há poemas em que sentimos que foi esse amor que o manteve vivo por mais alguns anos:

“E assim eu vivo de amar-te,
E é tudo um deslumbramento!
Sonho ver em toda a parte,
A luz duns olhos imersos
Em saudade e sentimento
Que são a alma dos meus versos…

Olhos de amor, rasos de água
E de amorosa tristura
Pela minha desventura,
[…]
E assim eu vivo, e me iludo!

– Mas que me importam as penas
De amor, que me tornam louco
– Se a vida é tudo, e só tudo,
O que, nas horas serenas,
Nos parece ser tão pouco?…”.


ÍNDICE

SOMBRAS D’AMOR
[1] Exaltação [pp. 11-13]
[2] Saudade [pp. 15-18]
[3] Maria [pp. 19-20]
[4] Êxtase [pp. 21-22]
[5] Trova [p. 23]
[6] Velha cantiga [pp. 25-26]
[7] Desencanto [pp. 27-29]
[8] De noite [pp. 31-32]
[9] Canção [pp. 33-34]
VIDA ESCURA
[10] Vida escura [pp. 37-39]
[11] Balada do fim do mundo [pp. 41-44]
[12] Destino [pp. 45-46]
[13] A uma mulher [pp. 47-48]
[14] Não vale a pena… [pp. 49-50]
[15] Oração [pp. 51-52]
SAUDADE MINHA
[16] Canção [pp. 55-57]
[17] A uma fonte [pp. 59-63]
[18] Cantiga [pp. 65-67]
[19] Eternidade [pp. 69-70]
[20] Nocturno [pp. 71-74]
[21] Elegia [pp. 75-79]
REDENÇÃO
[22] Redenção [pp. 83-84]

Livro com 92 páginas e 22 poemas apresentados em quatro partes: ‘Sombras d’Amor’, ‘Vida escura’, ‘Saudade Minha’ e ‘Redenção’. Formato: 12 x 18 cm. “Acabou-se de imprimir este livro, aos sete de Maio de mil novecentos e vinte e seis, na Tipografia de Alfredo Torres, ao Largo do Terreirinho, 35, em Lisboa”. Da edição de ‘Saudade Minha’, Guilherme de Faria escolhe 17 poemas e exclui 5: ‘Maria’, ‘Êxtase’, ‘Trova’, ‘Velha cantiga’ e ‘Desencanto’. ‘Destino’ passa a intitular-se ‘Desolação’ e é acrescentado o inédito ‘Destino’. Apresenta na capa, pela primeira vez, a ‘flor da saudade’, ex-libris desenhado por Emília Castro.


DE NOITE

Não sonhes mais de amor…
Deixa os astros, na sombra, a cintilar,
Que, para nós, é vão o seu fulgor,
E deixa de sonhar.

Adormece, não queiras mais sonhar;
Fecha os olhos, amor… A vida é assim…
Deixa as sombras e os astros divagar,
E esquece-te de mim.

A vida não é um sonho de ansiedade
Inútil de sofrer,
Que, para além da vida, há uma verdade
— E temos de morrer!

Assim, debaixo da verdade eterna,
Para quê desejar sonhos, ideais?
Sepultados no fundo da caverna,
Esperemos, somente, a luz eterna
Das horas imortais!

Não desejes o sol que reverbera:
Olha, no poente, a fulva luz da aurora…
E fiquemos, assim, meu pobre amor, à espera
Da morte redentora!

* ‘Saudade Minha’, pp. 31-32. Este poema foi integrado da antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, pp. 53-54.


NÃO VALE A PENA…

Viver sentindo n’alma o fogo ardente
Da mais alta ambição, que nos condena
A lutar, a sonhar eternamente,
— Não vale a pena…

Viver na febre intensa dos desejos
E sonhos da luxúria que envenena
As almas, ao calor de falsos beijos,
— Não vale a pena…

Viver cantando, d’alma leda e pura,
Versos ao som de pastoril avena,
Longe da vida tão hostil e escura,
— Não vale a pena…

Viver pra o meu amor – Vida e Doçura! –
Doce mulher cheia de graça, plena
Do mais divino amor e formosura,
— Não vale a pena…

Não vale a pena… É vão todo o desejo.
— E para quê sonhar, nesta amargura,
Acesa a luz da esperança, que não vejo,
E ter sonhos, quimeras a sorrir,
— Se, para além da humana desventura,
Tenho o leito da eterna sepultura,
Para fechar os olhos e dormir?…

* ‘Saudade Minha’, pp. 49-50. Este poema foi integrado da antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, pp. 71-72.


IMAGENS: capa de ‘Saudade Minha’ e autógrafos de Guilherme de Faria.

 


José Rui Teixeira | 2018