POEMAS foi o primeiro livro de Guilherme de Faria, impresso no dia 28 de abril de 1922, na Imprensa de Manuel Lucas Torres, em Lisboa [Rua do Diário de Notícias], tinha o poeta ainda 14 anos. Trata-se de um livro com 44 páginas não numeradas e oito poemas.
De certo modo, podemos considerar juvenília toda a obra de um autor que morre com 21 anos, ainda assim, no caso de Guilherme de Faria, esta questão tem que ser repensada, tendo em consideração a precocidade poética do autor, o facto de ter publicado sete livros e uma antologia da sua poesia num período de sete anos, a intensidade do seu amadurecimento e a tragicidade de uma vida tão efémera. Desse modo, e tendo tudo isto em consideração, talvez só possamos considerar juvenília os dois primeiros livros de Guilherme de Faria: POEMAS e MAIS POEMAS, ambos de 1922.

Guilherme de Faria escolheu para o seu primeiro livro oito poemas entre dezenas de outros escritos entre o final e 1920 e o princípio de 1922. Alfredo Pimenta teve um importante papel nesse processo, como se percebe numa sua memória de uma tarde de 1921: “Foi na redacção do Correio da Manhã do saudoso e bem querido Aníbal Soares, que o Guilherme de Faria me procurou, para submeter ao meu juízo o original do seu primeiro livro. De calção e peúga, aquela criança maravilhara-me com a maneira como dizia os seus versos e com os versos que me lia. Perfeitos? Não. Aconselhei toques, supressões, demonstrando-lhe a razão do meu proceder, e acabei por lhe dizer: ‘feito isso, publique, porque é melhor do que muitos livros que por aí andam louvados e exaltados’. E desde esse momento, o Guilherme de Faria ficou sendo, para mim, o Poeta. Publicou o seu livro — Poemas, e sentiu-se acarinhado”.
Na capa deste livro, o poeta assina ‘Guilherme de Faria’, mas no frontispício e na assinatura da epígrafe — que é de sua autoria — aparece excepcionalmente ‘Guilherme Leite de Faria’.
O livro é marcado, logo no princípio, por duas epígrafes — ‘Inscrições’ —, uma de António Nobre [“Lúgubre outono, no mês de Abril!”] e outra do próprio Guilherme de Faria: “Na minha alma precoce e complicada/ Que ainda hoje não posso compreender,/ Passeia, dolorosa e magoada,/ A sombra triste do meu próprio ser”. Com efeito, as duas epígrafes revelam programaticamente o rumo deste primeiro livro de Guilherme de Faria. Por um lado, a presença de António Nobre não é casual: não basta afirmar que o autor do ‘Só’ é uma figura tutelar e prevalecente na vida e obra de Guilherme de Faria; António Nobre e o seu ‘Só’ afectam e condicionam fatalmente a identidade do jovem poeta. Por outro lado, a epígrafe em questão deve ser contextualizada no início de ‘Lusitânia no Bairro Latino’: “Só!// Ai do Lusíada, coitado,/ Que vem de tão longe, coberto de pó,/ Que não ama nem é amado,/ Lúgubre Outono, no mês de Abril!”. É evidente que Guilherme de Faria se identifica profundamente com este “Lusíada” que em abril, no vigor e na florescência da Primavera, é tragicamente um “Lúgubre Outono”. É isso que o jovem autor de POEMAS corrobora na segunda epígrafe, evocando a sua precocidade e complexidade, e admitindo com alguma resignação a “sombra triste” do seu próprio ser.
No primeiro poema deste livro — ‘Soneto da minha tragédia’ — aparecem algumas tendências da poesia de Guilherme de Faria: a evocação pouco consequente de elementos do universo religioso cristão; uma certa tragicidade bem expressa nestes exemplos e reforçada pela precocidade e complexidade do poeta ou pela “singular tragédia” da sua vida; finalmente, à evocação da ‘Dor’ e da ‘Morte’, junta-se a mesma incapacidade ou impossibilidade de amar do “Lusíada, coitado”: “Sem alma, sem amor, sem crença e luz”, “A ninguém, neste mundo tenho amor!”.
Em ‘Soneto’ aparecem os principais espectros da poesia de Guilherme de Faria: o mar, o crepúsculo, a hora saudosa e triste, o desejo da morte. Juntamente com António Nobre, Antero de Quental constitui para Guilherme de Faria uma referência incontornável, evidência impressa neste soneto: “Choram, dentro de mim, versos de Antero”. E se a tristeza, a mágoa e a nostalgia conferem à composição uma dramaticidade profunda, são os tons crepusculares, diante do mar, que possibilitam ao poeta uma das expressões mais impressivas da sua poesia: “Impassível, o Sol vai esmorecer…/ – Quem me dera, meu Deus, também morrer,/ Para, amanhã, no azul — ressuscitar!”. As circunstâncias do suicídio do poeta tornam mais autênticas, comoventes e perturbadoras as palavras da criança de catorze anos. Com efeito, logo no primeiro livro, Guilherme de Faria formula este desejo de morrer e ressuscitar. Alguns críticos literários e leitores consideraram que uma poesia tão elegíaca e nocturna, escrita por um rapaz tão novo, resultava de um artifício literário, era uma expressão estética sem sinceridade; na verdade, reconhecemos hoje a perturbadora coerência que existe entre a vida e a poesia de Guilherme de Faria.
A terceira composição de POEMAS — ‘Crepuscular’ — impõe a paisagem brumosa e marítima. O poeta identifica-se intimamente com a hora crepuscular: “— Esta hora tão triste/ É minha irmã…/ Hora da cor da minha própria cor”; a sua atitude é contemplativa, imersa num comprazimento elanguescente com a tristeza. São abundantes os elementos de natureza religiosa e a evocação de uma mundividência cristã popular. A hora crepuscular é, assim, “Sagrada, macerada,/ Tristíssima, cristã!”, evocação do dolorismo cristão, tendência que coincide com o ambiente lúgubre de grande parte das igrejas portuguesas que Guilherme de Faria possa ter conhecido, decoradas com estatuária reverente e lutuosa, com paramentos roxos e talha dourada.
Em ‘Soneto ao Mar’ lê-se: “Oh Mar! a tua água/ É gémea e fria irmã da minha mágoa!”. Esta identificação com o mar é progressivamente mais íntima e mais intensa, como se comprova em ‘A carta do Mar’: “E eu sinto o Mar, o Mar! Profundo e majestoso,/ Ele vive em meu peito, desigual,/ Formidável, solene e doloroso!/ E eu choro ao ver o Mar…/ Que o Mar é um vitral/ Da minha Dor eterna, heráldica, sombria!”.
‘A Carta do Mar’ é um poema claramente inspirado em ‘Carta a Manuel’, de António Nobre, onde se lê: “Manuel, tens razão. Venho tarde. Desculpa!”. Por seu lado, o poema de Guilherme de Faria principia assim: “Manuel, vou-te escrever…// — O Sol lá vai no Mar, quase a morrer,/ E aqui, junto ao Mar,/ Vivo a morrer, também…”. Trata-se de uma composição muito interessante, com os mesmos tons outonais e crepusculares dos poemas anteriores, com a evocação retórica da dor e do desespero, e com um suave enlevo amoroso por uma menina de catorze anos — Maria Teresa Sepúlveda —, que o poema formula numa recordação: “Recordo o meu Amor…/ Amor que, antes de o ser, se fez saudade”. Foi sempre este o processo de relação conceptual e de experiência existencial que Guilherme de Faria estabeleceu com a realidade: a saudade não é apenas, nas palavras de Sophia, “a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”, mas pré-existe ontologicamente a todas as coisas. Como escreve António Cândido Franco, trata-se de “uma saudade de raiz, radicalmente pessimista, que condena tudo o que terrenamente existe à impossibilidade de ser o que é”.
Mas se isto se pode depreender de um verso escrito por uma criança de 14 anos, também é evidente, neste mesmo poema, a sua irreprimível tendência para a bipolaridade: “E sinto-me febril! Meu Deus, o desespero/ Atinge o céu! E, aflito e desvairado, quero/ Cantar, rezar, subir, viver! A minha Ânsia/ É indomável, feroz, dorida, insuportável!”. E a este arrebatamento incontido e extasiado sucede subitamente um outro estado de espírito: “Mas ao ver o Sol entrar na hora da agonia,/ Chove doçura… E vai a esmorecer o dia,/ Agora! – Hora triste e serena!/ Hora suave, outonal e vesperal e amena!”.
A sexta composição de POEMAS é novamente um ‘Soneto’, em que Guilherme de Faria retoma as epígrafes. Primeiro, uma evocação do verso de António Nobre: “Ainda no bizarro mês de Abril,/ E já o outono aqui, no coração!”. Predomina um certo desengano distanciado e trágico: “E enquanto tudo ri, primaveril!/ Aos outros como eu — doce ilusão! —/ A vida é para mim — ainda em abril! —/ Só nocturna e soturna escuridão!”. No final, num auto-retrato comovente, Guilherme de Faria recorda o conteúdo dos seus versos escolhidos para a epígrafe: “Há só sombras em mim… E, abandonado/ Vou passando na vida, desgraçado,/ Sem jamais me poder compreender!”.
‘Poema’ é o título da penúltima composição deste livro. Guilherme de Faria persiste no processo de identificação com os elementos que encorpam o leitmotiv da sua poesia: “Sinto a noite sinistra e macerada/ Sou a noite de morte e de horror!”. E é neste ambiente nocturno que o jovem poeta evoca os espectros tutelares de Antero de Quental e António Nobre: “— Oh meu divino Antero!/ O teu olhar de luz, tristíssimo e severo,/ É chama, é luz e Amor!”; “Enlevecido de sofrer, […]/ Eu ouço bem,/ Também,/ (Meu pálido Anto!)/ A tua voz de além/ A chorar”.
Curiosamente, percebe-se neste poema que a noite e as trevas têm uma expressão soteriológica na poesia de Guilherme de Faria e possibilitam um sentido ascensional: “E a treva/ Exalta, deifica! Eleva/ A minha alma até Deus!/ — E eu sinto Deus!”. Por outro lado, é significativa a presença de um universo fantasmático com ressonâncias simbolistas: o vento que ulule e geme, os gritos da viúva, a chuva, as trevas de horror e desespero, os mortos a gritar.
No final do poema, um “Hierático e divino amanhecer!”, que antecede os versos mais impressivos deste livro: “E o Mar/ Anda a rezar/ Os meus versos de luz que ainda estão por escrever…”. Quando o poeta, com apenas 21 anos, põe termo à sua vida no mar, abandona o seu corpo, integra essa oração, entrega-se a esses versos de luz que só a morte redentora lhe possibilitaria.
O primeiro livro de Guilherme de Faria termina com o ‘Soneto da minha ânsia’, uma composição febril e de sentido ascensional, em que o poeta exprime o desejo de subir: “Subir! Subir! Subir! — Eis o ideal/ Único desta vida”; em que sente “às vezes, dourada e triunfal,/ Uma luz singular!”. Guilherme de Faria associa frequentemente a condição de poeta a um sentimento de desgraça e fatalidade. Porém, tal como no poema anterior — “Mas sinto em mim/ Arder,/ Cantar/ Um orgulho sem fim!” —, esse sentimento projecta-se numa consciência de superação da fatalidade, assumindo uma expressão de génio e adquirindo um sentido ascensional: “Hei-de subir!/ Que, em minha alma, Senhor!, ‘stou já a sentir/ Uma sombra de génio a perpassar!”.

SONETO

E a tarde cai
Em lágrimas de além e de tristeza…
E, no Mar, o Sol vai
Expirando com pompa e com grandeza…

Hora triste e magoada como um ai!
Hora saudosa, eterna e portuguesa!
(Avé-Maria… Avé-Maria…) E cai
Mais profunda e nostálgica, a tristeza.

Choram, dentro de mim, versos de Antero.
Emoção, Génio, Dor e Desespero,
Tudo ajoelha, solene, pra rezar.

Impassível, o Sol vai esmorecer…
– Quem me dera, meu Deus, também morrer,
Para, amanhã, no azul – ressuscitar!

* ‘Poemas’, pp. 13-15. Este soneto foi integrado da antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, pp. 11-12, com o título CREPUSCULAR. Existe um exemplar manuscrito autógrafo deste poema no Espólio da Rua da Horta Seca [ESP. RHS].

SONETO DA MINHA ÂNSIA

Subir! Subir! Subir! – Eis o ideal
Único desta vida de imperfeito!
Quero subir, meu Deus, tenho o direito
De subir! Que, em minha alma de Imortal,

Sinto, às vezes, dourada e triunfal,
Uma luz singular! E sou perfeito
Embora sinta o Mar dentro do peito!
Sou divino, supremo e desigual!

Então ulula o vento da loucura…
E a voz eterna e clara da Aventura
Chama por mim, gritando, sem cessar…

Subir! Subir! Subir! Hei-de subir!
Que, em minha alma, Senhor!, ’stou já a sentir
Uma sombra de génio a perpassar!

* ‘Poemas’, pp. 39-41. Este soneto foi integrado da antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, pp. 25-26, com o título SUBIR!. Existem três exemplares manuscritos autógrafos deste poema, com o título FEBRE, dois no Espólio da Rua da Horta Seca [ESP. RHS] e um no Espólio de António Hartwich Nunes [ESP. AHN].

 


José Rui Teixeira | 2018