ANTÓNIO HARTWICH NUNES nasceu no dia 20 de julho de 1905, em Lisboa. Foi o último dos oito filhos de Silvestre Jacinto Nunes e de Maria Ferdinanda von Moers Hartwich, que nascera em Regensburg, na Baviera.
António passou a infância em Lisboa, na Rua Duque de Bragança, e em Carcavelos, numa dependência do palácio da Cartaxeira, para onde se mudou com a família. Completou a Instrução Secundária em julho de 1929, com cursos complementares de Ciências e de Letras. Entre 1930 e 1934, trabalhou como empregado comercial na Philips e, depois, na Michelin. Em 1932 conheceu a holandesa Eva Wilhelmine Cohen, com quem casou no final de 1934. Partiu, então, para a Holanda, tendo estabelecido residência em Haia, cidade onde foi Cônsul de Portugal em 1936, nomeado pelo General Óscar Carmona. Nesse mesmo ano, nasceu o seu primeiro filho: Eduardo Hartwich Nunes.
A família mudou-se para Paris em 1937. António trabalhou, então, na Grand National Films; mas o contexto político determina que, passado um ano, a família regresse à Holanda e, depois, a Portugal.
No final de 1939, estabelece-se em Vilar Formoso, ao serviço do Secretariado de Propaganda Nacional [SPN], onde acolhe os refugiados europeus que fugiam ao horror da Segunda Grande Guerra e do Holocausto.
No ano seguinte, António regressa a Lisboa, onde nasce o segundo filho: António Guilherme. Chefia a secção de Turismo do SPN até 1945. Em 1946 coordena a publicidade da KLM em Portugal e no ano seguinte reintegra o SPN, então denominado Secretariado Nacional da Informação [SNI].

Entre 1961 e 1962, António Hartwich Nunes instalou-se no seu atelier em Lisboa, na Rua de Santiago. Aí, dedicou-se à pintura e à escrita. Em junho de 1964 entrou no Grande Sanatório do Caramulo, onde veio a falecer no dia 2 de fevereiro de 1966.
Tal como Emmerico Nunes [1888-1968], o seu irmão mais velho, António foi um artista com uma rara sensibilidade estética e, mesmo não tendo podido estudar arte — como Emmerico, que partiu para Paris em 1906 —, povoou a sua vida de desenhos, pinturas e poemas.

António Hartwich Nunes [‘Ónio’] e Guilherme de Faria [‘Guilh’] conheceram-se no ano letivo 1921-22, no Liceu Passos Manuel. A amizade está documentada num espólio com mais de duzentos documentos, fundamentalmente constituído por cartas e poemas manuscritos autógrafos. O mais antigo testemunho desta amizade é um poema de ANTÓNIO HARTWICH NUNES, intitulado ‘Guilh’ e datado de 1921. A correspondência começa em maio de 1922 e, até ao final de 1928, guarda inscrita uma amizade rara e comovente.
No final de março de 1926, Guilherme escreve a António: “Venho matar saudades dos belos tempos da nossa boa camaradagem de todos os dias: era, então, certa e assídua a nossa correspondência epistolar, como eram perfeitas e constantes a correspondência e milagrosa a harmonia de todos os nossos pensamentos e aspirações. Quero bem crer que, em todo o mundo, não havia duas almas tão irmanadas em virtudes e defeitos, em propósitos definidos e em mal-esboçadas tendências e desejos”.
António Hartwich Nunes nunca se esqueceu do amigo poeta. Em 1964, dois anos antes de morrer, escreveu um poema intitulado ‘Carta de saudade ao Guilherme de Faria’, que termina com estas palavras: “Não há ninguém na Beira-Mar.// Só lá estou eu/ na Beira-Mar./ À espera de ti/ e à espera de mim”.

 


José Rui Teixeira | 2018