Na década de 20, o Chiado era, ao seu jeito, o centro do mundo. Pelo menos era o centro do mundo do poeta Guilherme de Faria. No verão de 1924, Guilherme trabalhava na edição do seu terceiro livro de poesia — ‘Sombra’ — e da ‘Elegia do Amor’, de Teixeira de Pascoaes. Nesse mesmo verão de 1924, João Ameal e Luís d’Oliveira Guimarães publicam um “número ‘specimen’, um número programa” d’O CHIADO, curiosa iniciativa editorial alimentada pelo quotidiano, enfim… ‘faits divers’, como se lê na introdução desta publicação:

“Há vários chiados no Chiado. Há, primeiro, o Chiado da manhã — esperto, cinematográfico, anónimo, bulício de corpos, farândola de destinos — com uma grave e emotiva sugestão de actividade humilde. Há, depois, o chiado quase deserto do meio dia às duas — o chiado-intervalo, esperando que Lisboa almoce para que Lisboa passeie. A seguir, o chiado instável, indeciso das três às quatro — mulheres que desfilam, no drama de fazerem as suas compras nas lojas do centro; homens que o interesse agita ou que o dever orienta; gente que passa, que passa, que passa continuamente, sem parar em parte nenhuma. Por fim, o chiado máximo, o chiado das cinco horas e dos cinco sentidos, ‘match’ de luxos, arena de ‘flirts’, esplendor de pastelarias vibrantes. Depois outro intervalo — o jantar. E, no epílogo, já sobre os arcos voltaicos acesos, o chiado da conversa, da má língua, dos grupos irónicos, dos noctâmbulos. Esta revista, que se chama ‘Chiado’ — chiado maiúsculo — quer ser a síntese de todos esses chiados quotidianos — a síntese, o corolário, a anedota — e, sobretudo, o boato. Quer acompanhar o Chiado, desde o cortejo luminoso da manhã até à plenitude mundana da tarde — e até à malícia crítica da noite. Quer ser a costureira que vai para o atelier, o político que vai para o Terreiro do Paço, a mulher esbelta que vai para o chá, o homem desocupado que vai para a porta das tabacarias — e o intelectual, é claro, que estaciona à esquina da Bertrand e junto às vitrinas da Portugal-Brasil. Será isto um programa? Se acham que é, tenham, porém, a certeza duma coisa: é que é um programa alterado por todos os motivos imprevistos. Tanto mais que o nosso principal motivo — é o próprio imprevisto, que é a grande atracção, a grande sedução da Vida…”.

Com desenhos de Carlos Carneiro, Sousa Gomes, Alfredo Ary e Ramalho Louro, esta revista não teve continuidade e este ‘número zero’ é muito raro. Não sei se Guilherme de Faria leu O CHIADO, mas tinha na sua biblioteca vários livros de João Ameal e de Luís d’Oliveira Guimarães. João Ameal escreveu sobre a poesia de Guilherme de Faria [no jornal O Primeiro de Janeiro, em dezembro de 1922] e Luís d’Oliveira Guimarães ofereceu-lhe ‘O direito ao riso’ em 1925. Seja como for, este Chiado retratado/caricaturado n’O CHIADO era, ao seu jeito, o centro do mundo de Guilherme de Faria.

 


José Rui Teixeira | 2018