Foi Teixeira de Pascoaes quem me apresentou Guilherme de Faria. Em meados de 2003, na livraria/antiquário Chaminé da Mota [na Rua das Flores, no Porto], a minha amiga Lurdes Paiva passou-me para as mãos um exemplar da 1.ª edição de ‘O Génio Português na sua expressão filosófica, poética e religiosa’ [Renascença Portuguesa, 1913], assinado e dedicado por Teixeira de Pascoaes: “Ao jovem e querido poeta Guilherme de Faria, lembrança de Teixeira de Pascoaes”.

Na última página podia ler: “Nota: Pascoaes ofereceu-me este livro em 19 de Março de 1924. G. de F.”.
O entusiasmo pela compra de um livro assinado e dedicado por Teixeira de Pascoaes não impediu a interrogação sobre a identidade de Guilherme de Faria. Em casa, no exemplar da ‘História da Literatura Portuguesa’ que me acompanha desde o Ensino Secundário, Óscar Lopes esclareceu-me: o malogrado poeta Guilherme de Faria tinha nascido em 1907 e morrido em 1929, com apenas 21 anos — “Poeta de um passadismo nocturno, elegíaco e doce que só se realiza em diálogo com a morte e que, formalmente, conjuga ainda ressaibos da velha lírica da medida velha cortês com um à-vontade e uma fluência rítmicas mais modernas”. Pareceu-me interessante, mas confesso que arrumei o livro sem consciência das consequências desta descoberta ocasional.
Alguns meses mais tarde, no outono de 2003, a Lurdes ofereceu-me um exemplar da 5.ª edição de ‘Frei Luís de Sousa’ de Almeida Garrett: na página de rosto, a assinatura de Guilherme de Faria e a data de agosto de 1920. Lembrei-me das palavras de Óscar Lopes e reli, no exemplar de Frei Luís de Sousa que pertencera a Guilherme de Faria, a palavras de Garrett: “Deus aflige neste mundo aqueles que ama. A coroa de glória não se dá senão no céu”.
Só em 2004 li a poesia de Guilherme de Faria, em exemplares que encontrei em livreiros/alfarrabistas, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e na Biblioteca Municipal. E só em 2005, no segundo volume de ‘Pedras à Beira da Estrada’, de Joaquim Paço d’Arcos, encontrei a conferência ‘Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria’… onde comecei a desdobrar um lugar de intimidade.

 


José Rui Teixeira | 2018