Viver sentindo n’alma o fogo ardente
Da mais alta ambição, que nos condena
A lutar, a sonhar eternamente,
— Não vale a pena…

Viver na febre intensa dos desejos
E sonhos da luxúria que envenena
As almas, ao calor de falsos beijos,
— Não vale a pena…

Viver cantando, d’alma leda e pura,
Versos ao som de pastoril avena,
Longe da vida tão hostil e escura,
— Não vale a pena…

Viver pra o meu amor – Vida e Doçura! –
Doce mulher cheia de graça, plena
Do mais divino amor e formosura,
— Não vale a pena…

Não vale a pena… É vão todo o desejo.
— E para quê sonhar, nesta amargura,
Acesa a luz da esperança, que não vejo,
E ter sonhos, quimeras a sorrir,
— Se, para além da humana desventura,
Tenho o leito da eterna sepultura,
Para fechar os olhos e dormir?…


‘Saudade Minha’, 1926, pp. 49-50.
‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, 1929, pp. 71-72.


José Rui Teixeira | 2018
Imagem: ‘Nymphéas’ [1914-1917] | Claude Monet