Um soneto de Anrique Paço d’Arcos — ‘Na morte de Guilherme de Faria’ — exprime a intensa comoção de quem escreve sobre a morte de um poeta e sente a dor da perda de um amigo:

“Noite de Portugal, em que tão perto
Somos do Céu! Envolta em luz do luar;
A sombra de um Poeta anda a rondar,
Perdidamente, pelo areal deserto.

Manhã de nevoeiro… é um sonho o mar,
E o sol, por entre as brumas, vaga, incerto…
Como o espectro perdido do Encoberto
O corpo dum poeta anda a boiar!

Fria manhã de dor, manhã de bruma…
Sobre a areia da praia, entre alva espuma,
Sonha um Poeta, ainda olhando o Céu!

Noite de Portugal, cheia de mágoas…
Como o rasto da lua, à flor das águas,
Voga a alma do Poeta que morreu!”

Anrique Paço d’Arcos, ‘Cidade morta’, 1939, pp. 55-56.

Soneto transcrito por Anrique Paço d’Arcos no exemplar de ‘Cidade morta’ que ofereceu e dedicou a Luís Leite de Faria, irmão do poeta.

 


José Rui Teixeira | 2018