Em 1915, Guilherme de Faria tem apenas sete anos e vive ainda em Guimarães; Mário de Sá-Carneiro publica ‘Céu em Fogo’ [com uma belíssima capa de José Pacheco] e regressa a Paris [em julho]; nesse mesmo ano são publicados os dois números da revista ‘Orpheu’ [em março e junho], ‘Arte de ser português’ de Teixeira de Pascoaes, ‘Ausente’ de Mário Beirão e ‘A Epopeia da Planície’ de António Sardinha.
Em 1914, ano em que Pascoaes publica ‘Verbo Escuro’ e ‘A Era Lusíada’, encontramos o primeiro poema datado de Alberto Caeiro [março], a ‘Ode Triunfal’ de Álvaro de Campos e as primeiras odes datadas de Ricardo Reis [junho]; em setembro, Fernando Pessoa escreve ao poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues: “O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro do Desassossego. Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos”. Mário de Sá-Carneiro publica ‘A Confissão de Lúcio’ e ‘Dispersão’.

Guilherme de Faria chega a Lisboa no outono de 1919, com apenas doze anos. Na década seguinte publicaria sete livros de poesia, tendo o último — ‘Desencanto’ — sido publicado no dia 4 de fevereiro de 1929, exatamente um mês após o suicídio do poeta. Em julho de 1929 é publicada a antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, o “livro definitivo” de um poeta que se integrou na estética neorromântica lusitanista, assumida numa poesia que se encaminha da influência de poetas como Antero de Quental, António Nobre, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro e José Duro, em contexto romântico-simbolista e decadentista, para uma poesia de inspiração quinhentista, sobretudo a partir de 1926, próxima dos universos poéticos neorromânticos lusitanistas de Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira e José Bruges d’Oliveira.
Durante os quase dez anos em que viveu no n.º 11 da Rua da Horta Seca [junto ao Largo de Camões, entre o Chiado e o Bairro Alto], Guilherme de Faria reuniu mais de 900 livros na sua biblioteca pessoal; doutrinou-se no Integralismo Lusitano, próximo de Alfredo Pimenta e Luís de Almeida Braga; frequentou o séquito de Teixeira de Pascoaes n’A Brasileira do Chiado, no qual contactou com Raul Brandão e Mário Beirão, entre outros, e no qual introduziu Anrique Paço d’Arcos; ofereceu os seus livros a poetas como Guerra Junqueiro e Fernando Pessoa; conheceu Jaime Cortesão e Raul Proença; relacionou-se com mais ou menos intimidade com Fausto Guedes Teixeira, Afonso Lopes Vieira, António Correia d’Oliveira, Raul Leal, Almada Negreiros, Mário Saa, António Botto, António Pedro, entre tantos outros. É verdadeiramente impressionante que alguém que se tenha suicidado com apenas 21 anos, tenha conseguido estabelecer uma teia de contactos com uma parte significativa da intelligentsia portuguesa do seu tempo.

Há dois livros de Guilherme de Faria na biblioteca de Fernando Pessoa: ‘Poemas’ e ‘Mais Poemas’, ambos assinados e dedicados. Lê-se no exemplar de ‘Poemas’: “Ao senhor Fernando Pessoa, homenagem de Guilherme de Faria”; o mesmo no exemplar de ‘Mais Poemas’ que, além disso, tem a data de 6 de outubro de 1923. Os livros foram oferecidos a Fernando Pessoa no dia em que Guilherme celebrou dezasseis anos. Não sei se chegaram a conhecer-se pessoalmente ou se os livros constituem apenas uma oferta de circunstância, como de certo modo as dedicatórias parecem indicar.
Anrique Paço d’Arcos recorda-se de ter visto Fernando Pessoa, quando entrou no Martinho da Arcada na companhia de Guilherme de Faria: “Nessa minha fugaz incursão nos meios literários uma falha se verificou de que hoje guardo verdadeiro desgosto: não ter conhecido Fernando Pessoa. Lembro-me vagamente de o ter visto uma vez a uma mesa do Martinho da Arcada, quando ali entrei com o Guilherme para este comprar cigarros. Mas então nem literariamente o conhecia ainda, e para sempre o perdi”.
Com efeito, se os dois poetas se conhecessem, ter-se-iam certamente cumprimentado e Guilherme de Faria teria apresentado Anrique Paço d’Arcos a Fernando Pessoa. Porém, é possível que este episódio tenha sido anterior a outubro de 1923.
Por outro lado, no catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria, há apenas uma referência a Fernando Pessoa: à edição de 1921 da sua tradução de ‘A Voz do Silêncio’, de Helena Blavatsky. Não encontrei outra referência ao poeta entre os documentos de Guilherme de Faria que foi possível reunir.
Seja como for, Guilherme de Faria relacionou-se e correspondeu-se com inúmeros amigos de Fernando Pessoa, como é o caso de Raul Leal, Vitoriano Braga, Almada Negreiros [que retratou Guilherme de Faria em fevereiro de 1927], Mário Saa e António Botto.

Quando li pela primeira vez o catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria, em 2007, reparei fundamentalmente em cinco ausências: em mais de 800 referências, nenhum livro de Júlio Brandão, de Manuel Laranjeira, de Judith Teixeira, de Jaime Cortesão, de Mário de Sá-Carneiro.
Com efeito, Guilherme de Faria conheceu pessoalmente Jaime Cortesão e, tendo em consideração a obra do autor de ‘Divina Voluptuosidade’ [1923] e o seu contexto, seria expectável encontrar alguns dos seus livros no catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria, tal como seria expectável, em função dos leitmotive partilhados, encontrar ‘Saudades’ [1893] ou ‘O Jardim da Morte’ [1898], de Júlio Brandão, e ‘Comigo’ [1912], de Manuel Laranjeira.
O caso de Judith Teixeira é diferente. Encontrar a referência a um dos seus livros no catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria justificar-se-ia em função do contexto da polémica ‘Literatura de Sodoma’: liderada por Pedro Teotónio Pereira, a Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, consegue que o Governo Civil mande apreender e queimar, em março de 1923, os livros ‘Decadência’ [1922], de Judith Teixeira, a 2.ª edição de ‘Canções’ [1922], de António Botto, e ‘Sodoma Divinizada’ [1923], de Raul Leal.
Guilherme de Faria guardava na sua biblioteca os exemplares de ‘Canções’ e de ‘Sodoma Divinizada’, que António Botto e Raul Leal lhe tinham oferecido, mas nem ‘Decadência’ nem qualquer outro livro de Judith Teixeira são mencionados nos cadernos onde Guilherme de Faria catalogou os seus livros até junho de 1927. Trata-se de dois cadernos em quadriculado, com capa preta, datados de 1924 e 1926; Miguel de Faria [irmão do poeta] reuniu os dois cadernos numa encadernação sóbria e anotou na página 34 do segundo volume, depois da referência a ‘No sertão d’África’, de Manuel Kopke: “É este o último livro inscrito neste catálogo. Foi comprado em junho de 1927 e, de então até janeiro de 1929, em que faleceu, Guilherme de Faria comprou muitos mais, que aqui não figuram”.
Esse último livro do catálogo corresponde à entrada n.º 861. Com efeito, à data da morte de Guilherme de Faria, de acordo com o testemunho do seu irmão, a biblioteca terá reunido mais de 900 livros. Tendo em consideração os 861 títulos catalogados, estão inscritos nesses cadernos os nomes de mais de trezentos autores. E se a presença de um livro não prova a sua leitura, a ausência de um autor não prova o desconhecimento da sua obra.

Talvez as ausências de Júlio Brandão, Manuel Laranjeira e Jaime Cortesão sejam mais improváveis, mas confesso que é a de Mário de Sá-Carneiro que me causa maior apreensão. É verdade que Guilherme de Faria só chega a Lisboa no outono de 1919, três anos após o suicídio do autor de ‘Céu em Fogo’. Seja como for, o facto de não se terem conhecido pessoalmente é irrelevante, basta termos em consideração o diálogo íntimo, existencial e literário que Guilherme de Faria estabelece com Antero de Quental ou António Nobre, que morreram antes de o autor de ‘Saudade Minha’ ter nascido.
Também é verdade que o contacto que Guilherme de Faria manteve com Raul Leal, Vitoriano Braga, Almada Negreiros, Mário Saa ou António Botto permite considerar expectável uma referência a Sá-Carneiro no catálogo da sua biblioteca, numa carta, num qualquer apontamento manuscrito.
O facto de as tiragens dos livros de Mário Sá-Carneiro serem pequenas [da ‘Dispersão’, por exemplo, no final de 1913, imprimiram-se apenas 250 exemplares] faz com que, passados dez anos, os seus livros fossem já muito raros. Ou seja: na década de 20 do século passado, nem o enorme apetite de Guilherme de Faria por livros poderia ter sido suficiente para conseguir os de um Mário de Sá-Carneiro, cuja memória [fora do círculo restrito dos seus amigos mais íntimos] deve tanto a Fernando Pessoa, logo por esse texto notável, publicado na revista Athena, onde se lê: “Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas de incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor. […] Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que não se definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim”.


José Rui Teixeira | 2018