No dia 8 de novembro de 1922, cerca de seis meses depois da publicação de ‘Poemas’, Guilherme de Faria apresenta MAIS POEMAS. Trata-se de um livro com 64 páginas e onze composições.
‘Mais Poemas’ é dedicado a Alfredo Pimenta, o que revela a gratidão de Guilherme de Faria e a importância tutelar do poeta vimaranense que, de certo modo, apadrinhou a sua estreia literária. São de Alfredo Pimenta estas palavras, a propósito da edição do segundo livro de Guilherme de Faria: “Passados tempos, voltou com novo original. Depois de algumas observações, disse-lhe: ‘e, agora, não precisa de consultar ninguém; tem asas magníficas; voe à sua vontade!’ E saiu o seu segundo livro – ‘Mais Poemas’, que me é consagrado. Desvaneceu-me profundamente o facto, porque nenhum outro livro seu tem consagração pessoal”.

A epígrafe – ‘Inscrição’ – escolhida por Guilherme de Faria para este livro retoma o mesmo sentimento de desajuste ontológico e existencial. Se em ‘Poemas’ o verso de António Nobre evocava um “Lúgubre outono, no mês de Abril!”, em ‘Mais Poemas’ lê-se um verso de Eugénio de Castro que enfatiza o mesmo paradoxo: “A minha mocidade tem cabelos brancos”.
A primeira composição deste livro, ‘Poema de súplica’, é dedicada à “Virgem Santíssima, cheia de Graça, Mãe de Misericórdia”. Trata-se de um poema que revela uma religiosidade expressiva, fundamentalmente cénica, que reintroduz os elementos ‘mar’, ‘noite’ e ‘saudade’: “Oh Mar! meu irmão!/ Foi a tua voz dolorosa/ A voz magoada e primeira/ Que veio embalar, saudosa,/ Na viuvez da minha infância,/ Meu berço de mágoas, triste!”.
Como em muitos outros autores românticos e neorromânticos, a poesia de Guilherme de Faria resvala em certas ocasiões para uma configuração devocional própria da da religiosidade popular. Naturalmente, é difícil perscrutar na poesia de um autor de 15 anos uma reflexão consequente sobre a condição humana ou o sentido de inquietação inerente a um poeta que se situa diante do mistério de Deus, que se interroga sobre o sentido da vida e enfrenta a ininteligibilidade da morte, ou que interpreta a experiência humana na definição e ordenação de princípios éticos e estéticos. Ainda assim, diante do ‘Só’ – “Poiso os meus olhos tristes e castanhos/ Neste Livro de sombra e elegia” –, no poema ‘Anto’, é esse jovem poeta de 15 anos que dialoga com António Nobre – “Oh meu pálido Irmão, tão pálido e tão doce!” –; é esse jovem poeta de 15 anos que, em ‘Poema’, recorda o sentimento de perda da inocência, assunto que o perturba intensamente até ao suicídio e que aqui aparece assim formulado: “E, nos meus olhos fundos e castanhos,/ – Olhos virgens, saudosos! –/ Gritavam e ardiam desejos estranhos/ E rubros, luciferinos, venenosos!”.
Em ‘Lírios de sangue’, poema dedicado ao amigo António Hartwich Nunes, numa evocação dos versos do seu primeiro livro – “Impassível, o Sol vai esmorecer…/ – Quem me dera, meu Deus, também morrer,/ Para, amanhã, no azul – ressuscitar!” –, Guilherme de Faria escreve: “Quero beber! beber! quero beber!/ Quero beber até me embriagar!/ E depois, meu Irmão!… quero morrer,/ Para, amanhã, no azul – ressuscitar!”.
São recorrentes neste poema os lírios, o sangue, uma certa atmosfera crepuscular, com matizes simbolistas, que associamos ao universo conceptual da estética decadentista. Em ‘Tragédia lirial’, enquanto entardece, o poeta “perde” os olhos no mar; sente-se na sua poesia uma certa sensualidade lânguida, mórbida, que se compraz na distância, na ausência e na morte: “E os meus lábios no teu rosto/ Saudosamente a rezar”; “Eram pálidos e frios, […] lívidos e mortos/ Os lírios do Meu Amor…”. Recordamos António José Saraiva, quando evoca uma certa “religião do amor em Portugal” que é, entre nós, “quase uma forma de misticismo, mas de um misticismo que não logra despegar-se inteiramente da carne”.
Neste sentido, a saudade que assoma na poesia de Guilherme de Faria mesmo que traduza vagamente o rumor do canto metafísico de Pascoaes, situa-se preferencialmente no âmbito da matriz evasiva e nostálgica de António Nobre. Em ‘Mais Poemas’ percebe-se que, no universo poético de Guilherme de Faria, a saudade permanecerá vagamente ligada ao apego que se criou aos sítios, aos tempos e às pessoas que ficaram distantes; manifestar-se-á como uma expressão de um ‘amor à portuguesa’ que parece comprazer-se na evasão e na nostalgia.
Como afirma António José Saraiva, “o amor é um tema extraordinariamente obsessivo na literatura portuguesa”; trata-se em geral do amor-paixão que se compraz na ausência, na impossibilidade de realização, na autodestruição. A poesia de Guilherme de Faria, particularmente nesta primeira fase, é habitada por esse sentimento em que uma sensualidade insatisfeita e uma certa espiritualidade impura se temperam mutuamente.
Nos poemas que se seguem – ‘Canção’, ‘Poema’ e ‘Aos lenços’ –, encontram-se alguns aspetos relevantes na caracterização da poesia de Guilherme de Faria. Veja-se, por exemplo, o modo como António Cândido Franco considera a saudade neste contexto particular: “Trata-se de uma saudade de raiz, radicalmente pessimista, que condena tudo o que terrenamente existe à impossibilidade de ser o que é. […] Daí a insatisfação radical, com a ideia de que nascer é ficar fatalmente desterrado”. Nesse sentido, António Cândido Franco cita o poema ‘Rimance das Águas’, de ‘Manhã de Nevoeiro’: “A chuva lenta caía;/ E lentamente a cair,/ Fria, fria,/ Parecia já sentir/ Saudades donde caía”. Este mesmo estado de espírito que Guilherme de Faria empresta à chuva, aparece em ‘Mais Poemas’ emprestado a uma pedra – “pedra que choras, na rua,/ Tu choras, de além…” –, como se de uma carência ontológica se tratasse, como se tudo – até mesmo a chuva ou uma pedra – pudesse lamentar a sua condição e desejar uma reintegração de natureza protológica e escatológica, em que o princípio de todos os seres coincide com o seu fim último.

E se em ‘Aos lenços’ reconhecemos uma toada popular, que caracteriza muitas das composições de Guilherme de Faria, ‘Poema’ evoca uma experiência partilhada com o amigo António Hartwich Nunes: “Ónio ouvia os gritos na azinhaga!/ Guilhe sentia os gritos na alameda!”. Essa experiência suscitou o poema de Guilherme de Faria e um curioso desenho de António Hartwich Nunes, datado de Janeiro de 1923, com a legenda: “Eram sombras, aos gritos, na azinhaga!/ Eram sombras, aos gritos, na alameda!”.
A antepenúltima composição de ‘Mais Poemas’, também intitulada ‘Poema’, persiste na “paisagem aquática e lunar” e introduz elementos passadistas que revelam um gosto incontido pelo medievalismo romântico, em que o poeta se projeta: “Sonham meus olhos, nómadas e tristes”.
Em ‘Sombra’, tal como em ‘Tragédia lirial’, uma certa inconsistência do discurso desvela um imaginário simbolista frágil, a fragmentação inusitada de certas imagens, uma idêntica experiência de perda, o mesmo tom esmaecido em que as rosas aparecem esfolhadas e negros os lírios.
O livro termina com o ‘Poema de exaltação’, um canto sebastianista em que Guilherme de Faria se assume como monárquico, num discurso que nos ajuda a situá-lo na condição de reconhecido orador entre os jovens afetos ao Integralismo Lusitano. Assim o poeta anuncia: “No silêncio estelar da noite luarenta,/ Amanheceu a Voz azul e branca! […] Vem dos longes de Alcácer?… – Nem eu sei!/ Mas diz, e canta, e grita, azul e branca:/ – Viva El Rei! Viva El Rei!”. A certa altura sente-se o entusiasmo do poeta: “Ó Moços! vós, também,/ Vinde ouvir, vinde sentir/ Aquela Voz que vem dos areais de Além,/ Dos longes brumosos de Alcácer-Quibir. […] Vamos cantar, lutar,/ – Ó Moços! meus irmãos –/ Que El Rei há-de voltar!”. Em ‘Mais Poemas’ aflora já uma indefinida esperança sebastianista.


ÍNDICE

[1] Poema de súplica [pp. 13-18]
[2] Anto [pp. 19-22]
[3] Poema [pp. 23-26]
[4] Lírios de sangue [pp. 27-29]
[5] Tragédia lirial [pp. 31-34]
[6] Canção [pp. 35-37]
[7] Poema [pp. 39-41]
[8] Aos lenços [pp. 43-45]
[9] Poema [pp. 47-50]
[10] Sombra [pp. 51-54]
[11] Poema de exaltação [pp. 55-58]

Epígrafe [«Inscrição»]: “A minha mocidade tem cabelos brancos.” [Eugénio de Castro]. Livro com 64 páginas e 11 composições, dedicado a Alfredo Pimenta. Formato: 13,5×20 cm. Cólofon: “Acabou de se imprimir este livro na Imprensa de Manuel Lucas Torres, em Lisboa, na Rua do Diário de Notícias, 57 a 61, aos 8 de Novembro de 1922”.
Para a antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, Guilherme de Faria escolhe apenas duas composições: ‘Poema de súplica’ [pp. 13-18] e ‘Poema’ [pp. 47-50], com alterações e títulos diferentes: ‘Súplica’ [pp. 17-20] e ‘Sinfonia’ [pp. 28-29], respetivamente.


POEMA

Ónio ouvia os gritos na azinhaga!
Guilhe sentia os gritos na alameda!
Eram sombras, aos gritos, na azinhaga!
Eram sombras, aos gritos, na alameda!

E a noite procelosa e dolorosa!
E os gritos roucos, na azinhaga, além!
E a sombra macilenta e dolorosa!
E, além, a soluçar, sombras de Além!

Floriram rosas bravas em outubro.
No jardim do castelo, à beira-Mar,
Floriram rosas pálidas de outubro!
Rosas pranteadas na aridez do Mar…

E o Sol vai morrer, minialmente rubro,
Nas ondas nacaradas do alto Mar…

* ‘Mais Poemas’, pp. 23-26.


SOMBRA

Adormecem, pálidos, cansados,
Os gritos do vitral.

Olhos de Morta, baços e parados,
Gritos de luz na sombra do vitral…

Adormeceram!

Esfolharam-se rosas,
– Num sorriso…
Lírios negros, dálias – um sorriso…

Verde…
Tudo verde…

Perdi o meu olhar de sombra, na charneca,
Perdi o meu olhar na sombra da charneca…

Ai, a Sombra esmaecida!
Ai ondas, ondas do Mar!
Ai, a sombra esmaecida!…
Na sombra do meu olhar…

Meu amor!
As tuas mãos graciosas e formosas!

Esfolharam-se rosas…
Um sorriso…
A luz pálida e frouxa dum sorriso.

Amanheceu, a sorrir.
Maré febril, rubra e louca!

E vem, meu bem, a sorrir,
Vem beijar a minha boca…

* ‘Mais Poemas’, pp. 51-54.


IMAGENS: capa de ‘Mais Poemas’ e desenho de António Hartwich Nunes, datado de janeiro de 1923, que ilustra o poema aqui transcrito das páginas 23-26: “Eram sombras, aos gritos, na azinhaga!/ Eram sombras, aos gritos, na alameda!”.

 


José Rui Teixeira | 2018