JOAQUIM Belford Corrêa da Silva [PAÇO D’ARCOS] nasceu em Lisboa, a 14 de junho de 1908. Na sua infância e juventude acompanhou o seu pai, oficial da Marinha, em diversos governos no Ultramar. Entre 1912 e 1922, esteve em Angola, atravessou os Estados Unidos da América, residiu em Macau [onde foi aluno de Camilo Pessanha], passou temporadas em Hong-Kong e conheceu o sul da China. Em 1922, regressou com a família a Lisboa. Entre 1925 e 1927, foi secretário do Governo da Companhia de Moçambique. Em 1928, partiu para o Brasil, onde trabalhou como antiquário e jornalista. Em França, em 1931, escreveu o seu primeiro romance: ‘Herói derradeiro’. Tendo regressado a Lisboa, foi empregado bancário, trabalhou na Companhia Nacional de Navegação e, em 1936, assumiu a direção dos serviços de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cargo que ocupou até 1960. Durante esse período, viajou por todo o mundo e escreveu uma obra notável: mais de cinquenta títulos, entre os quais se destacam os seis volumes de ‘Crónica da vida lisboeta’.

Joaquim Paço d’Arcos presidiu à Sociedade Portuguesa de escritores e foi membro da Société des Gens de Lettres de France e da Academia Brasileira de Letras. Em 2008, no centenário do seu nascimento, foi publicado ‘Correspondência e textos dispersos (1942-1979)’. E os três volumes de ‘Memórias da minha vida e do meu tempo’ [publicados entre 1973 e 1979] foram reunidos num só volume em 2014.
Foi romancista, novelista, contista, dramaturgo, ensaísta e poeta. Morreu em Lisboa, no dia 10 de junho de 1979.
Como escreveu João Bigotte Chorão: “Espectador do mundo, viu muitas coisas e delas se maravilhou. Foi, num país de literatos maldizentes e ensimesmados, um ser convivente. Celebrou a família e deu provas de coragem na doença e na adversidade. E, sem ideologia que o limitasse ou lhe impusesse sujeições, não teve outro partido senão o de Portugal. Daí que Joaquim Paço d’Arcos possa terminar o terceiro volume das suas ‘Memórias’ com estas nobres palavras: ‘Ainda, nesta narrativa, quedo longe dos dias atuais. Chegarei alguma vez a atingi-los com o meu depoimento, desvalioso mas sereno? Sereno apesar dos golpes tremendos que me feriram na sensibilidade lusíada, na fazenda e na própria carne retalhada? Sereno, sim, porque isento de ódios, de invejas ou de mesquinhez. Possam as minhas palavras guardar alguma altitude, aquela em que eu tenho procurado manter a trajetória da vida, pisando o caminho que foi o de meu pai'”.

Joaquim Paço d’Arcos e Guilherme de Faria conheceram-se no ano letivo 1922-23. Expulso do Liceu Passos Manuel, Guilherme é transferido para o Liceu Pedro Nunes. Joaquim, de regresso a Lisboa depois de três anos vividos com a família em Macau, inscreve-se no mesmo liceu. Recorda Joaquim Paço d’Arcos: “Quando nos reunimos, nesse primeiro dia de aulas, o Guilherme de Faria completava exactamente quinze anos […]. Mas já era Poeta publicado, pois meses antes, atirara para as montras do Chiado um primeiro livro de oito poesias que intitulara singelamente ‘Poemas'”.
Esta memória está inscrita num extraordinário documento intitulado ‘Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria’: conferência que Joaquim Paço d’Arcos pronunciou no dia 25 de setembro de 1970, no Paço Ducal de Guimarães, publicada na separata da revista Ocidente [vol. LXXIX, Lisboa, 1970] e, posteriormente, recolhida no segundo volume de ‘Pedras à Beira da Estrada’ [Lisboa, Guimarães Editores, 1971, pp. 329-386].
Dois anos antes, em outubro de 1968, pouco depois da morte de Manuel de Castro, Joaquim Paço d’Arcos hospeda-se no Hotel do Luso com o intuito de escrever a conferência. Numa carta escrita a Luís Forjaz Trigueiros, datada de 16 de outubro de 1968, contextualiza a redescoberta de Guilherme de Faria:

“Querido Luís:
Estou aqui num hotel grande e deserto — quatro ou cinco hóspedes — num outono elanguescente e muito calmo. Separámo-nos depois da nossa conversa, em seguida à missa pelo Manuel de Castro, em que nos encontrámos. E a propósito do Manuel de Castro e do trabalho que vim encetar aqui, deixe-me prolongar a conversa e falar-lhe da minha surpresa e descoberta.
Eu fui companheiro do Manuel de Castro e do Guilherme de Faria na minha rápida passagem pelo 5.º ano do Pedro Nunes, no ano lectivo de 22-23, após o meu regresso de Macau. Troquei, porém, o liceu pelo Banco Inglês e o Guilherme também não concluiu o 5.º ano. Algum tempo decorrido fui para África, voltei dois anos depois de Moçambique para partir em seguida para o Brasil e foi lá que me surpreendeu, em janeiro de 29, a notícia do suicídio do Guilherme. Quando regressei, em 30, o Guilherme era uma recordação para os amigos e um nome na Poesia portuguesa. Soube, vagamente, que um dos motivos que o haviam levado ao suicídio fora a sua paixão, não correspondida, pela Emilinha, irmã do Manuel de Castro. No meu juízo íntimo formou-se também a ideia de que outro motivo, poderoso, fora a sua inadaptação à vida de adulto, que exigia dele responsabilidades para as quais não tinha a menor preparação ou gosto, num meio onde ser Poeta não é profissão legítima e rendosa.
Tornei a estreitar os meus laços com a família do Guilherme e o pai dele voltou a ser o meu médico, como fora entre 23 e 25 e entre a vinda de África e a ida para o Brasil.
No decorrer desses quase quarenta anos continuei a ver de vez em quando o Manuel de Castro, convidei-o três ou quatro vezes para minha casa e jantei três vezes em casa dele: a primeira na Rua da Quintinha, com a mulher já enferma, mas ainda presente; a segunda, quando era meu vizinho, na António Augusto de Aguiar; a mulher, muito doente, já não compareceu à mesa, mas ele debatia-se para não se isolar do mundo. A terceira vez, já estava ele casado com a senhora que deixou agora viúva, há cerca ou há mais de um ano, na sua casa na Calçada das Necessidades.
Eu já fora convidado para pronunciar em Guimarães a conferência sobre o Guilherme de Faria, talvez por ser escritor e ter sido amigo dele. E procurava reunir elementos para o trabalho. Sabia que o Manuel de Castro fora o maior amigo do Guilherme e nessa noite, em sua casa, referi-lhe até o boato da paixão infeliz deste pela Emilinha como causa possível do suicídio. Perguntei-lhe se não teria cartas do Guilherme. Ele foi buscar um pequeno baú castanho, de lata muito ferrugenta, e entregou-mo, pondo à minha disposição o seu conteúdo. Abri-o e verifiquei que continha maços de cartas e de envelopes envelhecidos. Trouxe-o para casa, como achega para o futuro trabalho.
Não tornei a ver o Manuel, nem soube da doença que o assaltou e minou durante meses, até à morte, há um mês, quando eu estava em Londres.
Fixara no começo deste mês a vinda para o Luso impreterivelmente para o dia 12, para começar neste sossego o trabalho há dois anos prometido sobre a vida e obra do Guilherme. E sei entretanto, há poucos dias, de surpresa, no acaso de uma conversa, que o Manuel de Castro morrera na minha ausência. E sou em seguida prevenido por si da Missa do 30.º dia, mandada rezar pela viúva e pela Emilinha. A Emilinha, que eu não via há quarenta anos e que supunha ir encontrar na missa pelo irmão, na altura exacta em que ia encetar o estudo sobre a vida, obra e morte daquele que por ela se deixara afogar!
Impressionou-me a coincidência, que não se verificou aliás, por a Emilinha, doente, segundo me disseram, já não sair de casa. Mas outra coincidência ficou a impressionar-me o espírito: a da morte recente do Manuel e da missa por sua alma no dia exacto que fixara, após dois anos de adiamentos, para encetar o trabalho sobre o seu maior amigo, o nosso companheiro do Pedro Nunes de há quarenta e seis anos!
Você deixou-me à porta de minha casa e pouco depois parti para aqui, trazendo na bagagem o recheio amarelecido do baú de lata ferrugenta. Havia mais de um ano que esse recheio estava em meu poder. Poderia ter tomado conhecimento dele ainda em plena vida do Manuel e, até, obter deste os conhecimentos complementares sobre as ações e o pensamento do Guilherme, que tão úteis seriam para o meu trabalho. Mas não, nunca no ano inteiro, esmagado por tantos afazeres, abrira sequer a tampa do baú. Só agora, com o Manuel morto, ia debruçar-me sobre aqueles papéis.
Quis o destino que a correspondência do Guilherme para o Manuel de Castro permanecesse quarenta anos — a última carta é de 3 de setembro de 28 — guardada naquele baú, sem que ninguém a violasse, sem que o próprio Manuel, segundo quase depreendi da sua última conversa, a voltasse a ler. E quis o mesmo destino que só eu me inclinasse sobre ela quando um e outro — autor e destinatário — meus companheiros da mocidade, haviam já desaparecido, um há quarenta anos, o outro ainda não há quarenta dias!
E foi tão forte a impressão que recolhi da leitura daquelas cartas que não resisti ao ímpeto de prolongar a nossa conversa melancólica de há dias para lhe dizer que o Guilherme voltou à minha presença, quase meio século passado — são de 23 as primeiras páginas — mais vivo, mais humano, na sua infinita fraqueza e na alta inspiração, na imperfeição e no sonho, do que em toda a sua obra impressa de Poeta!
Pensar que o Manuel, a quem o Guilherme tão exaltadamente quis — como daquelas cartas transparece — talvez porque por detrás dele, Manuel, estava a Eleita, inatingível, estava ELA, com maiúsculas, por quem ele, Guilherme, pergunta nos ‘post-scriptum’ — pensar que o Manuel guardou quarenta anos sepulto este legado extraordinário, interpretação a fogo da alma e da obra de um grande poeta, e o deixava esquecido se não fora a minha curiosidade; pensar que estas cartas me foram reveladas na altura em que fechou os olhos o amigo comum a quem foram dirigidas, não antes, nem depois, parece-me um daqueles caprichos do destino que tanto têm amarrado a minha obra às emoções duma vida vivida em amplitude e profundidade.
Mas, pensando bem, talvez só escrúpulo e pudor da grande amizade perdida, da fervente amizade perdida, tenha levado o Manuel de Castro a guardar, esquecidas e invioladas, as cartas do Guilherme. E tenha sido um gesto extraordinário de generosa elegância e apreço por mim a entrega confiada desse tesouro a quem dele ia fazer o que quisesse.
Estou certo de que o poderei revelar, honrando a memória do Guilherme, tacteante e amargurado, e a do Manuel, que em quarenta anos eu afinal não conheci! Mas isso levar-me-á muito longe, muito mais longe do que uma simples conferência. É assunto para conversarmos em Lisboa.
Até lá um abraço do velho amigo
Joaquim”.

Esta impressionante carta explica como Joaquim Paço d’Arcos reencontrou os dois companheiros de liceu num esquecido e amarelecido epistolário, e testemunha a comoção desse reencontro, que possibilitou a escrita de ‘Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria’, assim como de algumas importantes passagens de ‘Memórias da minha vida e do meu tempo’. Joaquim Paço d’Arcos — com a sua memória e com o seu trabalho em torno da correspondência entre Guilherme de Faria e Manuel de Castro — é um figura central no processo de recuperação da memória histórico-literária de Guilherme de Faria.