JOSÉ d’Ornelas BRUGES D’OLIVEIRA, filho de António Alves d’Oliveira e de Eugénia d’Ornelas Bruges, nasceu em Lisboa, no dia 6 de julho de 1899. Suicidou-se em Tânger, onde exercia funções consulares, no dia 24 de abril de 1952.

Em 1917, funda ‘A Tradição’, bimensário integralista, literário e artístico, de que é redator e administrador. Em setembro desse ano, publica o seu primeiro livro: ‘Da Terra e do Mar’, onde se percebe imediatamente a influência de Afonso Lopes Vieira e António Sardinha. E é precisamente António Sardinha quem apadrinha — n’ ‘A Monarquia’ — o livro de José Bruges d’Oliveira. Antes de citar alguns poemas de ‘Da Terra e do Mar’, António Sardinha alerta para algumas fragilidades: “Há, por vezes, fraquezas de ritmo, hesitações na idealização, frisantes influências alheias nesse pequenino feixe de poemas? Há. E José Bruges d’Oliveira será o primeiro a reconhecê-lo. Mas que poeta já inconfundível, que lírico cheio de intensidade e de ternura”. E termina saudando o poeta e a publicação do seu “comovido livrinho”: “Gostosamente o saúdo, com um futuro carregado das mais belas promessas, e creio bem que o neogarrettismo, entrevisto há mais de vinte anos por Alberto d’Oliveira, acabará, com a geração de José Bruges, por ser, como verdade artística, um dos aspetos conseguidos da verdade portuguesa”.
Em 1918 são publicadas ‘As Minhas Cantigas’ [“Quadras de José Bruges d’Oliveira, com uma carta do eminente poeta Afonso Lopes Vieira”]. Em 1919 é impressa uma pequena brochura intitulada ‘Prólogo da Festa’ e um novo livro: ‘Missal do Amor’, assinado com o pseudónimo José Lupi de Mena. O jovem poeta estava integrado na ação política e cultural do Integralismo Lusitano e rumava a Coimbra para estudar Direito, curso que não terminou.
Seguem-se ‘Versos Fúteis’ e uma plaqueta intitulada ‘O Soneto das Fontes’ [1920], ‘Ao Soldado Português Desconhecido’ e ‘Ophir’ [1921], e ‘Canções do Longe e do Perto’ [1922].
Durante esse período colaborou com várias revistas: ‘Ilustração’, ‘Contemporânea’, ‘Europa’, ‘Fradique’ e ‘Bandarra’.
Em 1929 publica ‘Baladas ao Vento’, livro de que não se conhece qualquer exemplar e que, de acordo com uma entrevista de 1950, foi “impresso numa tipografiazinha portuguesa de Nova Iorque. Trinta exemplares apenas. De aí o Lopes Vieira ter-me chamado o ‘Crisfal da Broadway’”.
Entre 1928 e 1930, viveu nos Estados Unidos da América e no Canadá. Apesar de só circunstancialmente lhe descobrirmos o rasto, no final da década de 30 estava em Paris. Vivia, então, como tradutor e cronista,
No final da década de 40, José Bruges começou a corresponder-se com a poetisa brasileira Cecília Meireles. Sobre essa amizade pouco se sabe. Encontram-se na Houghton Library [Harvard University] 17 cartas de Cecília Meireles para José Bruges, escritas entre 1949 e 1951. Trata-se de epistolário impressivo, que revela uma amizade desdobrada numa comovente e poética intimidade. Cecília Meireles e José Bruges nunca chegaram a encontrar-se fisicamente, apenas por meio de cartas que atravessavam o Atlântico com palavras como estas: “A tristeza, afinal, é uma espécie de gato persa. Um luxo d’alma. Que só os que têm alma entendem. E mesmo assim nem sempre se podem consolar uns aos outros, pois você sabe como os gatos são secretos, baudelairianos, introspetivos…”.
Em 1950, José Bruges vive em Lisboa, frequenta A Brasileira do Chiado, escreve umas breves crónicas memorialísticas e literárias no ‘Diário Popular’, dirigido então por Luís Forjaz Trigueiros, e colabora com poesias na revista ‘Atlântico’. Couto Viana lembra-se de encontrá-lo n’A Brasileira: “alto, de uma magreza e traços aristocráticos, carão comprido e sulcado de rugas precoces. Sentava-me à sua mesa, falava de poesia”. Recorda que José Bruges estava a preparar a edição de ‘Memorial’ [1950], livro que reúne poemas escritos entre 1930 e 1945.
Para Gaspar Simões, em ‘Memorial’ “afinam-se-lhe os ritmos e apuram-se-lhe os temas, e neste seu livro atinge, por vezes, um rigor epigramático que a vários títulos permite que consideremos o seu autor um poeta tradicional de tangência modernista”.
Pouco antes da publicação de ‘Memorial’, numa entrevista organizada por Guedes de Amorim [de que se conhece apenas um dactiloscrito], José Bruges defende o lirismo que emana da “nossa sensibilidade ancestral” e o “respeito pela dignidade da forma”; reafirma as suas convicções cristãs e monárquicas, e a sua admiração por Afonso Lopes Vieira. Quando confrontado com o hiato de vinte anos entre a publicação de ‘Baladas ao Vento’ e ‘Memorial’, responde: “Em seguida à minha estreia houve uma ‘serenata’ (um livro de quadras) e dois livros inúteis, em parte ridículos… Só em 1921, com ‘Ophir’, tornei ao caminho sério e deslumbrado […]. Tive depois dois pequenos livros, fora do mercado, ‘Canções do Longe e do Perto’ e ‘Baladas ao Vento’ […]. O ‘silêncio’ data de então, sem razão concreta. Mas escrevi sempre, embora só para a gaveta. Tenho ultimamente rasgado ou queimado, num auto de fé, centos de poesias. Salvei outras, algumas em que trabalhei longos anos, pacientemente. São poesias dessas as que constituem o meu próximo livro; quase todas têm mais de dez anos e representam, no conjunto, um período de quinze anos”.
Questionado sobre as suas relações em Paris, José Bruges afirma ter convivido com Georges Duhamel, Mauriac, Colette, Joseph Bédier e Paul Valéry. No final da entrevista, anuncia a sua partida para Tânger, como vice-cônsul.
Mas as dificuldades persistiam, como se percebe na correspondência com Luís Forjaz Trigueiros. Numa carta não datada, mas presumivelmente de 1952, José Bruges escreve: “Em resumo: estou condenado, liquidado. Deve restar-me o fim do Guilherme de Faria e de outros. É possível”.
E foi em Tânger que, no dia 24 de abril de 1952, José Bruges d’Oliveira pôs fim à sua vida, com quase 53 anos. Num bilhete de suicídio, podem ler-se as últimas palavras do poeta: “O meu retrato de Tânger para o Manuel. O da Praça da Alegria (Varela Cid) para o João. Todos os autógrafos do Afonso Lopes Vieira e livros respetivos, para o Manuel, e o mesmo quanto aos livros do Plínio Salgado, João Cabral e Carlos Queirós. Os retratos ao João. Destruir toda a correspondência que não seja literária existente no caixote da Praça da Alegria. Fazer escrupulosamente isso. Tudo o que tenho na alegria, ao João, que pouco é, pois havia dado tudo ao Antoninho. O meu smoking ao João. Não se zanguem, peço-lhes. Saudades”.

Foi enterrado no cemitério católico de Bubana. “Pobre e adorável José Bruges! Estamos ainda a vê-lo: alta, pendente, estilizada figura gótica. Um lírico lírio reclinado. Que rara compleição de artista, que bela e ingénua alma de criança!”. Estas comovidas palavras do Conde de Monsaraz, no jornal ‘A Voz’, contrastam com o desapiedado prosaísmo de um documento de três páginas onde são listados os “objetos que constituem os espólios de José Bruges d’Oliveira”, onde uns vinte livros ombreiam com um “aquecedor elétrico”, um “cinzeiro de vidro ordinário” e uma “calçadeira muito velha”, entre dezenas de outros objetos que constituíam, em abril de 1952, o circunscrito mundo de José Bruges d’Oliveira.
No dia 19 de maio de 1952, no Rio de Janeiro, Cecília Meireles escreve a Armando Côrtes-Rodrigues: “O que muito me doeu foi ter-se o Bruges suicidado em Tânger. Eu não o conhecia, mas queria-lhe imenso bem: o bem que os poetas deviam querer uns aos outros”.

Guilherme de Faria inscreveu no catálogo da sua biblioteca cinco livros de José Bruges d’Oliveira: ‘As Minhas Cantigas’ [1918], ‘Missal do Amor’ [1919], ‘Versos Fúteis’ [1920], ‘Ao Soldado Português Desconhecido’ [1921] e ‘Ophir’ [1921], três dos quais oferecidos pelo autor. No espólio de Guilherme de Faria, conservam-se 16 documentos autógrafos de José Bruges d’Oliveira: seis cartas e dois bilhetes-postais [de 1922 a 1927]; três poemas datados e cinco outros autógrafos não datados: poemas de circunstância e um aforismo.

 


José Rui Teixeira | 2018