Em 1921, Guilherme de Faria e os seus irmãos tornam-se ativistas da contestação à República, animados pelo ideário integralista. E essa militância não se deve apenas à influência de Alfredo Pimenta, com efeito o Integralismo Lusitano era, então, uma das correntes de pensamento que mais seduzia a juventude estudantil.
O Integralismo Lusitano está no seu período áureo de desenvolvimento e no apogeu da sua influência em inúmeros círculos nacionais, apesar da paralisação voluntária da Junta Central, das divisões no movimento e da morte de António Sardinha, em 1925. A sua força não advém de uma organização sólida, nem do exercício de qualquer poder, mas sim da influência que as suas teorias exercem em múltiplos círculos, aos mais variados níveis. O Integralismo torna-se uma espécie de escola de quadros de inúmeros movimentos de índole conservadora, patriótica e monárquica que então se desenvolvem, um cimento agregador que cria uma rede ideológica comum, com fortes características de originalidade.
No que diz respeito ao irmão mais velho de Guilherme, António Leite de Faria, António José Telo refere que “não foi possível apurar o grau de envolvimento nesta acção ou a forma concreta que revestiu, embora afirmações pessoais revelem que se tratou de um empenhamento forte e vivido com a paixão típica da juventude e da época”. Com efeito, é normal que a adesão tenha sido sobretudo intelectual, sem laços organizativos formais, passando principalmente pelo convívio e a frequência de círculos de simpatizantes, por leituras comuns e pelo debate dos assuntos que então animavam o movimento monárquico, nomeadamente os problemas da escolha de um pretendente aceite por todas as correntes, perante a falta de descendentes de D. Manuel II. Este tipo de actividade, sem laços formais, corresponde ao padrão do Integralismo, com a Junta Central paralisada .
Guilherme de Faria foi certamente, entre os seus irmãos, o que mais se implicou no movimento integralista, redimensionando em Lisboa o entusiasmo dos comícios em que, com apenas dez anos, falava aos companheiros de liceu, em Guimarães. Curiosamente, a 11 de março de 1923, Alfredo Pimenta apresentou uma moção na assembleia-geral dos sócios das Juventudes Monárquicas Conservadoras, exprimindo o desejo de que o Conselho Superior Político da Causa Monárquica convocasse sem demora o Congresso Monárquico. Esta questão suscitou intervenções de alguns oradores e, segundo Alfredo Pimenta: “Desses oradores, há um que merece referência especial, pois foi uma revelação tribunícia, como já, tempos antes, fora uma revelação poética. Trata-se de um jovem de 15 anos, Guilherme de Faria, estudante e poeta que, falando em nome da mocidade, fez, num discurso cheio de vigor e de notável corte literário, as mais sãs e patrióticas afirmações. Houve um momento em que a assembleia estava positivamente electrizada pelas palavras do moço orador” [Alfredo Pimenta, ‘Cartas Monárquicas’ (carta n.º 6, 30-03-1923), Porto, Livraria Civilização, 1947, pp. 83-84].
Isso mesmo é testemunhado por Caetano Beirão, num interessante artigo publicado em janeiro de 1930: “A primeira vez que o vi foi numa sessão de propaganda das Juventudes Monárquicas Conservadoras. […] Junto à mesa dos oradores, um rapazinho muito novo, talvez a pessoa mais nova que estava naquela sala — com um rosto muito expressivo e os olhos a reflectir uma alma inquieta e sonhadora […] —, seguia atentamente o que se ia dizendo, manifestando uma suficiência grande. Esgotada a lista dos oradores inscritos, vi-o subir ao estrado, pedir a palavra e começar a falar com voz grande e sonora, a revelar uma grande segurança de si e uma grande fé. […] Pois o jovem sócio das Juventudes dissertou como um orador experimentado. Não falou de votos, nem de eleições; nem pediu a Monarquia para daí a três meses. Falou numa linguagem nova, cheia de misticismo nacionalista e de esperança num Portugal maior. […] Acabou o seu discurso num belo cântico de patriotismo, de ardor e de fé que arrebatou a assembleia” [Caetano Beirão, ‘Como conheci Guilherme de Faria’, ‘O Marcoense’, 25-01-1930].
Aníbal Gomes Contreiras, no exemplar do seu livro ‘Primeiras Líricas’ [1920], que ofereceu a Guilherme de Faria, escreve a seguinte dedicatória, com data de 21 de maio de 1923: “Ao jovem poeta e insigne orador máximo da juventude monárquica”.


José Rui Teixeira | 2018