No dia 4 de janeiro de 1929, Guilherme de Faria apanhou o comboio para Cascais na Estação Ferroviária do Cais do Sodré. Escreveu dois bilhetes-postais que endereçou ao irmão José. Com uma caligrafia claramente alterada, dá indicações sobre a edição de ‘Desencanto’ e da antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’. As últimas palavras do poeta:

“Querido José
Peço-lhe que trate da publicação do meu livro definitivo: os originais, até à ‘Saudade Minha’ estão na mão do Duarte do Amaral, filho, Guimarães; e os outros, são os que os meus livros indicam; só no ‘Destino’, depois da ‘Carta a uma estrangeira’, deve vir o livro ‘Saudades de Portugal’, cujo índice o Vasconcelos (Manuel de Menezes) tem.
Em vez da ‘Canção peregrina’ do ‘Destino’ deverá vir uma poesia que termina: ‘Tal o ‘Era uma vez’/ Que ora e sempre existe/ E que é do meu triste/ Fado português’.
Publique, pois, esse livro e pegue no recibo que eu deixei ao Alberto da Brasileira do Chiado e exija a publicação do meu último livro — ‘Desencanto’ — na Imprensa Nacional. Junte ao meu livro definitivo esse livro. E se, um dia, conhecer uma menina Isabel Maria P. Torres, dê-lhe o último pensamento do seu irmão Guilherme.
Peça desculpa à mãe e ao pai do meu merecido fim. Adeus, irmão amicíssimo. Tenha juízo”.

Colocou os bilhetes-postais no correio e seguiu, junto ao mar, até à Cidadela e depois pela Estrada da Boca do Inferno. Foi um caminho sem retorno. Descalço e com um terço de rezar ao pescoço, com apenas 21 anos de idade, Guilherme de Faria precipitou-se no mar. As fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo.
Tendo recebido os bilhetes-postais com o carimbo de Cascais, José inicia as buscas do corpo do irmão, desde a Boca do Inferno, pela volta da Guia, até à Praia do Peixe, onde foi encontrado o corpo de Guilherme de Faria.
O destino do poeta ficaria indissoluvelmente ligado ao destino de Portugal, como uma metáfora, do berço ao ataúde, da presença tutelar e antiga do Castelo de Guimarães a um desolado areal desta “ocidental praia Lusitana”, num dia de inverno. Como mais tarde escreveu Alfredo Pimenta, Guilherme de Faria foi “o último Poeta português, que aos 21 anos se deixou enfeitiçar pelo marulho das ondas e no seio destas se foi cantar a sua última estrofe”.

 


José Rui Teixeira | 2018