Foi em 1926 que António Pedro começou a publicar os seus versos, mas, de acordo com o seu texto autobiográfico, começou a escrever por volta de 1920 ou 1921: “Fiz versos e bonecos desde os 12 anos, ou de mais cedo ainda”.
Não sei quando e em que circunstâncias António Pedro e Guilherme de Faria se conheceram. O elo comum pode ter sido Eduardo Brazão, filho do afamado ator, de quem herdou o nome, a que António Pedro se refere numa memória não datada: “O grande ator Eduardo Brazão viu-me várias vezes representar e disse-me que eu deveria ser ator. Nas férias, com o filho, em casa dele, vesti-lhe várias vezes as armaduras e empunhei-lhe as espadas do repertório clássico às escondidas. Esquecido do conselho que me dera, ferrou-me uma grande descompostura quando soube disso”.
Só a data deste episódio permitiria perceber se eventualmente Eduardo Brazão esteve ou não no princípio dessa amizade, cujo testemunho mais antigo data de janeiro de 1924, uma carta de Guilherme de Faria que revela já uma grande cumplicidade:
“Meu querido António Pedro,
Acabo de ler os Toscos que, por sinal, não são nada toscos. Gostei muito dos teus versos. Tenho ainda no ouvido a doce melodia daquele poema – chorar…
Hás de ser um grande poeta, meu querido António Pedro!
Adeus. Escreve de La Guardia ao teu amigo e camarada muito devotado
Guilherme de Faria
Lisboa, Domingo de Reis, 1924.”

Guilherme de Faria nasceu em 1907, em Guimarães, onde viveu até 1919, ano em que se muda, com a família, para Lisboa. Publicou sete livros de poesia: ‘Poemas’ e ‘Mais Poemas’ [1922], ‘Sombra’ [1924], ‘Saudade Minha’ [1926], ‘Destino’ e ‘Manhã de Nevoeiro’ [1927] e, editado postumamente, em 1929, ‘Desencanto’ e a antologia ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’. Publicou ainda ‘Oração a Santo António de Lisboa’ [1926] e organizou uma ‘Antologia de Poesias Religiosas’ [que só seria publicada em 1947]. Foi poeta e editor, correspondeu-se e relacionou-se com os mais importantes poetas e artistas portugueses do seu tempo.
Na primeira metade da década de 20 do século passado, como lembra Joaquim Paço d’Arcos, frequentavam a casa de Guilherme de Faria, no 2.º andar do n.º 11 da Rua da Horta Seca, entre outros amigos, Anrique d’Arcos, Eduardo Brazão e António Pedro. E, por iniciativa de Guilherme de Faria, os jovens pretensos literatos privaram com figuras da cultura portuguesa tão proeminentes como Teixeira de Pascoaes e Raul Brandão.
A amizade de Guilherme de Faria e António Pedro está descrita e bem documentada. No espólio de António Pedro, na Biblioteca Nacional de Portugal, existem dez documentos de Guilherme de Faria: sete cartas , dois poemas e um interessante documento inédito com “pensamentos e máximas”.
Estando António Pedro em Coimbra, Guilherme de Faria escreve-lhe de Lisboa, no dia 26 de abril de 1926: “Como estás tu e essa doce Coimbra, terra de amores e poetas? – Oxalá que estejas bem, tão bem como mereces, meu querido Poeta! De Coimbra sei eu, decerto, que está radiosa de felicidade, por te ter no seu seio, que já acolheu amoravelmente Camões, Antero e quantos mais… – Escreve, pois; e fala do teu livro de admiráveis sonetos que não posso esquecer”.
Refere-se Guilherme de Faria ao primeiro livro de António Pedro – ‘Os Meus 7 Pecados-capitais’ – que, na terceira página, imprime esta dedicatória: “Ao maior poeta da minha geração e um dos grandes poetas da dor de todos os tempos: Guilherme de Faria, com um abraço de amigo e uma homenagem de admirador”.
No manuscrito autógrafo de ‘Sol Morto’, datado de 10 de dezembro de 1926 e que permaneceu inédito noventa anos, António Pedro escreve no frontispício: “Livro de amor e saudades, escrito pelo punho do autor em antes da sua publicação para o poeta Guilherme de Faria”. Além desse documento, no espólio de Guilherme de Faria existem doze poemas manuscritos autógrafos de António Pedro: dois inéditos, dois poemas de ‘Ledo Encanto’, quatro de ‘Distância e quatro de ‘Devagar’. Nesse espólio existem ainda oito documentos epistolares: seis cartas e dois bilhetes-postais. Ao receber o exemplar de ‘Saudade Minha’, em maio de 1926, António Pedro agradece a Guilherme de Faria – “Obrigado, Guilherme, o teu livro não se agradece, venera-se.” – e dedica-lhe este soneto [que será integrado em ‘Sol Morto’, com o título ‘Vida’]:

“Não sei porquê, se nasce já esquecido…
Que culpa tem a gente de não ser!…
Ninguém conhece o nosso mau viver:
É tão triste nascer p’ra ter vivido!…

E de que serve a vida? P’ra morrer.
A morte é um viver já redimido.
Quem me dera, Senhor, já ter morrido!
Quem me dera, Senhor, nunca nascer!

Viver é um andar continuamente
De loucura e miséria, tristemente,
À busca de encontrar a melhor sorte.

Cada prova da vida é um pecado
Eterna e estreitamente estrangulado
Na lividez das negras mãos da Morte.”

Nesse espólio encontra-se ainda, com a caligrafia de António Pedro, uma quadra humorística de circunstância sobre Guilherme de Faria:

“É um poeta de engenho peregrino.
E um homem singular:
Sendo em tudo infantil como um menino,
Usa bigode p’ra disfarçar.”

Um retrato de António Pedro dedicado a Guilherme de Faria; um retrato de Guilherme de Faria desenhado por António Pedro, de 1927; e este texto, datado de 9 de abril desse mesmo ano:

“Sobre Guilherme de Faria?
Quatro palavras bastam: Um Grande Poeta Português. Quatro palavras que se escrevem com letra grande, quatro palavras que são quatro substantivos:
Um, e é raro ser-se Um,
Grande, e numa história literária tão pujante como a nossa não há grandes que, em estátuas, cheguem para um jardim de cidade,
Poeta, o substantivo que é o melhor adjetivo possível para um homem,
Português, e basta que eu seja um Português consciente, para achar sempre a um Português uma grande qualidade: ter nascido em Portugal.”

Todos estes documentos partilhados permitem-nos perceber a intensidade desta amizade, mais uma vez testemunhada pelas palavras de Guilherme de Faria, numa carta escrita na Ericeira, no dia 4 de junho de 1928: “Pedro é um Amigo, um admirável Amigo a quem eu voto a maior amizade. E é um Poeta, é sobretudo um Poeta, tanto nos seus versos imperecíveis como na compreensão natural e natural prática dos mais nobres sentimentos. Viva, pois, Pedro-o-grande, e grande em infinita sensibilidade como em refletido sentimento!
Sim, porque eu quero afirmar às gentes estarrecidas a perfeita lucidez, a iluminada inteligência, o adamantino espírito de Pedro! Porque Pedro, apesar de convencido do contrário, é uma inteligência preclara, um superior espírito”.
No dia 1 de agosto desse ano, Guilherme de Faria parte com António Pedro para Moledo do Minho. Aí vive as últimas semanas felizes da vida que lhe restava. Passeiam pela Galiza por esses dias e uma rara fotografia – certamente tirada por António Pedro, em Vigo – revela o jovem poeta sorridente, descontraído, atitude que condiz com o conteúdo de uma carta que escreve a Manuel de Castro no dia 16 de agosto: descreve a beleza de uma jovem galega com “uns olhos azuis formosíssimos”, cita versos de Rosalía de Castro, confessa as suas aventuras e desventuras em festas e romarias, comédias ao ar livre e touradas.
Em Moledo do Minho, o verão de 1928 é um tempo de “felizes asneiras”, divertimento e namoricos. Mas nem a amiga companhia de António Pedro, nem as festas de aldeia, nem as agradáveis raparigas com quem convive, conseguem que Guilherme de Faria esqueça a notícia do namoro de Emília Castro, que um mês antes viera ensombrar a sua já esmaecida esperança. No dia 24 de agosto, ainda em Moledo do Minho, o poeta escreve ao amigo Manuel de Castro, irmão da ‘Eleita’: “Eu não posso complicar a minha vida que é e tem de ser tão simples como desgraçada: é o velho caso da ‘Saudade Minha’ – o único, o verdadeiro, o eterno. E eu sou, em presença dele, uma vontade inexistente em sentido reacionário e uma vontade, uma força absoluta no sentido exclusivo e exclusivista da sua adoração mais apaixonada e constante. […] E só sei e posso e quero crer na Esperança da Harmonia que Ela rasgou à minha pobre alma: só posso crer n’Ela. Desculpa, meu queridíssimo Manuel, este desabafo, mas é para que não te surpreendas com as maiores loucuras que eu possa fazer, porque eu, no fundo, sou sempre o mesmo. […] Apesar de toda a nossa filosofia, devemos ser homens com sorte para mulheres; e para todas, menos para a Eleita, a filosofia é boa e sedutora arma…”.
Tendo regressado a Lisboa, Guilherme de Faria trabalha naqueles que seriam os seus livros póstumos: ‘Desencanto’, o seu último livro, e ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, a antologia em que reúne cem dos seus poemas. António Pedro imprime a 2.ª edição de ‘Distância’, em outubro; em dezembro funda e dirige o semanário legitimista ‘A Bandeira’ e publica o artigo ‘Poesia – Os contemporâneos I – Guilherme de Faria’ na ‘Nação Portuguesa’. Também de dezembro de 1928 é esta interessante memória de Alfredo Pimenta: “Eu estava na loja do Luís & Esteves. Já o empregado me barbeava, quando o Poeta entrou, com aquele ar de tímido e acanhado […]. E Guilherme de Faria contou-me então que precisava de casar e, para isso, tinha que ir para a África, para o que recorreria à influência do seu ‘grande amigo Filomeno da Câmara’. – ‘Para a África?’, observei eu. ‘Como deportado ou como turista?’, perguntei a rir. ‘Antes que me deportem, vou eu por minha vontade…’. E sorria, e brincava. E disse-lhe eu, então: ‘Guilherme, você é um poeta. Nasceu para viver como poeta, no dolce far niente dos poetas amimados… Deixe lá a África que não se fez para os poetas…’. ‘É a tal coisa’, interrompeu ele, ‘a minha mãe também diz que eu não nasci para trabalhar’. ‘Você nasceu para trabalhar, como poeta…’, replico eu”.
Tendo em consideração a referência a Filomeno da Câmara, talvez fosse Angola a África a que se referia Guilherme de Faria. Seja como for, essa tornou-se uma questão irrelevante passada uma semana: no dia 4 de janeiro de 1929, o poeta põe fim à sua vida na Boca do Inferno, em Cascais.
Como oportunamente reparou Joaquim Paço d’Arcos, ainda “o artigo de António Pedro estava húmido da máquina quando o corpo de Guilherme de Faria deu à Praia do Peixe, em Cascais”.
No seu bilhete de suicídio , Guilherme de Faria pede explicitamente que os poemas da antologia que concebeu como o seu “livro definitivo” fossem revistos por Manuel de Castro, Manuel de Menezes Vasconcelos e António Pedro que, por esses dias, parte para Cabo Verde e que, passados quase trinta anos, recorda: “Guilherme de Faria foi meu companheiro de todas as horas até à véspera do suicídio”.


Retrato de António Pedro da autoria de Arlindo Vicente [1928].


José Rui Teixeira | 2018