A amizade que uniu Guilherme de Faria e António Hartwich Nunes ficou comoventemente inscrita em centenas de cartas, entre 1922 e 1929.
Quando Guilherme de Faria publica ‘Saudade Minha’, em maio de 1926, escolhe uma quadra de António Hartwich Nunes para mote da sua ‘Velha cantiga’ [pp. 25-26]:

“Sonhei um sonho tão belo,
E foi pior para mim…
Agora, para esquecê-lo,
Gasto a vida até ao fim”.

Tendo recebido o seu exemplar de ‘Saudade Minha’, António Hartwich Nunes escreve de Carcavelos ao amigo, no dia 28 de maio, esta carta notável:

“Querido Guilhe
Que grande surpresa!
Obrigado, Guilhe. Obrigado por te teres lembrado ainda deste Ónio que é nada mais que um grande e sincero amigo teu. Foi uma enorme surpresa, porque eu não desconfiava sequer que fosse aparecer um novo livro de Guilhe. Eu não sei escrever. Eu sei apenas sentir. Mas sinto o teu livro como ninguém o pode sentir. Compreendo-o nos seus sentidos e nas suas revelações, as mais profundas! Eu só sei dizer que a minha admiração é sincera e é profunda. A Saudade Minha, que é a saudade nossa, é uma maravilha de Arte e de Beleza, de Força e de Candura, de Sentimento e de Realidade. Isto é o que eu não sei dizer, mas é o que eu sei tão bem sentir!
Eu vejo o teu livro como um retrato nítido do teu espírito enorme! Está ali a tua alma confessa, em realidade e verdade. Ele foi como um banho de luz para a minha alma apagada e embrutecida.
Traz impressa uma coisa do Ónio. O Guilhe pôs no meio dos seus versos uma quadra do desgraçadíssimo Ónio. O Guilhe misturou com os seus versos os versos que eu uma vez senti e escrevi . Isto é uma homenagem estupenda que eu de modo nenhum merecia. Por que puseste o meu nome? Por que não puseste apenas Ónio, que ninguém conhece? É uma miséria, Guilhe. O meu nome impresso ali, onde todos podem vê-lo. Que miséria horrível, Guilhe. E, ao mesmo tempo, que orgulho para mim.
Tu és um trabalhador incansável. Tu não perdes o teu tempo. E vês o produto do teu trabalho. És um grande homem. Vais ser um homem feliz. Eu sou um miserável. Eu perco todo o meu tempo. E além de perder todo o meu tempo, eu ando perdido no tempo. Ando num contínuo jogo de cabra-cega com o tempo. E o pior não é o tempo que perco. O pior é o tempo que perdi. Que passou sem proveito e que já não tem remédio! Nenhum remédio. Eu vejo o mundo todo como um sintoma. Apenas como um sintoma.
Eu quero que compreendas isto. A minha alma está indiferente na expectativa. É horrível, não é? E, no entanto, eu estou cheio de curiosidade e interesse. Isto é inverosímil e estúpido. Mas é assim. Mas cá estou, perdendo tempo comigo.
Quero ver-te e abraçar-te. E quero falar contigo. O teu livro, que é um grande livro, já era meu conhecido e, por isso, eu sinto-o como muito meu! A Saudade minha!
Adeus, grande amigo. Não deixes de olhar para o Ónio, que talvez seja, quem sabe, um astro que nunca brilhou, que nasceu apagado? Um astro que abortou, feito em cinzas e em lixo! Tu continuas em ascensão. Tu estás no mais alto da escada infinita, ‘fulgindo cada vez mais! Tu és a luz! Eu sou a treva! Mas as sombras são iguais!’
Adeus Guilherme de Faria! Abraça o teu amigo
Ónio”.

António Hartwich Nunes viria a morrer em 1966, mas nunca se esqueceu do amigo poeta. Em 1964, escreveu um poema intitulado ‘Carta de saudade ao Guilherme de Faria’, que termina com estas palavras: “Não há ninguém na Beira-Mar.// Só lá estou eu/ na Beira-Mar./ À espera de ti/ e à espera de mim”.


José Rui Teixeira | 2018