Em 1924, a vida de Guilherme de Faria era marcada pela ociosidade. Manuel de Castro era o seu grande companheiro nas deambulações por Lisboa, nos cafés e botequins, em tertúlias que se prolongavam indefinidamente. Em julho, a ausência de Manuel de Castro motiva longas cartas… como esta:

“Aqui em Lisboa passámos meses conversando. Logo pela manhã, acordando, ainda debaixo daquela impressão desagradável de sonolência e torpor de que só a água fria nos liberta, eu aguardava, ansioso, a tua chegada, para que saíssemos, para que déssemos um pequeno passeio, para que conversássemos um pouco… Lembras-te com certeza de que, durante longos meses — e ao mesmo tempo tão breves! —, vivemos para conversar. E todos os dias, Manuel, havia — era inevitável! — um assunto muito grave a discutir, uma questão importante e complicada a resolver…
Não vai há meia hora que partiste e já estou receoso, apreensivo e — para quê negá-lo? — muito mais triste e enfadado do que de costume. Não quero quebrar o encanto das nossas conversas diárias, desse vício adorável de conversar a todas as horas, vício que, durante meses, foi a mais forte, a mais constante, e talvez a única energia vital de que dispusemos. Conversando, nós fizemos tudo o que, a dois mortais, é possível fazer. Sonhámos, conversando talvez com graça e com bom senso, os sonhos mais belos de que há memória, sonhos fulgurantes em que cantávamos, com a mesma naturalidade com que um deputado faz um discurso, a nossa Felicidade, essa Felicidade, miragem enganadora que todos procuram e que, para nós, era uma realidade visível e palpável; conversando, tecemos quimera de oiro e fizemos, largamente, crítica literária; criticámos, ora com frases de azedume e condenação, ora com exclamações de entusiasmo e de louvor, todos os poetas e todos os prosadores, de preferência aqueles cujas obras desconhecíamos…; conversando, fundamos e dissolvemos empresas comerciais, redigimos escrituras para sociedades editoras, revimos provas tipográficas; conversando, sentimos a ardência do Sol no planalto de Benguela e fizemos sempre, com resultados mais ou menos agradáveis, variados exames em variadas escolas e liceus; conversando, vimos nascer, dos ventres de duas pretas, dois mulatitos que eram nossos filhos, porque a ardência do Sol africano desperta, brutalmente, a lascívia da besta humana…; conversando, perdemo-nos, infinitas vezes, pelos céus e pelos antros nebulosos da metafísica, pairámos pelo firmamento longínquo, sondámos os abismos mais misteriosos, discutimos o problema da existência do Padre Omnipotente, e o mais, e o mais, e o mais…
Quando as pessoas das nossas famílias, que são dadas a frequentes acessos de moral, condenavam o nosso viver de vagabundos e nos atiravam às faces, indignadas, o tremendo epíteto de botequinistas, viciosos de café, eu sorria intimamente, cheio de satisfação e ironia. Sorria, sim! porque eles se enganavam! O meu vício não era beber café. A minha preocupação, o meu desejo, o meu vício, era deambular pela cidade e, principalmente, conversar, conversar contigo! Porque tu, Manuel, que deves ter no mesmo grau este meu vício vivificador e indispensável, já fazes parte de mim! Olha que eu, sem conversar contigo, sou um inválido, um inútil! Não sei, não posso e — diz-mo uma voz interior — não quero tomar a mais pequena resolução sem conversar contigo” [16 de julho de 1924].

A amizade que unia Guilherme de Faria a Manuel de Castro é verdadeiramente impressionante. E é a força do sentimento de Guilherme que realmente assume proporções extraordinárias: “Vá lá a gente, levada pelos fumos e pelas vozes mentirosas da vaidade, interpretar, com lógica e com inteligência, os mistérios do nosso destino! Eu, que nada sou, nem valho, nem mereço, fui encontrar na tua amizade quase todas as minhas alegrias sãs e duradoiras. Do fundo da alma agradeço a Deus ter-te conhecido […]. Como tenho sentido a tua falta! Nem podes imaginar como tem sido este exílio!” [23 de julho de 1924].


José Rui Teixeira | 2018