Tanto Sá-Carneiro como Guilherme de Faria formularam poeticamente o seu FIM.
Mário de Sá-Carneiro escreveu:

“— Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes –
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro…”

O FIM de Guilherme de Faria, escrito em 1927, é bem menos excêntrico do que o de Sá-Carneiro. Como um pressentimento ensimesmado, escuta-se o rumor poético de uma vida que se situa conscientemente diante da morte. Em 1927, o seu suicídio era um acontecimento iminente ou, pelo menos, expectável. Neste poema, Guilherme de Faria pacifica-se na desesperança e desposa a saudade, certo de que ela há de escutá-lo, entendê-lo e embalá-lo na morte:

“Alma, enfim descansa
Na desesperança.

Alma, esquece e passa:
Dorme, enfim segura
Dessa última graça
Que é toda a ventura.

E à Saudade em flor
Que o teu sonho lindo
Perfumou de amor,
Diz-lhe adeus, sorrindo…

Que Ela há de escutar-te,
Pálida, a entender-te!
E, no espanto enorme,
Sonhando envolver-te,
Triste, há de embalar-te
— ‘Dorme… dorme… dorme…’ —
Como a adormecer-te.”

António Nobre, no 13.º soneto do seu ‘Só’ [escrito em Coimbra, em 1889], escrevera: “Choremos, abracemo-nos, unidos!/ Que fazer? Porque não nos suicidamos?”. Talvez com uma ironia que não se depreende nestoutros versos: “Ai quantas vezes, ao passar junto ao Tejo,/ Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!”.
António Nobre, que escrevera: “Não busco a morte com arma ou veneno,/ Mas enfim pode vir quando quiser”, deixou manuscrito nos seus Alicerces esse extraordinário QUANDO EU MORRER:

“E depois uma pomba, um Anjo ebúrneo e triste,
Virá buscar-me, enfim,
Para levar a minha alma (se é que a alma existe),
À Torre de Marfim…”

 


José Rui Teixeira | 2018