Há dois livros de Guilherme de Faria na biblioteca de FERNANDO PESSOA [1888-1935]: ‘Poemas’ e ‘Mais Poemas’, ambos assinados e dedicados. Lê-se no exemplar de ‘Poemas’: “Ao senhor Fernando Pessoa, homenagem de Guilherme de Faria”; o mesmo no exemplar de ‘Mais Poemas’ que, além disso, tem a data de 6 de outubro de 1923 [cf. Manuela Nogueira, ‘Fernando Pessoa: imagens de uma vida’, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 132]. Os livros foram oferecidos a Fernando Pessoa no dia em que Guilherme de Faria celebrou 16 anos. Efetivamente, não sabemos se chegaram a conhecer-se, nem quem os apresentou ou se os livros constituem apenas uma oferta de circunstância, como de certo modo as dedicatórias parecem indicar.
Anrique Paço d’Arcos recorda-se de ter visto Fernando Pessoa quando entrou no Martinho da Arcada na companhia de Guilherme de Faria: “Nessa minha fugaz incursão nos meios literários uma falha se verificou de que hoje guardo verdadeiro desgosto: não ter conhecido Fernando Pessoa. Lembro-me vagamente de o ter visto uma vez a uma mesa do Martinho da Arcada, quando ali entrei com o Guilherme para este comprar cigarros. Mas então nem literariamente o conhecia ainda, e para sempre o perdi” [cf. Anrique Paço d’Arcos, ‘Voz nua e descoberta’, in ‘Poesias Completas’, Lisboa, IN-CM, 1993, p. 264]. Se Guilherme de Faria conhecesse, então, Fernando Pessoa, ter-se-iam certamente cumprimentado e Guilherme de Faria teria apresentado Anrique Paço d’Arcos a Fernando Pessoa. Porém, é possível que este episódio tenha sido anterior a 6 de outubro de 1923.
Por outro lado, no catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria, há apenas uma referência a Fernando Pessoa, à edição de 1921 da sua tradução de ‘A voz do silêncio’, de Helena Blavatsky. Não encontrámos outra referência a Fernando Pessoa entre os documentos de Guilherme de Faria que foi possível reunir, mas sabemos que havia pelo menos uma carta de Fernando Pessoa no espólio da casa da Rua da Horta Seca. Seria uma carta de circunstância a agradecer a oferta dos livros? Só o saberemos se um dia o documento for reencontrado. Seja como for, Guilherme de Faria relacionou-se e correspondeu-se com inúmeros amigos de Fernando Pessoa, como é o caso de António Botto, Raul Leal, Mário Saa, Vitoriano Braga e Almada Negreiros.
Mas o aspeto mais intrigante desta relação prende-se com uma descoberta que Manuela Parreira da Silva partilhou comigo em 2007: “Mais tarde, também anotados por Pessoa, encontrei o nome de Guilherme de Faria com a data completa de nascimento, com vista a um futuro horóscopo que tencionaria fazer-lhe”.

Muito interessante, neste contexto, é o caso Aleister Crowley [1875-1947], esse homem estranho, em cuja complexidade e desenvoltura se acusam os traços típicos desse misto de charlatão e de inspirado que Fernando Pessoa, tímido mistificador, debalde procurou ser. Ao ler o horóscopo de Crowley, Fernando Pessoa descobriu alguns erros e apressou-se a comunicá-los. “Tempos depois, não sem surpresa sua, recebe, de Londres, uma carta de Crowley, onde o célebre mago dava inteira razão ao astrólogo português seu confrade. Estabelece-se correspondência entre os dois; Pessoa envia a Crowley os seus ‘English Poems’ e, um belo dia, o mago anuncia ao seu émulo perdido nos confins ocidentais da Europa que virá a Portugal, propositadamente, para conhecer, em carne e osso, o prodígio astrológico que ele é” [João Gaspar Simões, ‘Vida e obra de Fernando Pessoa’, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, p. 523]. Crowley tinha 55 anos quando, no dia 2 de setembro de 1930, chegou a Lisboa. “Em terra, Fernando Pessoa, transido e tímido, vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra” [id., ibid., p. 525]. Semanas depois, o escritor português aceita entrar “numa cabala em que Crowley dá largas ao seu cabotinismo” [id., ibid., p. 526]: o ocultista inglês encenou o suicídio na Boca do Inferno. Haverá alguma relação entre a encenação do suicídio de Aleister Crowley na Boca do Inferno, em 1930, e o suicídio de Guilherme de Faria no mesmo lugar, um ano antes? Terá sido Fernando Pessoa a sugerir a Crowley o local da encenação? E essa sugestão poderá ter sido inspirada pelo suicídio de Guilherme de Faria?
Recentemente, no espólio de António Hartwich Nunes, encontrei um recorte da ‘Ilustração Portuguesa’ [n.º 834, Lisboa, 11 de fevereiro de 1922] que Guilherme de Faria lhe enviou, com a ‘Canção’ de Fernando Pessoa [cf. ‘Poesia – 1918-1930’, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 101].
Apesar das interrogações que persistem, o que mais intensamente une os dois poetas é o contexto: o Chiado, Lisboa, o meio literário e artístico que ambos partilharam. Em 1928, a fotografia do bilhete de identidade de Fernando Pessoa, então com 40 anos, fala essencialmente do poeta que Guilherme de Faria não foi: em 1928 o autor de ‘Saudade Minha’ tinha 21 anos e estava prestes a por termo à sua vida; se tivesse vivido mais vinte anos, talvez o seu aspeto fosse o de um homem envelhecido, com fato escuro, bigode e um olhar profundo por detrás das lentes redondas dos óculos. E ao pensar nesse Guilherme de Faria que não chegou a existir, assola-nos os versos da ‘Tabacaria’: “Serei sempre o que não nasceu para isso;/ Serei sempre só o que tinha qualidades;/ Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta” [Álvaro de Campos, Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 322].


Fernando Pessoa, fotografia do bilhete de identidade, em 1928 [com 40 anos]. Manuela Nogueira, ‘Fernando Pessoa: imagens de uma vida’, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 113.
Recorte da ‘Ilustração Portuguesa’ [n.º 834, Lisboa, 11 de fevereiro de 1922] que Guilherme de Faria enviou a António Hartwich Nunes, com a ‘Canção’ de Fernando Pessoa [cf. ‘Poesia – 1918-1930’, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 101].

 


José Rui Teixeira | 2018