Guilherme de Faria tem mais afinidades com António Nobre do que com Mário de Sá-Carneiro, não porque as afinidades com este sejam poucas; porém, a relação que Guilherme de Faria estabelece com António Nobre é de tal modo intensa, que [na minha opinião] é um fenómeno de identificação idiossincrática e literária incomparável na cultura portuguesa e que está muito para além de um exercício, consciente ou inconsciente, de mimese.
Tendo relido recentemente as cartas que António Nobre enviou de Paris a Alberto d’Oliveira, surpreendeu-me a perturbadora similitude com as cartas que Guilherme de Faria [trinta anos depois] escreveu a Manuel de Castro. E se a leitura que Guilherme de Faria fez da poesia do autor do ‘Só’ é determinante para a compreensão da sua vida e obra, a questão das similitudes entre os epistolários não é menos impressiva, até porque o jovem poeta não leu as cartas de Nobre.
Sem ter conhecido Paris, Guilherme de Faria herda de António Nobre essa ‘Lusitânia no Bairro Latino’:

“. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Só!

Ai do Lusíada, coitado,
Que vem de tão longe, coberto de pó,
Que não ama, nem é amado,
Lúgubre Outono, no mês de Abril!
Que triste foi o seu Fado!”

Herda a saudade das paisagens que Nobre desenha à distância, no Quartier Latin, por estas ruas onde, desesperado, “andou em soluços e falando alto”, como se lê numa carta a Alberto d’Oliveira, com a consciência de que não tinha “já ninguém no mundo” e com vontade de regressar a Portugal: “Apetece-me ir embora. Paris é horrível”.
A afirmação da identidade e da independência cultural portuguesa dependia, então, de todo o tipo de expressões de exaltação patriótica, fosse contra Inglaterra [mesmo antes do Ultimato inglês], fosse contra França. É de Fernando Pessoa este desabafo: “Que diabo de independência nacional tem um desgraçado país que é internacionalmente um feudo da Inglaterra, que é nacionalmente um feudo do antiportuguês Afonso Costa… Um Portugal onde internacionalmente só se pode ser inglês; onde nacionalmente só se pode ser francês…?”.
A exaltação patriótica estava institucionalizada em Portugal, particularmente desde a comemoração do terceiro centenário da morte de Camões, em 1880, que tivera, nas palavras de Fialho de Almeida, o triste condão de despertar “na província o instinto da paródia, e não haver agora o propósito ridículo, em honra do qual não saiam à rua, de estandarte ao vento, as filarmónicas, os gaiatos de asilo, e uma ou outra associação de sapateiros”.
Guilherme de Faria herda o contexto histórico-cultural em que, com zelo apostólico, Teixeira de Pascoaes difundiu o saudosismo e Afonso Lopes Vieira, epígono de Alberto d’Oliveira, se empenhou na missão de reaportuguesar Portugal. E é nesse contexto que Guilherme de Faria dialoga com as principais figuras do Integralismo Lusitano, que então se esforçavam por se libertar do espectro da influência da Action Française de Charles Maurras.
Encontramos o sentimento antifrancês de Guilherme de Faria explícito num poema epistolar inédito que escreve em 1926 a Jorge Schiappa de Azevedo [1906-1971] que se presume em França e que aqui transcrevo:

“Caro Jorge – eu não entendo
Nem me parece correto,
O esquecimento completo
Que te venho merecendo.

E assim, penso, por teu mal,
Que, de encantado com França,
Já nem guardas na lembrança
Saudades de Portugal!

Ah, pobre Jorge! Se assim
Foi mesquinha a tua sorte,
Não mais te lembres de mim…
Pois só mereces a morte
E as mais cruéis maldições,
Se esqueceste Portugal
Pela pátria dos mações
D’onde nos vem todo o mal!

Atenta nisto que digo
Só por amor da verdade,
E sabe ser Português:
Que essa França é um vil perigo,
E se é grande, é na maldade,
E em mentira e estupidez.

Ouve-me, pois, Jorge; e crê
Que és feliz vivendo assim,
Embora entre gente ruim;
E, depois de tudo, vê
Se te não lembras de mim!”

Mas este sentimento antifrancês de Guilherme de Faria deve menos a António Nobre do que às influências dos seus correligionários do neogarrettismo e do Integralismo Lusitano. Com efeito, esse “banal Paris, embirrento de civilização”, nas palavras de António Nobre, é para Guilherme de Faria a cidade, a grande cidade, a sua cidade, Lisboa, como se lê numa carta de 1924, escrita a Manuel de Castro: “Esta vida em Lisboa, tão estreita, tão mesquinha, enfastia-me cada vez mais. A impressão que tive, quando voltei daí, ao entrar na ‘Babilónia portuguesa’, foi das mais dolorosas de toda a minha vida. A mesquinhez, a grosseria, a fealdade, o ridículo de todo este ‘progresso’, de toda esta ‘civilização’ – indignaram-me e magoaram-me de tal modo que, enquanto dirigia meus passos para o carinhoso e acolhedor lar familiar, ia pensando romanticamente num suicídio, desejando-o com toda a alma, pedindo ao Senhor Deus que precipitasse a minha pobre alma de pecador nos abismos mais profundos, libertando-a assim – e finalmente! – da tristeza desta vida e da… hediondez desta cidade!”.
Nesta carta, como em tantas outras, escutam-se os ecos de uma carta de dezembro de 1891 [que Guilherme de Faria não leu], em que António Nobre confessa a Alberto d’Oliveira: “Tenho-me deitado, ultimamente, com a deliciosa ideia de não acordar mais. Quem me dera, Alberto! Ai se tu calculasses o que eu sofro!”. Ou, uns dias antes, numa outra carta: “sinto um infinito desânimo da vida e sinto-me só, só, só!”.
Não é a repulsa por França que Guilherme de Faria herda de António Nobre, nem concretamente a repulsa pela grande cidade, seja ela Paris ou Lisboa. O que Guilherme de Faria herda de António Nobre é a incapacidade de se integrar, é a projeção ideal de uma felicidade invariavelmente inatingível. O que verdadeiramente Guilherme de Faria herda de António Nobre [e com ele partilha] é a saudade, esse sentimento que, nas palavras de António José Saraiva, se caracteriza pela sua duplicidade contraditória, sendo uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória: “É um estar em dois tempos e dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como uma recusa a escolher: é um não querer assumir plenamente o presente e não querer reconhecer o passado como pretérito”.
E esse desajuste de natureza ontológica e existencial, essa perturbadora incompatibilidade entre o eu-real e o eu-ideal, é partilhado pelos três poetas. António Nobre e Guilherme de Faria poderiam assinar os conhecidos versos de Mário de Sá-Carneiro: “Eu não sou eu nem sou o outro”… Em ‘Saudade’, passados dez anos, Guilherme de Faria escreveria: “eu não sou eu, sou a lembrança/ Dum outro que não fui, mas sonhei ser”.


José Rui Teixeira | 2018