Encontrado o corpo de Guilherme de Faria, a família velou-o com o sofrimento inerente à perda de alguém tão próximo e ao estigma moral e social do suicídio. Para agravar esta situação, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, então Arcebispo de Mitilene — pouco antes de ter sido nomeado Cardeal Patriarca de Lisboa —, recusou a Guilherme de Faria o funeral religioso.
Curiosamente, numa carta que o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira escreveu a Joaquim Paço d’Arcos, em 1972, lê-se o seguinte desabafo: “O poeta Guilherme de Faria, que era para mim um mistério, e cujo destino e obra V. Ex.ª revelou com agudeza de análise e calor de coração, forçando-me reviver a dor então sofrida de lhe recusar o funeral religioso e hoje a dúvida se o devera ter feito”.
No dia 5 de janeiro, os jornais despertam Lisboa com a notícia da morte de Guilherme de Faria. Lê-se no Diário de Notícias: “Ontem à tarde o nosso correspondente em Cascais comunicou-nos que o mar arrojara à praia o cadáver de um rapaz decentemente vestido, que aparentava ter pouco mais de 20 anos e cuja identidade se ignorava. O desditoso rapaz, cujo cadáver foi removido para a casa mortuária do Hospital da Misericórdia daquela vila, foi, à noite, identificado por um seu irmão, o Sr. José Leite de Faria. Tratava-se do jovem poeta e estudante de Direito Guilherme de Faria, rapaz muito conhecido nos meios intelectuais de Lisboa. Guilherme de Faria, que contava 21 anos, desde o princípio da sua mocidade que se dedicara às letras, fazendo versos, alguns dos quais de reconhecido valor e demonstrativos de um real talento. […] O infeliz rapaz […] desapareceu há dois dias de casa, andando seus irmãos a procurá-lo activamente. Ignora-se ainda a causa da sua morte, parecendo tratar-se, porém, de um desastre”.
As primeiras notícias são imprecisas, referem-se a Guilherme de Faria como estudante de Direito e, como causa da morte, falam em “desastre” ou “desgraçado acidente”, nas palavras de Manuel Múrias, num artigo publicado n’A Voz. Nesse mesmo dia 5 de janeiro, no Diário de Lisboa, Artur Portela assina um artigo impressivo e comovente:

“Vemo-lo ainda: franzino, olhos negros, penetrantes, vivos, um grande sobretudo, com que ele se sentava, conversando entre amigos, numa voz apagada e enternecida. Guilherme de Faria, que ontem o mar, em Cascais, arrojou sobre as penedias, morreu como um poeta. Um poeta romântico que o sonho trespassou de realidade, a realidade que ele não soube ou não quis vencer. Os seus livros de versos, em cuja edição ele punha um cuidado quase feminino, cantavam como andorinhas surpreendidas pelo inverno da vida. E tinha vinte e um anos! Nos títulos das suas líricas havia já um vaticínio amargo, um destino a cumprir.
Sombra, lágrima embaciada de tristeza, Saudade Minha, tão pungente e reflectida de serena dor, Manhã de Nevoeiro, recobrindo, fechando como a tampa de um sepulcro a beleza viva e alegre das coisas. Era um poeta íntimo, de uma fusão ardente e espontânea de sentimentos. Alma que procurava um rumo, talvez, no amor… muito longe ou inabitável no seu coração sincero, de formas puras.
Guilherme de Faria morreu em plena mocidade, porque assim o quis. Não quis esperar pela hora do triunfo e, sobretudo, por aquela experiência quotidiana em que as nossas maiores tragédias, no rolar do tempo, se dissipam com ironia, indiferença ou, quando muito, numa vaga saudade, sem aspiração…
Mas assim mesmo deixou uma obra escrita, com talento, estranhamente pessoal, sem ideias cansadas, nem harmonias já tingidas. Os seus versos são lindos, mesmo reflectindo a doçura de uma tristeza vencida. Como as flores dos cemitérios, fecundas, duma pompa forte e tumescente, eles bebiam no aniquilamento um encanto indizível, um aroma coalhado de essências peregrinas, falavam e nós ouvíamos a voz profunda do rio dos mortos, correndo na terra, sem tréguas nem descanso. Guilherme de Faria deixou-se fascinar por ele. É já uma folha arrastada pelo borbotar obscuro desse caudal imenso. Mas, antes, como um passarito, cantou. Viveu, cantando. Amou, cantando. Nas raras vezes que o sol da alegria agasalhou a sua alma, teve delicados carmes para o celebrar. Então, garganteios de criança subiam-lhe aos lábios. Não era feliz, mas compreendia a felicidade dos outros, sem inveja, apenas ferido que ela passasse distante sem o reconhecer.
Morreu como um poeta! Deixou um livro, um livro a publicar que, talvez, revela o que não nos quis dizer. Como se a morte no seu corpinho tenro pudesse apagar, estancar a ferida aberta do seu coração em chaga! Aos que o amaram e a seu pai, sua mãe e sua irmã, as rosas comovidas da nossa piedosa saudade”.

O funeral realizou-se no domingo 6 de janeiro, às 13 horas e 54 minutos, saindo da Estação do Cais do Sodré, para o Cemitério dos Prazeres. O corpo de Guilherme de Faria foi provisoriamente sepultado no jazigo do Consulado da Argentina, tendo sido trasladado para jazigo próprio no dia 28 de dezembro de 1929.

Fotografia: Jazigo de Guilherme de Faria [Cemitério dos Prazeres, jazigo 6363, rua 2-A, lado direito], no dia 6 de outubro de 2007, no centenário do nascimento do poeta.

 


José Rui Teixeira | 2018