O quinto livro de Guilherme de Faria — ‘Destino’ — foi impresso no dia 7 de janeiro de 1927. No fim de março, o poeta foi entrevistado por Armando Boaventura para o jornal ‘A Ideia Nacional’:

Que pensam os novos da vida literária portuguesa? Eis aqui uma pergunta a que os novos poderão e deverão responder. Ouçamos pois, ao abrirmos esta secção — “vida literária” —, um dos mais jovens poetas, Guilherme de Faria, cujo último livro — ‘Destino’ —, há pouco saído dos prelos, tão alto acaba de erguer o seu autor.
— Julgo admirável a hora que passa para a literatura portuguesa — começou por nos dizer. E acrescentou: — Creio mesmo que esta renascença, que está latente, não engana. Cessaram de vez as torvas influências revolucionárias que, um século atrás, tanto prejudicaram e escureceram grandes espíritos. E, como era natural — dadas a sua origem e finalidade absolutamente estranhas ao sentimento e à verdade portuguesa —, à cessão destas influências correspondeu um movimento que foi de interesse e, hoje, é de amor verdadeiro pelas nossas coisas.
— Portanto?…
— Portanto, as modernas gerações estão, assim, com Gil Vicente, quando esse extraordinário poeta dizia: “As coisas de Portugal/ Todas têm grande valor…”
— As modernas gerações?…
— Basta citar-lhe a geração que deu o Integralismo: homens como António Sardinha, Luís de Almeida Braga — grande prosador e poeta —, João do Amaral — grande jornalista moderno — e tantos outros em que, dentre os mais novos, se destacam nomes como Manuel Múrias, que se votam, com heróico valor e sacrifício, à momentosa construção da Casa Portuguesa! É essa uma geração a valer — a geração do Resgate —, porque os benefícios da sua ação são imensos. Falando com os rapazes de hoje, ainda com os mais novos, encontramos neles uma boa formação moral e nacionalista. Estas almas de radiosa esperança e mocidade foram já resgatadas, pela acção de portugueses como os que citei, de todas as mentiras que, durante tanto tempo, turbaram o espírito nacional.
— E agora?
— Agora é que é prosseguir. Vejo próxima a Restauração de Portugal, do Reino de Santa Isabel e de Nun’Álvares, do Encoberto e de Camões. E não pensem os últimos crentes da mentira, que em todos os campos nos ia perdendo, que é meramente regressiva a renascença que ora se esboça com tanto esplendor. Não, não o creiam, porque será essa a última prova de que não são os descendentes dos antigos Portugueses.
— Então?
— Então, convençam-se todos de que a nossa missão não é contemplativa nem regressiva, porque a um Passado, como o que temos e amamos, tão glorioso e tão grande, não basta contemplá-lo estaticamente. Ele próprio exige uma continuação condigna e até superior em heroísmo e glória.
— A renascença de que fala não é uma quimera?
— Não é uma quimera minha. É uma verdade nacional.
E, a propósito, Guilherme de Faria acrescentou:
— Este movimento militar parece-me já muito bem e só deverá continuar animado dos princípios nacionalistas que o geraram.
Voltando à literatura:
— E depois, principalmente, esta bela geração que desponta e já se afirma, é um sintoma magnífico, porque é sabido que ao apogeu de um povo corresponde uma era de esplendor da sua literatura. É ver o nosso século XVI…
Continuando:
— E agora temos, na moderna geração, além dos que já mencionei, escritores como António de Sèves, que será, publicados os livros que prepara, um dos nossos maiores; filósofos como Mário Saa; dramaturgos como Vitoriano Braga que, ainda no outro dia, nos deu uma peça moderna e magistral, Alfredo Cortez, Correia d’Oliveira e Carlos Selvagem; artistas como Almada e Emmérico.
— E poetas?
— De poetas que nomes lhe direi se, aparte uma meia dúzia de literatos retóricos e falseadores da nossa saudade, todos têm, ao menos, uma quadra maravilhosa? E há-os em tão exuberante quantidade. Devemos pois voltar, em Poesia, às verdadeiras fontes do Lirismo Português: muita frescura e limpidez de sentimento, muita verdade íntima e nobreza de expressão, e nada de confusões palavrosas e de excessos de imagens e objectivismo.
A concluir:
— Enfim: na minha consciente e modesta pouquidade, sinto-me feliz por pertencer a esta geração. Continuarei pondo a minha pobre arte ao serviço do meu sentimento de humano e português, sem preocupações de escola, sem turbações de brumas, de metafísicas e saudosismos suspeitos, antes obedecendo só ao mando do ritmo interior, como na máxima famosa: “Nada de regras, e viva a sinceridade!”

Guilherme de Faria, ‘A nova geração e o ideal nacionalista’, in ‘A Ideia Nacional’, 30 de março de 1927.
Retrato de Guilherme de Faria da autoria da Almada Negreiros [2 de fevereiro de 1927].

 


José Rui Teixeira | 2018