EDUARDO BRAZÃO nasceu em Lisboa, no dia 1 de fevereiro de 1907, filho de Eduardo Brazão — consensualmente reconhecido como o maior ator do seu tempo — e de Maria José da Silva Reis Brazão.
Preocupada com o seu futuro, a mãe enviou-o para o Colégio de La Guardia, onde se tinham refugiado os jesuítas, expulsos novamente de Portugal com a implantação da República. Aí foi colega, entre outros, de António Pedro e Varela Cid.
Em 1925 publica as memórias do seu pai — ‘Memórias de Eduardo Brazão’ — e ‘Telas’. Em 1928, com ilustrações de Arlindo Vicente, publica ‘Maria do Mar’.
Monárquico integralista, Eduardo Brazão relaciona-se com figuras de diferentes quadrantes políticos e culturais. Apaixonado por História, opta pela licenciatura de Direito. E apesar de ter exercido advocacia, o seu interesse tendia para a História Diplomática.
Casou-se em 1930 e teve três filhos [entre 1931 e 1943]. Em 1932 e 1933 publicou os dois volumes da ‘História Diplomática de Portugal’ e, em 1940, ‘Relance da História Diplomática de Portugal’. No ano seguinte foi finalmente admitido à carreira diplomática.
A lista das suas obras testemunha a missão historiográfica que empreendeu como parte integrante das funções diplomáticas, com sentido de serviço e em coerência com as circunstâncias de uma carreira que o levou praticamente a todos os continentes, da Santa Sé à China. Deixou essas memórias no seu ‘Memorial de D. Quixote’ [1976], escrito com elegância e sentido de humor.
Morreu em Cascais, a 7 de Dezembro de 1987.

É muito provável que Eduardo Brazão tenha sido o elo de ligação entre Guilherme de Faria e António Pedro. Para além de grande amigo do filho, Guilherme de Faria conhecia pessoalmente e estimava muito o reconhecido ator Eduardo Brazão [1851-1925], como se percebe numa carta que dirige a Manuel de Castro, no dia 29 de maio de 1925: “Tenho que acompanhar a minha Mãe à casa de família do grande ator Brazão que ontem morreu, pelas 11 horas e meia da noite. Senti muito a sua morte, como muito bem podes compreender, pela grande afeição que me merecia a sua boa alma. O Brazão era muito meu amigo e eu ainda 24 horas antes da sua morte, estive largo tempo a conversar com ele”.
No espólio de Guilherme de Faria encontram-se sete documentos de Eduardo Brazão: um bilhete-postal [de 1925], quatro cartas [duas de 1926 e outras duas de 1928] e duas fotografias [as duas dedicadas, mas apenas uma datada, de 1926].
No catálogo da biblioteca de Guilherme de Faria estão inscritos dois livros de Eduardo Brazão, ambos de 1925: ‘Memórias de Eduardo Brazão — que seu filho compilou’ [Empresa da Revista de Teatro] e ‘Telas’. Foram recuperados os exemplares de ‘Telas’ [com a dedicatória: “A Guilherme de Faria, — ao seu talento, à sua amizade!”, datada de 18 de junho de 1925] e de ‘Maria do Mar’ [Lisboa, J. Rodrigues & C.ª, 1928, com a dedicatória: “Ao Guilherme, um enorme abraço do teu grande admirador e amigo”, datada de junho de 1928]. Em ‘Telas’ [1925], Eduardo Brazão dedica a Guilherme de Faria um texto sobre Miguel de La Faya, um companheiro de Colégio de La Guardia que se suicidara [cf. pp. 27-31].
Eduardo Brazão escreve um artigo sobre ‘Sombra’ [o terceiro livro de Guilherme de Faria] no ‘Diário de Lisboa’, no dia 9 de fevereiro de 1925. Trata-se da mais entusiasta recensão deste livro de Guilherme de Faria, publicado em 1924: “‘Sombra’ é uma legítima e verdadeira consagração de Guilherme de Faria, […] que é o orgulho da minha geração, o grande poeta do futuro, sendo já o do presente! ‘Sombra’ não é um livro, é a alma do poeta […]. Guilherme de Faria que já nos seus livros anteriores nos tinha mostrado as brilhantes e inúmeras facetas do seu talento, na ‘Sombra’ traça-nos mais viva e filosoficamente a sua grande alma, alma e talento demasiados para uns 17 anos! […] A poesia ‘Eu’ consagra-o; nada há no género, nada há nestes últimos tempos que se compare em técnica perfeita, em sentimento profundo e em filosofia inigualável. […] E ao reler a ‘Sombra’ eu penso para comigo: o que escreveriam os críticos, o que diria o público, se estes versos em vez de serem assinados por Guilherme de Faria, viessem intercalados na obra dos maiores vultos da nossa poesia?”.
No dia 23 de junho de 1926, Eduardo Brazão publica no ‘Diário de Lisboa’ um outro artigo, desta vez sobre ‘Saudade Minha’ [o quarto livro de Guilherme de Faria], onde se lê: “’Temos enfim um grande poeta!’ disse um dia Oliveira Martins ao escrever a António Nobre, felicitando-o entusiasmado pelo seu livro ‘Só’. ‘Temos enfim um grande poeta!’, diria hoje também Oliveira Martins se pudesse ler o último livro de Guilherme de Faria — ‘Saudade Minha’. […] Na ‘Saudade Minha’ nós pressentimos, através da melopeia lírica de algumas das suas redondilhas, a voz distante de Gil Vicente e de Camões. Através dos seus versos apaixonados, cheios de Amor, quantas vezes não passou por nós a sombra de Crisfal? Através dos seus versos místicos, que se elevam como uma prece para Deus, quantas vezes não vimos o sorrir bondoso de Frei Agostinho da Cruz? ‘Saudade Minha’ é um livro que rescende ao passado, passado esse que foi esquecido por muitos, mas que Guilherme de Faria vem relembrar nas suas maravilhosas redondilhas, nos seus versos apaixonados, nas suas preces […]. Ele é o poeta do amor — mas, como tal, não macula os seus versos o tom a pastiche oleosa e piegas de quase todos os poetas amorosos e, bem pelo contrário, há em todas as suas poesias alta expressão lírica, humaníssima e sempre varonil. […] Assim, na ‘Saudade Minha’ entrevemos e vivemos até todo o glorioso esplendor da redenção duma alma que sabe amar e que é dum poeta e dum português — ‘pela graça imortal do sentimento’. Sim! Porque Guilherme de Faria é, no meio da burlesca confusão e incompreensível inconsciência dos nossos dias, um poeta lusitaníssimo: em pleno século XX, é na sua obra de hoje, neste grande livro de verdadeira poesia, que vamos encontrar o puro sentido e a plena revivescência da verdadeira poesia portuguesa, de Camões, de Gil Vicente, de Frei Agostinho da Cruz e de Crisfal”.
Em 1976, Eduardo Brazão publica na Coimbra Editora o seu ‘Memorial de Dom Quixote’, livro de memórias com uma epígrafe de Guilherme de Faria [‘Ex-libris’, ‘Manhã de Nevoeiro’, Lisboa, 1927, p. 11], onde se lê: “Entretanto, a boémia literária conquistara-me, em contacto com os meus amigos dessa época, […] — Guilherme de Faria, o grande poeta que tão novo quis sair da vida pelas suas próprias mãos” [pp. 25-26].

 


José Rui Teixeira | 2018