Por estes dias, Salvador Oliveira da Silva — sobrinho de Guilherme de Faria, filho da sua irmã Leonor [1924-1966] —, enviou-me dois livros da biblioteca do poeta que se encontravam na casa da Rua da Horta Seca, onde até há pouco viveu Teresa Leite de Faria, a única irmã viva de Guilherme. Trata-se de dois documentos muito importantes.

Um deles é ‘Bartolomeu Marinheiro’, de Afonso Lopes Vieira, poeta que nasceu em Leiria, em 1878, e morreu em Lisboa, em 1946.
Na década de 20, os dois poetas partilharam livros, poemas e cartas. Restam poucos testemunhos dessas partilhas, muito habituais nesses contextos e meios literários. Guilherme de Faria ofereceu e dedicou a Lopes Vieira todos os seus livros. Curiosamente, as primeiras dedicatórias são mais enfáticas do que as últimas. No exemplar de ‘Poemas’ pode ler-se: “Ao altíssimo Poeta Afonso Lopes Vieira, com muito apreço e muito respeito” [3 de maio de 1922]; no exemplar de ‘Sombra’: “Ao grande Poeta Afonso Lopes Vieira, homenagem do seu admirador e amigo muito devotado e agradecido” [6 de outubro de 1924]; nos exemplares de ‘Saudade Minha’ [1926], ‘Destino’ [1927] e ‘Manhã de Nevoeiro’ [1927], dedicatórias mais contidas: “A Afonso Lopes Vieira, homenagem de Guilherme de Faria”.
Na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, encontra-se ainda um poema autógrafo inédito: ‘O pregão da tua glória’ [dedicado a Henrique de Paiva Couceiro]. Não foi preservada nenhuma carta de Guilherme de Faria no espólio de Lopes Vieira.
Por seu lado, o jovem poeta tinha na sua biblioteca 21 livros do autor de ‘Ilhas de Bruma’, dos quais nove foram-lhe oferecidos e dedicados por Lopes Vieira: ‘Náufrago’ [1898], ‘Bartolomeu Marinheiro’ [1912], ‘Ilhas de Bruma’ [1917], ‘Cancioneiro de Coimbra’ [1918], ‘Ao Soldado Desconhecido’ [1921], ‘País Lilás, Desterro Azul’ [1922], as 1.ª e 2.ª edições de ‘O Romance de Amadis’ [1922 e 1926] e ‘Os Versos de Afonso Lopes Vieira’ [1927]. Destes, foram recuperados o exemplar de ‘Ao Soldado Desconhecido’ [dedicatória: “A Guilherme de faria, estes versos que os Cafres apreenderam”] e a 1.ª edição de ‘O Romance de Amadis’ [dedicatória: “Pertence ao meu caro camarada Guilherme de Faria”].
E agora o exemplar de ‘Bartolomeu Marinheiro’, com a interessante dedicatória: “Pertenceu este búzio a Emília de Castro (Resende) e pertence agora a Guilherme de Faria” [2 de abril de 1923]. É curioso que este exemplar tenha pertencido a Emília Castro e que Guilherme de Faria tenha pedido a Afonso Lopes Vieira que o explicitasse na dedicatória. Foi Emília Castro a ‘eleita’ de Guilherme de Faria, a quem devotou a sua condição de poeta e por quem ter-se-á suicidado.

Conhecem-se apenas dois documentos dirigidos por Lopes Vieira a Guilherme de Faria [adquiridos num leilão, no dia 10 de dezembro de 2012, por Ricardo Charters d’Azevedo, e oferecidos à Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira]: um poema autógrafo [‘Sombras’] dedicado a Guilherme de Faria e um postal ilustrado com uma fotografia da ‘Casa de S. Pedro’, em S. Pedro de Moel, com uma citação de Heine manuscrita por Afonso Lopes Vieira [“J’aime la mer comme une maîtresse”] e datado de 16 de agosto de 1923 [carimbo dos correios], onde se pode ler: “Meu caro amigo: estimei muito as suas boas notícias. Mando-lhe lembranças afetuosas e creia-me sempre um seu amigo e admirador”.
Nos escritos do autor de ‘Manhã de Nevoeiro’, apenas uma referência a Lopes Vieira, num autógrafo em que o considera “menos poeta que Correia d’Oliveira, mas artista bem mais fino […] e nobre arauto do Lirismo português”.

O outro livro é ‘Sinais dos Tempos’ [Lisboa, 1924], da autoria de Lusitanus [pseudónimo de Abel de Sousa e Vasconcelos]. Na página de rosto, para além da assinatura de posse e da data [4 de setembro de 1926], Guilherme de Faria transcreve as palavras de Almada Negreiros: “Neste mundo cheio de milagres e de ratoeiras, ninguém acredita nos milagres e todos caem nas ratoeiras”.
O mais interessante deste documento é o poema autógrafo, com data de 7 de setembro de 1926, manuscrito nas últimas páginas [413-414], depois do índice. Trata-se de um poema certamente inspirado pela leitura destes insólito livro. Num autógrafo do espólio, este mesmo poema aparece com a data de 6 de setembro. Foi publicado postumamente em três periódicos: ‘O Marcoense’ [25 de janeiro de 1930], ‘Bandarra’ [n.º 13, 8 de junho de 1935] e ‘Novidades’ [24 de agosto de 1941].

“Escutei a palavra de verdade;
E os meus olhos turvaram-se num pranto
De alegria e de luz… E, em ansiedade,
Acesa a voz de inspiração e encanto,
Eu cantei o fulgor maravilhoso
Que, por graça do céu, a mim descia
Doirando o meu exílio tenebroso
De esperanças d’Amor e alta harmonia.

Assim, neste desterro de amarguras,
Ressurgiam do pó mortos desejos
E quimeras d’amor lindas e puras…
E em voo brando, mil sonhados beijos
Subiam, por milagre de ternura,
E encobriam a graça sempre em flor,
A sempre viva e clara formosura
Do meu Amor.

E eu cantava ao Senhor;
E a minha voz, aos altos céus subindo,
Era a canção dos céus, todo o esplendor
Dos céus, por sobre o mundo refulgindo!

— Oh voz dum poeta que, na vida escura,
Tanto sonhou d’amor, tanto sofreu,
Rasga os mistérios, a cantar, na altura
E acende novos astros pelo céu!

Mas, na graça de encanto que ilumina
De eterno amor, o sonho a que ascendeste
Não esqueças a doce e peregrina
E desgraçada pátria em que nasceste!

— A pátria, a alma que chorou contigo
Na dor dos teus tormentos,
E que acendeu em ti os sentimentos
De amor e glória do seu sonho antigo;

Essa pátria de Deus, a pátria eleita,
De heróis poetas e santos,
Que foi, por seu amor, nobre e perfeita,
Cheia da luz de todos os encantos;

A pátria, o sonho ideal por quem, chorando,
Ergueste a voz em gritos, maldições
Quando, no seu desterro miserando,
Sentias n’alma a fúria de Camões!

Ah, não esqueças essa pátria amada
E desditosa…
E que, sobre ela, desça a luz sagrada
E milagrosa:
A luz do céu, a luz da saudade
Que, de Alcácer há tanto, se derrama
Sobre as almas em torva escuridade,
Cativas da Mourama!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
— Ah, Senhor, que o meu sonho rasgue ao mundo
A suprema verdade da Escritura,
A profecia dum saber profundo
Que doira de esperança a desventura
Deste exílio de horror!
E que aos maus, que dominam na impiedade,
Os fulmine o teu gesto redentor,
Por toda a Eternidade!

E morta a alma do mal,
E em trevas a Babilónia e o rei cruel,
Desce por fim dos céus, a Portugal,
Capitão das dez tribos de Israel!”.

 


José Rui Teixeira | 2018