Está bem documentado o carácter “incendiário” de Guilherme de Faria. O jesuíta José Carlos Simões, que foi seu professor na Escola Académica, em Guimarães, lembra que a antipatia de Guilherme de Faria pelo Partido Democrático transformou-se num ódio figadal após o homicídio de Sidónio Pais. Num artigo publicado no jornal ‘A Situação’, dirigido por Botelho Moniz, Guilherme levanta acesa polémica quando ameaça derrubar o governo. Naturalmente, quando se soube que esse artigo fora escrito por uma criança de onze anos, este episódio ganhou contornos de anedota.
Joaquim Paço d’Arcos conta outra história interessantíssima, em ‘Memórias da minha vida e do meu tempo’ [Lisboa, Guimarães/Babel, 2013, pp. 317-318]:

Integrado já inteiramente na vida lisboeta, o rancho de irmãos regressado de Macau comparecera em 1923 […] na estreia da peça ‘Mar Alto’, de António Ferro, no Teatro de São Carlos, levada a cena pela Companhia Lucília Simões – Erico Braga. O nome da António Ferro era cartaz a chamar a atenção do restrito público simpatizante com as correntes modernistas e a provocar a suspeição e a hostilidade das camadas mais vastas, desconfiadas de quaisquer movimentos renovadores. Foram estas que ocuparam o maior número de cadeiras e camarotes do São Carlos, António Ferro teve, assim, de enfrentar, com a audácia que não lhe faltava, uma plateia hostil. Habilmente, e porque a sua peça seria curta para encher o tempo do espetáculo, o autor e a Companhia fizeram anteceder a representação de ‘Mar Alto’ por uma ligeira comédia em um ato de Pirandelo. Tinham, com este pretexto, como convidado de honra o Ministro de Itália. Mas nem Pirandelo, nem o diplomata italiano foram escudo suficiente para António Ferro. Parte do público, ignorante de que a peça em cena ainda não era a do discutido autor português, lançou-se logo, com apartes e em pateada, ao ataque do dramaturgo siciliano. Nós estávamos ali, sem tomar partido, em expectativa benévola — como é de uso agora dizer-se em relação a António Ferro — e em expectativa interessada perante a batalha campal que se anunciava. Mas já não era esse o caso de Guilherme de Faria, poeta tradicionalista para quem, apesar da extrema juventude, o modernismo devia ser heresia. Por isso, quando uma personagem de Pirandelo entrou em cena, com uma grande capa e panamá de oleado negro encharcados, em obediência à rubrica que indicava, no exterior, chuva a cântaros, o Guilherme, com voz de falsete, debruçado de um camarote de 1.ª, interrogou: “Constipou-se?”
Os inimigos de António Ferro desataram a espirrar. Os atores, sem se desconcertarem, mas sentindo a hostilidade da plateia, arrastaram como puderam, até ao final, o curto ato de Pirandelo. Quando ‘Mar Alto’, após breve intervalo, subiu à cena, já os ânimos se haviam azedado, e parecia até já estar traçado o destino da peça. […]
Foi um pandemónio. António Ferro naufragou naquele ‘Mar Alto’, em que se verificaram cenas absurdas de pugilato e a intervenção da polícia. A representação ficou por ali e a autoridade encontrou na alteração da ordem pública e na ameaça de novas perturbações motivo para obrigar a peça a sair do cartaz, que nem uma noite aquecera.


Fotografia: António Ferro, 1922 [Fototeca do Palácio Foz].
Nota: A 10 de julho de 1923, ‘Mar Alto’ estreiou-se em Lisboa, no Teatro de São Carlos — para escândalo nacional — e António Ferro enfrentou o público subindo ao palco para homenagear o desempenho de Lucília Simões e de Erico Braga. A peça é proibida no dia seguinte pelo Governador Civil de Lisboa, Major Viriato Lobo, o que origina um protesto imediato por parte de vários intelectuais portugueses, dirigido ao presidente do Conselho e ao ministro do Interior, manifestando o seu repúdio pela interdição da peça e recusando-se a “reconhecer à autoridade policial competência para aquilatar da moralidade ou imoralidade de uma obra literária”. O protesto é assinado por Raúl Brandão, António Sérgio, Fernando Pessoa, Raul Poença, Aquilino Ribeiro, Jaime Cortesão, Alfredo Cortez, Mário Saa, Augusto de Santa Rita, Leal da Câmara, José Pacheco, Américo Durão e Luís de Montalvor, entre outros.


José Rui Teixeira | 2018