Sobre o exemplar de ‘Clepsidra’ que pertenceu a Guilherme de Faria, encontramos um impressivo testemunho de José Gomes Ferreira, escrito no seu diário, no dia 7 de junho de 1968 [‘Dias Comuns V — Continuação do Sol’, Edições Dom Quixote, 2010, pp. 23-26]:

Esta manhã, ao remexer nos livros da estante, encontrei a 1ª edição da ‘Clepsidra’, ou antes da ‘Clepsydra’, de 1920. Pertenceu a Guilherme de Faria (lê-se a assinatura bem nítida — letra tipo afonsolopesvieiresco — numa das folhas de guarda) e foi-me oferecida pelo Manuel Mendes, amigo íntimo do infeliz poeta de ‘Saudade Minha’.
Folheie-o com a lentidão de quem caminha num museu. Ou procura um rasto.
Logo os primeiros quatro versos da ‘Inscripção’ (assim mesmo com “p”) — “Eu vi a luz de um paiz (com “z”) perdido”, etc. — estão assinalados com uma chaveta a lápis.
Adesão.
Depois, começam os sonetos — ou melhor, os “sonêtos” com acento circunflexo no “e”.
O primeiro — “Tatuagens complicadas do meu peito”, etc. — não tem qualquer traço a realçá-lo. Interessou pouco a Guilherme de Faria. (Em compensação, Américo Durão leu-o, por certo, apaixonado.)
Já o segundo — “Cancei-me de tentar o teu segrêdo”, etc. — mereceu a honra de um risco contínuo de aprovação. Mas o terceiro — ‘Phonographo’ (assim com todos estes “phs”) — só lhe impôs um verso: “Ante o Seu corpo o sonho meu flutua”…
O próximo — “Desce em folhedos tenros a collina” (com dois “ll”) — ostenta uma bela seta, levemente curva e vinda do alto, apontada à cabeça do soneto.
E aqui temos agora o “Esvelta surge! Vem das aguas, nua”, etc. — convenientemente riscado com carinho aprovador. O seguinte — “Depois da lucta e depois da conquista”, etc. — passou despercebido. E encontramo-nos então diante de “Quem polluiu, quem rasgou os meus lençoes de linho”. (Dois “ll” em poluiu.)
Entusiasmado no carregar do lápis e no “G” rabiscado no princípio do primeiro verso como que a dizer: “Gostaria que este soneto fosse meu”.
Entretanto volto a página e leio “Ó meu coração torna para traz”, etc., onde não descubro qualquer marca de adesão. Mas o entusiasmo suscitado pelo “Quem polluiu”, etc., não tem tempo para arrefecer, pois aparece logo o “Floriram por engano as rosas bravas” riscado de cima a baixo. Ao que se segue o soneto “E eis quanto resta do idyllio acabado/ — Primavera que durou um momento…” — só com esses dois versos destacados. (Aproveitamento nítido da voz alheia para uma confissão pessoal.)
Entramos então na parte do livro intitulada ‘Poesias’.
A primeira deve ter feito cócegas nas convicções monárquicas de Guilherme de Faria, porque não resistiu a chamar a atenção de si mesmo para estes versos de sabor heráldico:

“E quando, ó Dôce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
— Magra figura de vitral,
Por quem nós fomos combater…”

E surge o célebre poema “Não sei se isto é amor” com um “E” bem desenhado a lápis no alto da página — talvez a inicial do nome da mulher amada.
No final da poesia, como que a assinar aquela carta lírica à sua “E”, o nome sincopado do poeta: “Guilhe” (imitação do “Anto”).
Voa depois, rápido, sobre o “Rufando apressado/ e bamboleando”, etc. e…
(Preparem-se para o grande choque imprevisto.) Na minha frente está uma poesia a que dois traços, na primeira e última quadra, dão um significado terrível.
E leio, a compreender:

“Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
Lançae-o ao mar.”

A última quadra é esta:

“A sete chaves, – a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei-de-o levar,
Que é para o molhar na agua salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.”

As restantes poesias já nem as li. Só uma, aliás, não estava marcada. Aquela, lindíssima:

“De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me ha-de inhumar…”

Mas a Guilherme de Faria não interessava a terra. (A terra de morrer.) Interessava sim o mar indicado neste volume da ‘Clepsydra’ como o itinerário do seu suicídio:

“Ao meu coração um peso de ferro…
Lançae-o ao mar.”

Porque Guilherme de Faria afogou-se. A 4 de Janeiro de 1929. Talvez por amor a “E”.
Conheci-o.
Sombra vaga.

Hei-de pedir aos meus filhos e aos filhos dos meus filhos que não se desfaçam desta primeira edição da ‘Clepsydra’ de 1920… que a ausência de numeração, os “yy”, os “phs”, as letras dobradas e os acentos circunflexos, tornam os versos mais belos e estranhos.
Mas sobretudo porque esteve nas mãos dum pobre poeta malogrado que nele aprendeu a morte… Seguiu-a de verso em verso…
E, ainda hoje, as impressões digitais magoam o papel.