CARLOS DE LEMOS nasceu no dia 3 de janeiro de 1867, em Lalim, Tarouca. Formou-se em Direito, na Universidade de Coimbra, mas dedicou a sua vida ao ensino, tendo terminado a sua carreira no Liceu Passos Manuel, em Lisboa, em 1937, depois de ter lecionado em algumas escolas da província. Além da intensa colaboração literária e sociopolítica em várias publicações, dirigiu — juntamente com Beatriz Pinheiro [1872-1922], sua esposa — a revista ‘Ave Azul’ que, em 1899 e 1900, contou com a colaboração de autores como Manuel da Silva Gaio, Camilo Pessanha e Eugénio de Castro, dos irmãos Carlos e Roberto de Mesquita, de Fausto Guedes Teixeira, Ana de Castro Osório, Delfim Guimarães, Afonso Lopes Vieira e António Correia d’Oliveira, entre outros.
Como poeta, Carlos de Lemos estreou-se em 1893, com ‘Miragens’, livro em que a primeira parte — ‘Anterianas’ — é dedicada “À memória do inimitável sonetista Antero de Quental”, que assina a carta-prefácio que termina estas impressivas palavras: “Conservarei os seus versos entre os papéis que guardo com mais estima”.
Em 1943, com 76 anos, Carlos de Lemos publica ‘Palingenésia’ [por iniciativa de Gaspar Baltar], edição que reúne quatro livros: ‘Palingenésia’, ‘Geórgica’, ‘Estrela d’Alva’ e ‘Coroa de Saudades’. No início dessa primeira parte, que empresta o título ao livro [‘palingenesia’ significa renascimento, regeneração], Carlos de Lemos transcreve um excerto de uma carta de Trindade Coelho, a propósito de ‘Miragens’: “A palingenésia é a minha ressurreição: o meu renascimento para a Crença, para o Amor, para a Vida: porventura as Ladainhas que eu vou salmeando (a Coluna-de-Fogo a guiar-me…) a caminho do Éden, que, depois de, por momentos, julgado perdido, novamente surge aos olhos do meu Coração e aos olhos do meu Espírito, como Miragem (derradeira?!… quero crê-lo!…) que se deixará abraçar, enfim, na Canaã donde me vêm já, em horas de sonho, uns vagos aromas de flores de laranjeira…”.
O último desses quatro livros reunidos em ‘Palingenésia’ — ‘Coroa de Saudades’ — é dedicado à esposa do poeta: Beatriz Pinheiro, que foi poetisa, professora do ensino primário e pioneira do movimento de emancipação feminina em Portugal. A sua morte, em 1922, deixa Carlos de Lemos viúvo com apenas 55 anos e motiva este comovente soneto:

“Cá vim!… Tinha de ser!… Oxalá não!…
Oxalá, meu Amor!… eu não viesse!
Que nenhum de nós aqui tivesse
De enterrar, ainda vivo, o coração!

Viver um, só enquanto o outro vivesse,
Levando-se um ao outro pela mão…
E, chegados à última estação,
Morrer um, quando o outro lhe morresse!

Um beijo nossas almas fundiria
Numa estrela com asas!…— afinal,
O beijo que te dei na boca fria,

Ó minha companheira estremecida!
Foi-me nele a alma, foi! mas, por meu mal,
Nem me deu morte a mim… nem a ti vida!”.

E este é um excelente pretexto para lermos uma carta que Guilherme de Faria escreve a Manuel de Castro, no dia 18 de julho de 1924: “Acordei agora, há menos de meia hora e, obedecendo a um impulso natural, venho conversar uns minutos contigo. Desde que partiste ainda não provei uma xícara de café. Não tenho saído de casa. Tenho lido muito, tenho trabalhado bastante. […] Como te disse, passei uma destas noites em casa do Carlos de Lemos, grande poeta e querido amigo. Queres ouvir um soneto que ele escreveu aquando da morte da mulher, uma senhora muito inteligente, muito culta e muito simpática? Parece-me realmente um belo soneto, este que vais ouvir e que o nosso Carlos de Lemos teve a amabilidade de me oferecer”.
Depois de transcrever o soneto, Guilherme de Faria prossegue: “É admirável de perfeição e sentimento. Mas, em verdade, estou arrependido de o ter escrito nesta carta. Porque é, realmente, duma tristeza fúnebre, que compreendo, mas que me impressiona”.
Carlos de Lemos fora seu professor no Liceu de Passos Manuel, onde Guilherme de Faria foi inscrito no outono de 1919 e de onde foi expulso em 1922, supostamente “por ter agredido um professor que tinha o dobro do seu tamanho e que, no seu entender, fora injusto com ele”.
No dia 9 de setembro de 1925, hospedado na casa de Fausto Guedes Teixeira, em lamego, Guilherme de Faria escreve a Manuel de Castro: “Estou em Lamego e muito feliz da minha vida. Que a vida aqui é cheia de encantos: o Fausto é gentilíssimo, um grande espírito e um grande poeta; e Lamego é, realmente, uma linda terra. […] Vim encontrar aqui, em Casa do Fausto, o nosso amigo Carlos de Lemos que é verdadeiramente encantador”.
Passados dois anos, no jornal ‘Novidades’, no dia 14 de abril de 1927, na sequência da edição de ‘Destino’, Carlos de Lemos publica um extenso e importante artigo sobre a poesia de Guilherme de Faria. Aí acompanha a obra do poeta desde ‘Poemas’ e ‘Mais Poemas’. A propósito de ‘Sombra’ e ‘Saudade Minha’, Carlos de Lemos escreve: “Já nos volumes posteriores brilhantemente se afirmava, é certo, o lirismo muito pessoal de Guilherme de Faria: mas com intermitências ainda, ainda com desfalecimentos, aqui e ali uma exaltação mórbida, o arrepio duma psicose hamlética…”. E reconhece, no final, a propósito de ‘Destino’: “É que o poeta paira, de facto, muito alto, na posse, finalmente, duma arte e duma poesia muito suas”.
Com efeito, é em ‘Destino’ que Guilherme de Faria assume plenamente a estética neorromântica lusitanista. Carlos de Lemos tem, então, 50 anos. Anteriormente, enquanto pretenso discípulo poético de Antero de Quental e enquanto promotor crítico de um ‘Musset português’ — Fausto Guedes Teixeira —, Carlos de Lemos protagoniza, talvez, o caso mais evidente das tentativas de alargamento do espectro neorromântico que não fica apenas a dever-se à reformulação da tradição expressivista, sentimental e evasiva, mas revela fundamentalmente a tentativa de instauração, sobre esse mesmo fundo sub-romântico, de novas eloquências líricas.
Nesse artigo de 14 de abril, Carlos de Lemos possibilita-nos uma interessante descrição de Guilherme de Faria, do tempo em que era seu aluno no Liceu Passos Manuel: “Ele era então um mocinho quase criança, de corpo reduzido em que se destacava a cabeça e nela os grandes olhos míopes, em cuja pretidão luminosa […] se refletia a candidez ofélica de uma alma em êxtase, assombrada de Infinito…”.
Carlos de Lemos exalta a precocidade de Guilherme de Faria, considerando que ‘Poemas’ e ‘Mais Poemas’ são livros mais interessantes do que a juvenília de Almeida Garrett, Teófilo Braga ou Guerra Junqueiro: “Certo é que esses primeiros versos de Guilherme de Faria, contagiados nos ‘Males de Anto’, tinham muito sensíveis ressonâncias da mórbida toada do ‘Só’: não marcavam bem uma personalidade. Esse o seu senão. Valem e muito valerão, sobretudo para os vindouros, como elementos de estudo da idiossincrasia do autor: por isso é natural que um dia surjam numa edição integral. Para o quanto possível perfeito conhecimento dum poeta, muito ajuda saber-se qual o guia dos seus hesitantes passos, das entranhas da ‘Sombra’ para a estrela que lhe marca o ‘Destino’”.
Depois reflete sobre a autenticidade, beleza e simplicidade dos poemas que Guilherme de Faria reúne em ‘Destino’, em 1927: “nos seus versos não encontramos aquelas ‘inanidades sonoras’, de que fala Mallarmé. Nada de requinte ou de ineditismo: tudo só do que há de mais simples e natural e espontâneo. […] Assim o seu livro é uma bela obra de arte, e da melhor, da mais pura poesia”.
Guilherme de Faria põe fim à sua vida com 21 anos, a 4 de janeiro de 1929, um dia depois de Carlos de Lemos celebrar o seu 52.º aniversário. Desta amizade restam alguns documentos, interseções ténues, apontamentos de um passado esmaecido.
Carlos de Lemos viria a morrer em 1954, com 87 anos. Passados 150 anos do seu nascimento, a sua obra espera necessário estudo e merecida reedição.

No espólio de Guilherme de Faria, dois importantes documento: uma fotografia de Carlos de Lemos do tempo de estudante universitário em Coimbra, assinado, oferecido a Guilherme de Faria em Lamego, em setembro de 1925; e um extenso autógrafo de Carlos de Lemos: “Ao querido Poeta e Amigo Guilherme de Faria, por saber que os há de ler com muito coração, oferece Carlos de Lemos. À memória de Beatriz Pinheiro — ‘Coroa de Saudades’ de Carlos de Lemos, seguido de uma notícia daquela poetisa e do seu poemeto ‘Os três Cavaleiros’”; autógrafo oferecido no dia 13 de maio de 1025. E foi possível recuperar o exemplar de ‘Oração de Santo António de Lisboa’, plaqueta de 1926 que Guilherme de Faria ofereceu e dedicou: “Ao meu queridíssimo Amigo e grande Poeta, Senhor Dr. Carlos de Lemos”.

 


José Rui Teixeira | 2018