Guilherme de Faria era parente afastado de CAMILO PESSANHA [1867-1926], da parte da mãe, Lúcia Eduarda Pessanha de Sequeira Braga, que nasceu em Miranda do Douro, no dia 20 de novembro de 1881 e que descendia de Manuel Pessanha, um genovês que D. Dinis encarregara de reorganizar a incipiente armada portuguesa e a quem concedeu o título de Almirante de Portugal em 1317.
Juntamente com Antero de Quental e António Nobre, Camilo Pessanha foi uma figura tutelar para o jovem poeta, que lhe dedica um artigo — ‘Um Poeta português’ — publicado no dia 30 de janeiro de 1927, n’ ‘A Folha do Lado’: “Morreu, há meses, no seu exílio voluntário em Macau, o grande Poeta Camilo Pessanha. […] Poeta, pela sensibilidade extraordinária e pela inspiração originalíssima, Camilo Pessanha até da sua geração literária foi ignorado ou, pelo menos, esquecido. Só Alberto Osório de Castro e Wenceslau de Moraes o lembraram, nas suas obras, com enternecidas palavras. […] Para alguns, como eu, o aparecimento e leitura da Clepsidra foram motivo de imperecível consolação e gratíssimo orgulho. Cansado da má poesia que, por quase todas essas obras contemporâneas, ora se desmancha em deselegâncias afectadas, ora se conturba e escurece de nevoeiros ‘saudosistas’ que visam só falsear o puro sentimento português, eu tive a boa sorte de encontrar o livro de Camilo Pessanha. Apesar de parente do Poeta, eu não tinha, em virtude da sua ausência, a ventura de o conhecer. E aos seus versos desconhecia-os também. Foi assim que os meus alvoroçados treze anos encontraram, perfumados e frescos da eterna graça portuguesa, estes poemas de ‘Clepsidra’; e ainda hoje, ao reler os versos de maravilha, neles encontro, viva, a angustiosa expressão do exílio […]. E nesse livro bem-amado, foi-me dado encontrar de novo o puro sentido e o ledo e brando ritmo da Poesia portuguesa. Passando sobre todas as más influências e piores intenções da poesia revolucionária, e bem extremada das sombras bizantinas do simbolismo francês (porque Camilo Pessanha não é um simbolista de escola), enfim, depurada de tudo quanto é estranho e inferior na nossa poesia, a alma lírica dos Cancioneiros perpassa e plange, enamorada nos versos deste Poeta”.
Guilherme de Faria, de certo modo escrevendo sobre si próprio, demarca-se do saudosismo e do modernismo e situa-se na continuidade da poesia de Camilo Pessanha. Curiosamente, ao folhear a 1.ª edição de ‘Clepsidra’, de 1920, percebemos onde o jovem poeta foi buscar inspiração para a publicação dos seus ‘Poemas’ e ‘Mais Poemas’, em 1922: o tipo de papel, o modo de apresentação dos títulos ou a disposição dos sonetos.
Sobre o exemplar de ‘Clepsidra’ que pertenceu a Guilherme de Faria, encontramos um interessante testemunho de José Gomes Ferreira, escrito no seu diário, no dia 7 de junho de 1968:

“Esta manhã, ao remexer nos livros da estante, encontrei a 1.ª edição da ‘Clepsidra’, ou antes da ‘Clepsydra’, de 1920. Pertenceu a Guilherme de Faria (lê-se a assinatura bem nítida – letra tipo afonsolopesvieiresco – numa das folhas de guarda) e foi-me oferecida pelo Manuel Mendes, amigo íntimo do infeliz poeta de ‘Saudade Minha’.
Folheie-o com a lentidão de quem caminha num museu. Ou procura um rasto.
Logo os primeiros quatro versos da ‘Inscripção’ (assim mesmo com ‘p’) – ‘Eu vi a luz de um paiz’ (com ‘z’) ‘perdido’, etc. — estão assinalados com uma chaveta a lápis.
Adesão.
Depois, começam os sonetos — ou melhor, os ‘sonêtos’ com acento circunflexo no ‘e’.
O primeiro — Tatuagens complicadas do meu peito, etc. – não tem qualquer traço a realçá-lo. Interessou pouco a Guilherme de Faria. (Em compensação, Américo Durão leu-o, por certo, apaixonado.)
Já o segundo — ‘Cancei-me de tentar o teu segrêdo’, etc. — mereceu a honra de um risco contínuo de aprovação. Mas o terceiro — ‘Phonographo’ (assim com todos estes ‘phs’) – só lhe impôs um verso: ‘Ante o Seu corpo o sonho meu flutua’…
O próximo — ‘Desce em folhedos tenros a collina’ (com dois ‘ll’) – ostenta uma bela seta, levemente curva e vinda do alto, apontada à cabeça do soneto.
E aqui temos agora o ‘Esbelta surge! Vem das aguas, nua’, etc. – convenientemente riscado com carinho aprovador. O seguinte — ‘Depois da lucta e depois da conquista’, etc. — passou despercebido. E encontramo-nos então diante de ‘Quem polluiu, quem rasgou os meus lençoes de linho’. (Dois ‘ll’ em poluiu.)
Entusiasmado no carregar do lápis e no ‘G’ rabiscado no princípio do primeiro verso como que a dizer: Gostaria que este soneto fosse meu.
Entretanto volto a página e leio ‘Ó meu coração torna para traz’, etc., onde não descubro qualquer marca de adesão. Mas o entusiasmo suscitado pelo ‘Quem polluiu’, etc., não tem tempo para arrefecer, pois aparece logo o ‘Floriram por engano as rosas bravas’ riscado de cima a baixo. Ao que se segue o soneto ‘E eis quanto resta do idyllio acabado/ — Primavera que durou um momento…’ — só com esses dois versos destacados. (Aproveitamento nítido da voz alheia para uma confissão pessoal.)
Entramos então na parte do livro intitulada ‘Poesias’.
A primeira deve ter feito cócegas nas convicções monárquicas de Guilherme de Faria, porque não resistiu a chamar a atenção de si mesmo para estes versos de sabor heráldico:

‘E quando, ó Dôce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
— Magra figura de vitral,
Por quem nós fomos combater…’

E surge o célebre poema ‘Não sei se isto é amor’ com um ‘E’ bem desenhado a lápis no alto da página — talvez a inicial do nome da mulher amada.
No final da poesia, como que a assinar aquela carta lírica à sua ‘E’, o nome sincopado do poeta: ‘Guilhe’ (imitação do ‘Anto’).
Voa depois, rápido, sobre o ‘Rufando apressado/ e bamboleando’, etc. e…
(Preparem-se para o grande choque imprevisto.) Na minha frente está uma poesia a que dois traços, na primeira e última quadra, dão um significado terrível.
E leio, ‘a compreender’:

‘Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro…
Lançae-o ao mar.’

A última quadra é esta:

‘A sete chaves, — a carta encantada!
E um lenço bordado… Esse hei-de-o levar,
Que é para o molhar na agua salgada
No dia em que enfim deixar de chorar’

As restantes poesias já nem as li. Só uma, aliás, não estava marcada. Aquela, lindíssima:

‘De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me ha-de inhumar…’

Mas a Guilherme de Faria não interessava a terra. (A terra de morrer.) Interessava sim o mar indicado neste volume da ‘Clepsydra’ como o itinerário do seu suicídio:

‘Ao meu coração um peso de ferro…
Lançae-o ao mar.’

Porque Guilherme de Faria afogou-se. A 4 de Janeiro de 1929. Talvez por amor a ‘E’.
Conheci-o.
Sombra vaga.

Hei de pedir aos meus filhos e aos filhos dos meus filhos que não se desfaçam desta primeira edição da ‘Clepsydra’ de 1920… que a ausência de numeração, os ‘yy’, os ‘phs’, as letras dobradas e os acentos circunflexos, tornam os versos mais belos e estranhos.
Mas sobretudo porque esteve nas mãos dum pobre poeta malogrado que nele aprendeu a morte… Seguiu-a de verso em verso…
E, ainda hoje, as impressões digitais magoam o papel”.

Como se percebe neste testemunho de José Gomes Ferreira, o que une Guilherme de Faria a Camilo Pessanha não é o parentesco, nem mesmo uma suposta reminiscência quinhentista nos versos de ‘Clepsidra’. O que verdadeiramente os une é uma identidade poética e ontológica profunda. Com efeito, não podemos deixar de pensar em Guilherme de Faria quando lemos a carta que Camilo Pessanha escreveu ao seu pai, quando chegou a Macau: “minha infância, virtual, pois que eu não me lembro de ter tido uma infância (há muitos cismáticos que nascem velhos)”; não podemos deixar de pensar em Guilherme de Faria quando recordamos a amizade que Camilo Pessanha partilhava com Alberto Osório de Castro e o amor não correspondido pela irmã do amigo, Ana Osório de Castro; não podemos deixar de pensar em Guilherme de Faria quando pensamos nas limitações pessoais de fragilidade física, na figura desinteressante de estrábico franzino, na nula sedução exercida sobre o sexo feminino, no tendencial desequilíbrio nervoso ou na instabilidade psicológica de Camilo Pessanha.
Em 1895, numa carta a Alberto Osório de Castro, vítima de um doloroso drama psicológico-moral e de um contínuo processo de degradação íntima, Camilo Pessanha escreve: “Sabe que eu também ando por esses mares fora sempre a escolher o melhor lugar da minha sepultura?”. Guilherme de Faria encontrá-la-ia num mar mais próximo.
Acentuando a dimensão disfórica da poesia de Camilo Pessanha, José Carlos Seabra Pereira evoca a atitude derrotista que se manifesta num ceticismo fenomenista que em tudo vê contingência, aparência e efemeridade; o fatalismo, a ausência de alternativa feliz para a sua condição, a expectativa da morte, a aguda convicção da inconstância do mundo e da vida, a perecibilidade dos poderes e forças das criaturas, a fugacidade da ventura. Camilo Pessanha, como mais tarde Guilherme de Faria, “funde em múltiplos poemas, o desengano com a mundividência fatalista e pessimista, de par com os consequentes apelos à apatia”.
Com efeito, Guilherme de Faria escutou atentamente os repetidos apelos de Camilo Pessanha para refrear a sensibilidade e para o sono abúlico e alheado. É por isso que em Guilherme de Faria, como antes em António Nobre, Camilo Pessanha e Mário de Sá-Carneiro, ganha particular coerência o tópico, frequente na lírica decadentista, da aspiração ao derradeiro adormecimento, a entrega a uma ‘mors liberatrix’.

 


José Rui Teixeira | 2018