ARLINDO Augusto Pires VICENTE nasceu em Troviscal [Oliveira do Bairro], no dia 5 de Março de 1906. Tendo terminado a escolaridade em 1926, em Aveiro, matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, logo passando para o curso de Direito na Universidade de Lisboa, que terminará em Coimbra, em 1932.
Apesar de não ter formação artística específica, Arlindo Vicente notabilizou-se como desenhador e pintor. Em 1927 participou na organização do 1.º Salão de Arte dos Estudantes da Universidade de Coimbra. Participou no 1.º e no 2.º Salão dos Independentes em 1930 e 1931 [SNBA, Lisboa], na Exposição dos Artistas Modernos Independentes em 1936 [Casa Quintão, Chiado, Lisboa], em quase todas as Exposições Gerais de Artes Plásticas [exceto em 1954 e 1955] e nos Salões da Sociedade Nacional de Belas Artes, onde desempenhou cargos diretivos.

Datam de 1928 as belíssimas ilustrações de ‘Maria do Mar’, livro de Eduardo Brazão, e os retratos de Guilherme de Faria e António Pedro. O de Guilherme de Faria só seria publicado em 1970, na edição da conferência ‘Destino e Obra do Poeta Guilherme de Faria’, de Joaquim Paço d’Arcos [separata da revista ‘Ocidente’, vol. LXXIX].
Arlindo Vicente colaborou em revistas como a ‘Presença’, ‘Bandarra’ e ‘Acção’.
A sua oposição ao regime do Estado Novo coloca-o em rota de colisão com o poder político. Ao longo das décadas de 1930 e 1940 dedica-se quase em exclusivo à advocacia, destacando-se na defesa de vários democratas e antifascistas perante os tribunais da ditadura. No período de maior dinamismo do Movimento de Unidade Democrática [MUD], Arlindo Vicente participa na luta antifascista; contribui ativamente para a candidatura de Ruy Luís Gomes à Presidência da República [1951]. Em 1957, integra a lista da Oposição Democrática à Assembleia Nacional e, em 1958, disputa a campanha nas eleições para a Presidência da República, desistindo da candidatura a favor de Humberto Delgado. Em 1961 é detido sob acusação de atos subversivos, sendo condenado a vinte meses de prisão correcional e a cinco anos de inibição de direitos políticos.

Em 1970, Arlindo Vicente troca a advocacia pela pintura e, nesse mesmo ano, realiza a primeira exposição individual na SNBA, onde exporá setenta obras quatro anos mais tarde.
Morreu em Lisboa, no dia 24 de novembro de 1977.

São apenas cinco os documentos de Arlindo Vicente no espólio de Guilherme de Faria: três cartas e um bilhete-postal de 1927 e 1928, e uma reprodução do retrato de 1928. Nos documentos epistolares podem ler-se passagens como esta: “Você, Guilherme de Faria, nasceu poeta, nasceu com aquilo que o dinheiro não compra — o talento” [Coimbra, 18 de março de 1927]. No exemplar de ‘Maria do Mar’, de Eduardo Brazão Filho [Lisboa, J. Rodrigues & C.ª, 1928], Arlindo Vicente assina a dedicatória: “A Guilherme de Faria, ‘o grande Poeta’, com a mais subida admiração e sincera amizade de Arlindo Vicente – Lisboa, 15 de novembro de 1928”.
O filho de Arlindo Vicente — António Pedro Vicente — guarda ainda cinco documentos de Guilherme de Faria: uma carta, quatro pequenos cartões e um poema autógrafo — ‘Tristíssima canção’, assinado e datado de 18 de maio de 1928.


Arlindo Vicente com 28 anos, em 1934. Fotografia de Henrique Ramos [Aveiro], cedida por António Pedro Vicente.
Em 1928, Arlindo Vicente retratou Guilherme de Faria. Para além destes quatro documentos, no espólio do poeta encontrava-se uma reprodução deste retrato, assinado e dedicado por Arlindo Vicente: “Ao Bazílio Barros este retrato de Guilherme, feito nos dias que se seguiram à sua última doença”. Esta dedicatória é certamente posterior a 1970, ano em que o retrato é reproduzido na edição de ‘Destino e obra do poeta Guilherme de Faria’ [extratexto entre as páginas 8 e 9], conferência que Joaquim Paço d’Arcos pronunciou em 25 de setembro de 1970, no Paço Ducal de Guimarães [separata da revista ‘Ocidente’, vol. LXXIX].

 


José Rui Teixeira | 2018