Numa carta de 1955, ANTÓNIO PEDRO autobiografava-se assim: “Chamo-me António Pedro da Costa. Nasci em 9 de dezembro de 1909, na cidade da Praia, em Cabo Verde, filho de pais europeus […]. Esta metade galaico-minhota e irlando-galesa do meu sangue fez-me gostar de gaitas de foles, de instrumentos de percussão e da conquista do impossível. Como os meus tataravós celtas, se eu pudesse, atiraria setas ao sol”.
Este filho de “pais europeus”, que nasceu numa das dez ilhas vulcânicas de um arquipélago a mais de quinhentos quilómetros da costa ocidental de África, veio para Portugal com apenas quatro anos. Em Lisboa fez a instrução primária na Escola Recreativa de S. José, propriedade da tia paterna que o acolheu. Frequentou, depois, até ao final do 2.º ano, o Liceu Pedro Nunes. E, em 1921, partiu para junto do avô paterno, em Moledo do Minho.
Entre outubro de 1921 e abril de 1925, estudou no Colégio de La Guardia [Galiza], para onde os jesuítas portugueses — expulsos em 1910 — tinham mudado o Instituto Nun’Álvares. Companheiro, entre outros, de Luís Varela Cid e de Eduardo Brazão, aí se revelou o seu gosto pelo teatro e pela poesia.
Aluno do 5.º ano, em outubro de 1924, António Pedro tinha apenas 14 anos quando apresentou uma conferência sobre ‘A Educação Cristã do Operariado’, no I Congresso Eucarístico Nacional, em Braga.
No ano letivo de 1925-26, enquanto frequenta o 7.º ano liceal, em Coimbra, António Pedro funda e dirige ‘O Bicho’, jornal do Liceu de Coimbra, iniciativa aplaudida e apadrinhada por Fortunato de Almeida. E, na mesma cidade, com o amigo Arlindo Vicente [que assume a função de diretor artístico] funda, em julho de 1926, o quinzenário de caricatura ‘Pena, Lápis e Veneno’. António Pedro era o redator principal deste jornal, de que foi impresso apenas um número, no dia 22 de julho, no qual publicou dois poemas satíricos.
É, então, publicado o seu primeiro livro: ‘Os Meus 7 Pecados-capitais’, cuidada edição de oito sonetos, com um retrato de António Pedro da autoria de Arlindo Vicente e uma comovida dedicatória a Guilherme de Faria.
Nesse mesmo ano de 1926, é anunciado o livro ‘Sol Morto’, que não chega a ser publicado, e José-Augusto França refere-se a um manuscrito ilustrado deste período, intitulado ‘As Minhas 7 Virtudes Principais’, sobre o qual António Pedro escreve a Guilherme de Faria: “Fiz agora ‘As Minhas 7 Virtudes Principais’. São os pecados transfigurados em virtudes por obra e graça dum divino Amor. Os pecados e as virtudes farão um conjunto a que eu chamo EU”.
Ainda em 1926, António Pedro publica poemas em jornais como o ‘Correio de Coimbra’, ‘A Comuna’ e ‘A Aurora’. Entre 1926 e 1927, colabora com versos e desenhos no suplemento ‘Pim-Pam-Pum’, do jornal ‘O Século’.
No dia 30 de março de 1927, é impresso ‘Ledo Encanto’, o segundo livro de António Pedro, num período em que estuda na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde esteve inscrito apenas dois anos letivos [1926-28]. Em 13 de junho de 1928, é impressa a 1.ª edição de ‘Distância’, com uma carta-prefácio de Coelho de Carvalho, livro reeditado no dia 7 de outubro desse mesmo ano.
De acordo com José-Augusto França, António Pedro trabalha em Cabo Verde em 1928-29. É muito improvável que tenha partido para Cabo Verde em 1928, na medida em que, em outubro, em Lisboa, imprime a 2.ª edição de ‘Distância’ e, em dezembro, são publicados os dois números d’ ‘A Bandeira’, semanário legitimista que António Pedro funda e dirige.
Entre fevereiro e março de 1929, estando em Cabo Verde ou em Portugal, para além de um poema na ‘Presença’, António Pedro publica o seu quarto livro: ‘Devagar’, com uma carta-prefácio de Hipólito Raposo. E nesse mesmo ano, no dia 10 de outubro, ‘Diário’ sai dos prelos da Imprensa Nacional de Cabo Verde.

Foi em 1926 que António Pedro começou a publicar os seus versos, mas, de acordo com o seu texto autobiográfico, começou a escrever por volta de 1920 ou 1921: “Fiz versos e bonecos desde os 12 anos, ou de mais cedo ainda”.
Não sei quando e em que circunstâncias António Pedro e Guilherme de Faria se conheceram. O elo comum pode ter sido Eduardo Brazão, filho do afamado ator, de quem herdou o nome, a que António Pedro se refere numa memória não datada: “O grande ator Eduardo Brazão viu-me várias vezes representar e disse-me que eu deveria ser ator. Nas férias, com o filho, em casa dele, vesti-lhe várias vezes as armaduras e empunhei-lhe as espadas do repertório clássico às escondidas. Esquecido do conselho que me dera, ferrou-me uma grande descompostura quando soube disso”.
Só a data deste episódio permitiria perceber se eventualmente Eduardo Brazão esteve ou não no princípio dessa amizade, cujo testemunho mais antigo data de janeiro de 1924, uma carta de Guilherme de Faria que revela já uma grande cumplicidade: “Meu querido António Pedro, acabo de ler os ‘Toscos’ que, por sinal, não são nada toscos. Gostei muito dos teus versos. Tenho ainda no ouvido a doce melodia daquele poema — ‘chorar’… Hás de ser um grande poeta, meu querido António Pedro! Adeus. Escreve de La Guardia ao teu amigo e camarada muito devotado”.
A amizade de Guilherme de Faria e António Pedro está descrita e bem documentada. No espólio de António Pedro, na Biblioteca Nacional de Portugal, existem dez documentos de Guilherme de Faria: sete cartas [BNP E5 114-120], dois poemas éditos [BNP E5 120 A e B] e um interessante documento inédito com ‘pensamentos e máximas’ [BNP E5 486].
Estando António Pedro em Coimbra, Guilherme de Faria escreve-lhe de Lisboa, no dia 26 de abril de 1926: “Como estás tu e essa doce Coimbra, terra de amores e poetas? — Oxalá que estejas bem, tão bem como mereces, meu querido Poeta! De Coimbra sei eu, decerto, que está radiosa de felicidade, por te ter no seu seio, que já acolheu amoravelmente Camões, Antero e quantos mais… — Escreve, pois; e fala do teu livro de admiráveis sonetos que não posso esquecer”.
Refere-se Guilherme de Faria ao primeiro livro de António Pedro — ‘Os Meus 7 Pecados-capitais’ — que, na terceira página, imprime esta dedicatória: “Ao maior poeta da minha geração e um dos grandes poetas da dor de todos os tempos: Guilherme de Faria, com um abraço de amigo e uma homenagem de admirador”.
No manuscrito autógrafo de ‘Sol Morto’, datado de 10 de dezembro de 1926 e que permaneceu inédito noventa anos, António Pedro escreve no frontispício: “Livro de amor e saudades, escrito pelo punho do autor em antes da sua publicação para o poeta Guilherme de Faria”. Além desse documento, no espólio de Guilherme de Faria existem doze poemas manuscritos autógrafos de António Pedro: dois inéditos, dois poemas de ‘Ledo Encanto’, quatro de ‘Distância’ e quatro de ‘Devagar’. Existem ainda oito documentos epistolares: seis cartas e dois bilhetes-postais. Ao receber o exemplar de ‘Saudade Minha’, em maio de 1926, António Pedro agradece a Guilherme de Faria: “Obrigado, Guilherme, o teu livro não se agradece, venera-se”.
Aí se encontra, com a caligrafia de António Pedro, uma quadra humorística de circunstância sobre Guilherme de Faria: “É um poeta de engenho peregrino./ E um homem singular:/ Sendo em tudo infantil como um menino,/ Usa bigode p’ra disfarçar”. Um retrato de António Pedro dedicado a Guilherme de Faria; um retrato de Guilherme de Faria desenhado por António Pedro, de 1927; e este texto, datado de 9 de abril desse mesmo ano: “Sobre Guilherme de Faria? Quatro palavras bastam: Um Grande Poeta Português. Quatro palavras que se escrevem com letra grande, quatro palavras que são quatro substantivos: Um, e é raro ser-se Um; Grande, e numa história literária tão pujante como a nossa não há grandes que, em estátuas, cheguem para um jardim de cidade; Poeta, o substantivo que é o melhor adjetivo possível para um homem; Português, e basta que eu seja um Português consciente, para achar sempre a um Português uma grande qualidade: ter nascido em Portugal”.
Todos estes documentos partilhados permitem-nos perceber a intensidade desta amizade, mais uma vez testemunhada pelas palavras de Guilherme de Faria, numa carta escrita na Ericeira, no dia 4 de junho de 1928: “Pedro é um Amigo, um admirável Amigo a quem eu voto a maior amizade. E é um Poeta, é sobretudo um Poeta, tanto nos seus versos imperecíveis como na compreensão natural e natural prática dos mais nobres sentimentos. Viva, pois, Pedro-o-grande, e grande em infinita sensibilidade como em refletido sentimento! Sim, porque eu quero afirmar às gentes estarrecidas a perfeita lucidez, a iluminada inteligência, o adamantino espírito de Pedro! Porque Pedro, apesar de convencido do contrário, é uma inteligência preclara, um superior espírito”.

No dia 1 de agosto desse ano, Guilherme de Faria parte com António Pedro para Moledo do Minho. Passeiam pela Galiza por esses dias e uma rara fotografia, certamente tirada por António Pedro, em Vigo.
Tendo regressado a Lisboa, Guilherme de Faria trabalha naqueles que seriam os seus livros póstumos: ‘Desencanto’, o seu último livro, e ‘Saudade Minha (poesias escolhidas)’, a antologia em que reúne cem dos seus poemas. António Pedro imprime a 2.ª edição de ‘Distância’, em outubro; em dezembro funda e dirige o semanário legitimista ‘A Bandeira’ e publica na ‘Nação Portuguesa’ o artigo ‘Poesia — Os contemporâneos I — Guilherme de Faria’, [Série V, Tomo I, n.º 6, dezembro de 1928, pp. 437-448], onde se lê: “O lirismo na sua expressão mais pura e transcendente – quer em sublime exaltação amorosa pela Eleita ou pela Pátria, quer em autoanálise, não dissecantemente filosófica, mas serenamente emotiva e quase sempre ausente – que de há séculos vive, apertado e contrafeito, em rigidez de escolas impossíveis, encontrou em Portugal um dos seus mais extraordinários poetas: Guilherme de Faria, poeta da Terra, que mais nos parece um poeta do Céu, vendo como Céu um além-mundo de beleza imperecível, que de forma alguma nos aparece concretizado, como na concepção católica”.
António Pedro reflete sobre a presença de Deus na poesia de Guilherme de Faria, como manifestação da uma “sede de infinito” que se exprime saudosamente: “Porque o sentido vivo da saudade, encontrou-o ele, não apenas numa lembrança amarga e doce, mas também num desejo incorpóreo e vago: lembrança e desejo, em mansamente dolorosa conjuntura”.
Por isso, para António Pedro, a poesia de Guilherme de Faria é predominantemente assinalada pela saudade de Deus, em sentido metafísico e espiritual, o que resulta na “ausência de exterior absoluta e estranha, que faz da sua poesia, a partir da forma definitiva, um caso único de espiritualidade e de beleza imutável”.
A natureza tendencialmente etérea desta poesia, tantas vezes ensimesmada no seu estremecimento mais íntimo, é expressão de um sentimento amoroso que nunca sabemos se se consagra a uma mulher ou à própria saudade: “Pois sendo de amor quase toda a poesia deste trovador do século XX, é tão raro corporizar-se definidamente a sua eleita, como frequente a sua identificação com a própria saudade”.
António Pedro, profundamente identificado com o ideário integralista, não se esquece da dimensão “nacionalista” da poesia de Guilherme de Faria: “Fá-lo vibrar o espírito da Pátria, na sua ordem antiga, e esta ‘apagada e vil tristeza’ em que ora se debate fez-lhe nascer Saudades de Portugal, florescidas na esperança do Desejado, que em sua crença de legitimista […] se transforma na esperança do regresso do Rei verdadeiro, Sua Majestade o Senhor D. Duarte II, réstia de sol, a iluminar o coração dos portugueses”.
Tendo destacado a “pura beleza formal” da poesia de Guilherme de Faria, António Pedro define o seu amigo poeta como “mestre da redondilha”, “a mais natural expressão da língua portuguesa, […] desde o terno sabor do sentimento popular ao movimento do drama e da tragédia, e à épica sonoridade das canções de gesta”.
O motivo pelo qual me detive neste artigo de António Pedro prende-se, fundamentalmente, com a determinante influência que Guilherme de Faria exerce sobre as opções estéticas e sobre as convicções integralistas de António Pedro. Apesar de ser apenas dois anos mais velho, Guilherme de Faria não é apenas um bom amigo em contexto geracional. E ao escrever este esboço de ensaio de crítica literária sobre este poeta, António Pedro está também a refletir sobre a sua própria arte poética.
A amizade e a profunda admiração expressa na comovida dedicatória de ‘Os Meus 7 Pecados-capitais’ — “Ao maior poeta da minha geração e um dos grandes poetas da dor de todos os tempos” — permitem-nos uma exegese significativamente mais integrada da poesia de António Pedro.
A influência de Guilherme de Faria é oportunamente referida, em 1936, em ‘A Poesia de António Pedro’, de Garcia Domingues: “Uma [influência] existe, porém, que importa distinguir pelo seu caráter de intimidade: a de Guilherme de Faria, de quem o poeta foi amigo, com quem privou durante muito tempo e de cuja inspiração lírica algumas das suas primeiras composições estão contagiadas, tanto pela simplicidade como pelo misticismo doce, medieval, ora duma cândida alvura, ora de pura expressão trovadoresca”.
Curiosamente, Jorge de Sena, escrevendo sobre António Pedro nos seus ‘Estudos de Literatura Portuguesa’, considera-o “íntimo amigo do admirável Guilherme de Faria, com cuja poesia a primeira de Pedro se identifica muito”. Para Jorge de Sena, António Pedro evoluiu rapidamente de um “discreto saudosismo esteticista à maneira do seu amigo de juventude Guilherme de Faria” para uma poesia e atitudes de vanguarda, e o seu modernismo é particularmente marcado por um “delicado sentimentalismo à Guilherme de Faria”. Lê-se no primeiro volume dos ‘Estudos de Literatura Portuguesa’: “Reconheço que é extremamente aflitivo para os espíritos simples que um homem de vanguarda tenha, como António Pedro, ficado sempre tão fiel a um doce sentimentalismo saudosista e nacionalista que ele, na adolescência, partilhara com o malogrado Guilherme de Faria, seu amigo”.
Tal como com Anrique Paço d’Arcos, que “viria a ser o discípulo bem-amado de Teixeira de Pascoaes”, foi Guilherme de Faria quem motivou António Pedro a escrever e publicar, e quem o introduziu nos meios literário, artístico e político.
António Pedro empenhou-se na causa integralista e não creio que, tendo-se naturalmente distanciado desse ideário, anos mais tarde, tenha negado o seu passado, a sua militância e as suas relações desse contexto sociopolítico e cultural. Mesmo esteticamente, um criativo tão inconformado como António Pedro, permanentemente em busca da novidade em múltiplas expressões estéticas, nunca negou a sua poesia da década de 20, nem a influência tutelar do amigo Guilherme de Faria.

Há um ciclo que se fecha na vida e na obra de António Pedro no final de 1929: a morte de Guilherme de Faria, a estada em Cabo Verde, a publicação de ‘Devagar’ e ‘Diário’, o vigésimo aniversário. António Pedro continuará a escrever poesia; distinguir-se-á como ensaísta e artista multifacetado, como promotor das artes e como editor; tornar-se-á uma referência incontornável da cultura portuguesa do século XX, particularmente do teatro.
Criativo desassossegado e compulsivo, António Pedro foi um dos mais fascinantes e versáteis estetas da nossa história cultural. Morreu no dia 17 de agosto de 1966, em Moledo do Minho, com 56 anos.


Retrato de Guilherme de Faria da autoria de António Pedro, datado de 1927, com a dedicatória: “Ao Guilherme de Faria, grande amigo, grande poeta, grande ponto e grande repositório de anedotas”. Fotografia publicada num artigo de Nuno de Sampayo: ‘Guilherme de Faria. Há setenta anos’ [‘Notícias de Guimarães’, 9 de outubro de 1977].

 


José Rui Teixeira | 2018