Quando Guilherme de Faria nasceu, em 1907, ANTÓNIO NOBRE [1867-1900] tinha já morrido há sete anos. Mas nenhum outro autor Nobre exerceu uma influência tão intensa e tão profunda sobre Guilherme de Faria.
No ‘Só’, em vez do precursor do saudável neogarrettismo que Alberto d’Oliveira teorizaria em 1894 [em ‘Palavras Loucas’], António Nobre inventou a forma literária exata para a sua ambiguidade. O seu método consistiu na debruagem de notas realistas sobre um tecido fundamentalmente mítico. A poesia das ermidas e romarias não impede o desprendimento irónico: “Nada me importas, País! […] Que desgraça nascer em Portugal!”. O ‘Só’ vive do entrançamento de dois registos: a saudade da infância e a consciência de que é impossível regressar. António Nobre deu aos seus leitores a subtil e delicada fórmula, mistura de cepticismo e patriotismo, que iria moldar a relação dos seus leitores — esse “público snob”, nas palavras desdenhosas de Albino Forjaz de Sampaio — com o país em que viviam.
Foi na 4.ª edição, de 1921, que Guilherme de Faria leu o ‘Só’. Data de maio desse mesmo ano o manuscrito autógrafo do soneto inédito ‘Purinha’, onde se lê esta quadra: “Mais leve do que a asa de andorinha,/ Mais lindo do que o céu que a todos cobre,/ É irmã piedosa da Purinha/ Do meu santo e querido António Nobre”. Guilherme de Faria tinha 13 anos quando escreve estes versos.
No outono de 1922, na turma do 5.º ano, no Liceu Pedro Nunes, além de Joaquim Paço d’Arcos [de regresso a Lisboa, depois de três anos vividos com a família em Macau, onde fora aluno de Camilo Pessanha] e de Manuel de Castro [que será o melhor amigo de Guilherme de Faria], estava inscrito Francisco de Lucena, sobrinho da ‘Purinha’ de António Nobre. Joaquim Paço d’Arcos recorda esse dia 6 de outubro de 1922: “Quando nos reunimos, nesse primeiro dia de aulas, o Guilherme de Faria completava exatamente quinze anos […]. Mas já era Poeta publicado, pois meses antes, atirara para as montras do Chiado um primeiro livro de oito poesias que intitulara singelamente ‘Poemas’”.
A intensa relação que Guilherme de Faria estabelece com a figura e com a poesia de António Nobre está intimamente ligada à amizade com Manuel de Castro e, atrás da figura do melhor amigo, e ao amor pela sua irmã: Emília Castro [1910-1971]. Para Joaquim Paço d’Arcos, o drama amoroso do poeta evoca, na sua dedicação a Manuel de Castro, o caso de António Nobre e a sua afeição por Manuel de Lucena, irmão da ‘Purinha’. Mais exacerbada, porém, a amizade de Guilherme de Faria, “na medida em que correspondia à transposição exaltada do sentimento para a pessoa mais chegada ao objeto, inatingível, da sua paixão”.

Para Guilherme de Faria, António Nobre constitui uma referência incontornável, como bem se percebe nos dois livros de 1922, e não apenas do ponto de vista literário. Com efeito, arrisco afirmar que a biografia de Guilherme de Faria é ininteligível sem o ‘Só’ de António Nobre, consciente do modo iniludível como o afetou “o livro mais triste que há em Portugal”.
Neste contexto, uma particularidade se destaca: Emília Castro — eventualmente mais do que Margarida de Lucena — corresponde ao ideal feminino descrito em ‘Purinha’, poema de 1891. Guilherme de Faria utilizou, mais ou menos consciente ou inconscientemente, o poema de António Nobre como critério para a escolha da mulher que, fatalmente, escolheu amar. Com efeito, quanto mais nos embrenhamos na complexa personalidade de Guilherme de Faria, mais se torna evidente que tenha sido António Nobre quem descreveu poeticamente a Emília Castro que Guilherme de Faria amou. Assim, há de ser alta [como a ‘Torre de David’] e magra [como um choupo]; seu cabelo em cachos [cachos de uvas] e negro [como as capas das viúvas]; a sua boca uma romã, os seus olhos duas “Estrelinhas da Manhã”; seu corpo será ligeiro e leve. A coincidência é impressionante. Efetivamente, o poema de Nobre está mais próximo da descrição de Emília Castro do que de Margarida de Lucena. Com efeito, a Emília que Guilherme conheceu em 1922 ou 1923, é uma menina com treze anos, alta e magra, cabelo escuro em cachos, boca bem definida e olhos expressivos.
António Nobre prossegue: há de ser natural e “há de ser boa, excecional, quase divina/ Mais pura, mais simples, que moça e menina”. Guilherme de Faria teria desejado ser o noivo que a espera à porta da igreja, teria desejado o lar de que fala António Nobre, teria repetido vezes sem conta: “E assim me iluda e, assim, cuide viver/ Noutro século em que eu deveria nascer”. É recorrente na poesia e na correspondência de Guilherme de Faria a idealização de uma vida que não teve, num tempo em que não viveu.
“Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?”. Para Guilherme de Faria podia, de facto; ele desejava a ‘Purinha’ de António Nobre, desejava-a na figura de Emília Castro e nenhuma outra mulher que conhecera correspondia de um modo tão evidente a esse ideal. Numa carta dirigida a Manuel de Castro, datada de 8 de setembro de 1924, o jovem poeta contextualiza a figura da mulher que deseja num cenário tipicamente marcado por António Nobre, retirado, por exemplo, da ‘Canção da Felicidade’: “Quero completar o curso liceal para depois viver longe das coisas bárbaras do mundo, nesse admirável Ribatejo que tão grandes encantos tem. Meu Deus! dá-me ao menos a graça de ver realizadas as minhas pobres ambições! Dá-me pela vida fora alimentação frugal para o corpo e serenidade e alegria para o espírito! Para desvanecer definitivamente as dúvidas que me entristecem e as sombras que me torturam, dá-me a luz clara e doce duns olhos negros de mulher! (criança que nem sabe que é mulher!) Dá-me a tua bênção, redime a minha pobre alma deste humano cativeiro, dá-me um pouco de ingenuidade e inconsciência, que nunca tive!, e deixa-me sonhar, e deixa-me viver!”.
Em ‘Carta a uma estrangeira’, poema de ‘Destino’, Guilherme de Faria formula poeticamente o amor por Emília Castro nestes termos:

“Vendo este céu, senti-me logo poeta
E, toda a vida, amei uma só vez.

Amei a flor mais nobre desta Raça
— Menina e Moça, um dia, aparecida,
Por milagre de Deus, cheia de graça,
A abençoar de amor a minha vida.

E assim eu vivo a amá-la; e é clara e linda
A minha vida, à luz do seu amor;
E amando-a sempre, amá-la mais ainda
É o meu ideal de perfeição maior”.

E aqui se lê o poema ‘Viagens na minha terra’, de António Nobre:

“Meu pobre Infante, em que cismavas
Porque é que os olhos profundavas
No Céu sem par do teu País?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz…”.

Este é um retrato poético que Guilherme de Faria assume no seu ‘Ex-libris’:

“Nasci em Portugal,
E, graças ao Senhor,
Nasci bem português;
Assim, d’alma leal,
Num sonho sempre em flor,
Amei uma só vez”.

Guilherme de Faria não interpreta isoladamente a figura de Emília Castro. Com efeito, há todo um contexto que é transportado do imaginário poético de António Nobre para a construção da identidade de um Guilherme de Faria que não chegou a existir, que supostamente teria sido feliz numa paisagem rural, idílica, longe de Lisboa, junto a uma Emília Castro que talvez só tenha existido nos versos do ‘Só’ de António Nobre ou nas aparições poéticas e oníricas de Guilherme de Faria.
Para além das qualidades evidentes que os seus poemas revelam, para além da cultura literária que adquire, para além da condição de poeta assumida fatalisticamente, o caso de Guilherme de Faria adquire uma singularidade na história da poesia portuguesa por um aspeto particular: como nenhum outro poeta, ele identifica-se dramaticamente com as suas leituras, assume fragmentos da vida e da obra de outros poetas, sobretudo de António Nobre, e confere-lhes uma vida nova, com uma densidade que assoma nos seus próprios poemas e nos desabafos que guardou em centenas de cartas íntimas.
Em Guilherme de Faria é muito difícil separar aquilo que é do domínio da vida — o quotidiano, as relações, a formação escolar, a atividade profissional, etc. —, daquilo que é especificamente do domínio da literatura. Isto acentua a condição de ‘poeta romântico’ e a fatalidade de um comportamento tendencialmente mimético em que dificilmente se distingue o que é originariamente seu e o universo literário assimilado nas suas leituras e nas projeções que essas leituras lhe possibilitaram.
Para além das evidentes semelhanças a que já aludi, entre Emília Castro e a descrição de Margarida de Lucena por António Nobre, em ‘Purinha’, a família de Manuel e Emília tinha sido íntima de António Nobre: a sua mãe, Emília Maria das Dores Teles da Gama, e os seus tios conviveram com o poeta com grande proximidade em 1898, na ilha da Madeira. São várias as referências e as fotografias que testemunham estas relações. Neste contexto, importa salientar a bem descrita e ilustrada camaradagem entre António Nobre e Domingos Teles da Gama e o soneto que o poeta dedica à mãe de Manuel e Emília, no dia 20 de novembro de 1889, posteriormente recolhido na edição de ‘Despedidas’, em 1902. Como se Emília Teles da Gama não gostasse do seu nome — “Emília és, quer queiras, ou não queiras” —, António Nobre pressagia:

“Que Santa Emília te acompanhe, Rainha!
E com a tua Mãe, seja madrinha,
Quando ela, um dia, te levar à igreja!

E, ó pura Glória, que em teus olhos brilha!
Doces presságios meus, que a tua filha
Seja loira também e Emília seja!”.

Emília Teles da Gama cumpriu o vaticínio de Nobre e pôs à sua filha o nome de Emília. E é por esta menina que Guilherme de Faria se apaixonará.
Num impressionante poema não datado, provavelmente de 1926, o jovem poeta enuncia a proposta da sua automitografia, legitima o seu amor e profetiza o seu próprio nascimento na voz de António Nobre:

“Ora ouvi, ouvi, que é uma doce história
A que vou contar-vos… Conto-a de memória,

Pois no meu sentido, na minha alma a trago
Viva sempre, e cheia desse encanto vago

Que para mim teve, mal eu a escutara
A uma voz saudosa, certa noite clara:

— ‘Uma vez um poeta, namorado e estranho,
De inspiração casta e peregrino engenho,

Ao louvar um nome de beleza infinda,
E a Senhora dele, mais formosa ainda,

Disse-lhe, num canto cheio de harmonia,
Esta encantadora e maga profecia:

— Heis de ter, Senhora, pela vida fora,
Como padroeira, como protetora,

Milagrosa Santa que é na eternidade
Vossa irmã no nome como na bondade.

E quando casardes, há de a vossa Filha,
Como vós, Senhora, linda à maravilha,

Ter o nome, a graça que em meu canto exalto!
(E pensou ainda, sem o dizer alto:

Antes d’Ela, um outro poeta nascerá
Que o seu nome e glória certo exaltará!)’ —”.

Mais do que qualquer questão de natureza biográfica circunstancial ou mesmo do que quaisquer intertextualidades e intratextualidades, o que mais intrinsecamente irmana Guilherme de Faria ao autor do ‘Só’ é esse rumor poético que possibilita o verso de ‘Mais Poemas’: “Oh meu pálido Irmão, tão pálido e tão doce!” [no poema ‘Anto’, p. 22, e num bilhete-postal com o retrato de António Nobre, onde Guilherme de Faria escreveu, também em 1922: “Oh meu divino Irmão, tão pálido e tão doce!”]. Com efeito, os dois poetas partilham uma intimidade perturbadora com a morte, as paisagens outoniças e crepusculares, o mesmo modelo de idealização amorosa e a mesma vertigem de mar.
Tal como Guilherme de Faria, António Nobre fora um poeta precoce. O sentimento de predestinação suscita nos dois poetas um narcisismo agressivo e origina também, em natural complementaridade, o afastamento de uma otimista confrontação com a vida e a proximidade da sombra da morte. Tal como em António Nobre, existe em Guilherme de Faria uma tensão entre existência e mitogenia, entre a realidade e o sonho exaltante, entre o acutilante desengano e a crescente alucinação.
A visão pessimista da vida e o abatimento perante a decadência de Portugal coexistem com a projeção evasiva de um mundo idílico e rural, uma cartografia poética que assinala os ‘loca sancta’ da infância. Tudo isto encontramos nos poetas neorromânticos e, consequentemente, na poesia e nas cartas de Guilherme de Faria, onde se sente apenas a ausência da Coimbra elegíaca e tradicional que José Carlos Seabra Pereira define como “sítio da ‘peregrinatio’ individual e da geografia sentimental de todo o neorromantismo”.

O ‘Só’ de António Nobre exerce a sua profunda sedução polidirecionada, mas talvez nenhum outro poeta neorromântico tenha sido tão influenciado por António Nobre como Guilherme de Faria. A experiência da leitura do ‘Só’, neste contexto, possibilita-nos um retrato dramático e expressionista desse poeta em que “a Dor, que morava com ele no peito,/ Com ele crescia…”, “Moço Lusíada! criança!”. Guilherme de Faria poderia ter sido o autor das palavras que António Nobre, alguns anos antes, tinha escrito: “Quero viver, eu sinto-o, mas não posso”. Nas páginas do ‘Só’ encontra um caminho sem retorno: “Que fazer? Porque não nos suicidamos?”, “Estive já pra me matar…”.
E se Antero evoca o mar como ‘Sepultura romântica’, António Nobre é ainda mais explícito: “Quando eu morrer […]/ Deitem-me ao Mar! […] Irei indo de frágua em frágua,/ Até que, enfim, desfeito em água,/ Hei de fazer parte do Mar!”. E é com António Nobre que Guilherme de Faria preferencialmente dialoga, até ao dia em que, descalço e com um terço de rezar ao pescoço, com apenas 21 anos de idade, se precipita no mar. As fragas, a água fria e a violência das vagas reclamaram o seu corpo. Diante do ‘Só’, ocorre-me a interrogação: quantos dos seus versos teriam servido de epitáfio a Guilherme de Faria?


Fotografia de António Nobre reproduzida na edição de ‘Despedidas’ [1902].
Bilhete-postal com o retrato de António Nobre, onde Guilherme de Faria escreveu, em 1922: “Oh meu divino Irmão, tão pálido e tão doce!”.

 


José Rui Teixeira | 2018