ANTÓNIO HARTWICH NUNES nasceu no dia 20 de junho de 1905, em Lisboa. Foi o último dos oito filhos de Silvestre Jacinto Nunes e de Maria Ferdinanda von Moers Hartwich.
António passou a infância em Lisboa, na Rua Duques de Bragança, e em Carcavelos, numa dependência do palácio da Cartaxeira, para onde se mudou com a família em 1911.
No ano letivo de 1921-22, no Liceu Passos Manuel, foi companheiro de Guilherme de Faria e de João da Câmara. Completou a Instrução Secundária em julho de 1929, com cursos complementares de Ciências e de Letras.
Entre 1930 e 1934, trabalhou como empregado comercial na Philips e, depois, na Michelin. Em 1932 conheceu a holandesa Eva Wilhelmine Cohen, com quem casou no final de 1934. Partiu, então, para a Holanda, tendo estabelecido residência em Haia, cidade onde foi Cônsul de Portugal em 1936, nomeado por Óscar Carmona. Nesse mesmo ano, nasceu o seu primeiro filho: Eduardo Hartwich Nunes.
A família mudou-se para Paris em 1937. António trabalhou, então, na Grand National Films; mas o contexto político determinou que, passado um ano, a família regressasse à Holanda e, depois, a Portugal.
No final de 1939, estabelece-se em Vilar Formoso, ao serviço do Secretariado de Propaganda Nacional [SPN], onde dirige o posto fronteiriço de Turismo – o primeiro criado em Portugal, por António Ferro – e onde acolhe, em junho de 1940, milhares de refugiados que chegam à fronteira com os vistos concedidos por Aristides de Sousa Mendes.
Em 1940 regressa a Lisboa, onde nasce o segundo filho: António Guilherme. Chefia a secção de Turismo do SPN até 1945, onde se relaciona com Cottinelli Telmo. Em 1946 coordena a publicidade da KLM em Portugal e, no ano seguinte, reintegra o SPN, então denominado Secretariado Nacional da Informação [SNI].
Entre 1961 e 1962, António Hartwich Nunes instalou-se no seu atelier em Lisboa, na Rua de Santiago. Dedicou-se à pintura e à escrita até ter entrado, em junho de 1964, no Grande Sanatório do Caramulo, onde veio a falecer no dia 2 de fevereiro de 1966.
Tal como Emmerico Nunes, seu irmão mais velho, António foi um artista com uma rara sensibilidade estética e, mesmo não tendo podido estudar arte – como Emmerico, que partiu para Paris em 1906 –, povoou a sua vida de desenhos, pinturas e poemas.
Com o humor que lhe era característico, escreveu este poema-autorretrato:

“Sou português dos melhores.
Nasci nos dias maiores,
na véspera do maior dia.
P’ra me livrar do demónio,
fui batizado na pia
batismal da freguesia
dos Mártires ao Chiado,
com o nome de Santo António.

Sem mimos e com cuidado,
fui crescendo e fiquei grado
e esguio como um cipreste!
Sou rijo! Não tenho banhas.
Não uso truques nem manhas.
Quando arroto, – que me preste –
pelintra faço-me lord;
sou um Rolls-Royce marca Ford,
mas também não sou mau tipo.

Não sou bonito nem feio:
meu nariz tem metro e meio
e, se às vezes me constipo,
põe-se azul, lilás, vermelho,
faz-se cor de rosa velho,
é uma policromia!

Se acaso, por distração,
o deixo cair ao chão…
– ai… adeus geografia! –
vai tudo de escantilhão:
Sinta, Manique, Algueirão,
Cacém, Trajouce, Albarraque,
fica o mundo qual Pompeia…
– Meu nariz é uma epopeia!
– Cyrano de Bergerac!…

Para tudo tenho aptidão,
por milagres de intuição:
pintor – músico ou poeta.

Devido a não ter mau gosto,
em geral ando bem posto,
mas não tolo ou afetado.
Sou direito como um fuso!
Já fiz de Sines ao Luso,
– sou um homem viajado!”

António Hartwich Nunes [‘Ónio’] e Guilherme de Faria [‘Guilh’] conheceram-se no ano letivo 1921-22, no Liceu Passos Manuel. A amizade está documentada num espólio com mais de duzentos documentos, fundamentalmente constituído por cartas e poemas manuscritos autógrafos. O mais antigo testemunho desta amizade é um poema de António Hartwich Nunes, intitulado ‘Guilh’ e datado de 1921. A correspondência começa em maio de 1922 e, até ao final de 1928, guarda inscrita uma amizade rara e comovente.
No final de março de 1926, Guilherme escreve a António: “Venho matar saudades dos belos tempos da nossa boa camaradagem de todos os dias: era, então, certa e assídua a nossa correspondência epistolar, como eram perfeitas e constantes a correspondência e milagrosa a harmonia de todos os nossos pensamentos e aspirações. Quero bem crer que, em todo o mundo, não havia duas almas tão irmanadas em virtudes e defeitos, em propósitos definidos e em mal-esboçadas tendências e desejos”.
António Hartwich Nunes nunca se esqueceu do amigo poeta. Em 1964, dois anos antes de morrer, escreveu um poema intitulado ‘Carta de saudade ao Guilherme de Faria’, que termina com estas palavras: “Não há ninguém na Beira-Mar./ Só lá estou eu/ na Beira-Mar./ À espera de ti/ e à espera de mim”.

 


José Rui Teixeira | 2019