Em meados da década de 20, o poeta Guilherme de Faria dedicou-se à organização de uma ‘Antologia de poesias religiosas’. Apesar de ser muito jovem, valeu-se de uma invulgar cultura literária para reunir 112 poemas, aos quais adicionou 21 quadras populares. Quando, no Natal de 1926, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, Arcebispo de Évora, escreveu uma carta-prefácio para esta Antologia de poesias religiosas, Guilherme de Faria tinha ainda vinte anos.
Um extenso subtítulo explica que ali se antologiam poesias religiosas “desde o século XV, que abre com a Oração do Justo Juiz, de El-Rei D. Duarte, até aos nossos tempos, incluindo romances e cantigas da tradição popular”. Na carta-prefácio, o Arcebispo de Évora destaca o “reflexo constante da religião em toda a evolução da poesia nacional” e acrescenta: “a sua preciosa coleção de poesias põe diante dos olhos de todos uma verdade flagran-te, e é que em todas as fases da literatura portuguesa, uma forte inspiração religiosa dominou a alma nacional. E é tanto mais curioso este fenómeno quanto o vemos re-produzir-se, diríamos quase contra a vontade dos próprios poetas, porquanto é sabido que alguns nomes que firmam poesias contidas neste volume não são crentes. Preva-leceu neles a inspiração coletiva ao preconceito pessoal: sentiu e cantou na sua obra a alma da raça”.

O Arcebispo de Évora denuncia a superficialidade da poesia religiosa dos autores mais recentes e louva as “regiões serenas e puras onde as almas nobres encontram inspira-ção sublime para as suas composições”, acima “dos pântanos onde se revoluteiam os discípulos de Epicuro”.
Onze poemas separam a ‘Oração do Justo Juiz’, de D. Duarte, de cinco excertos de autos de Gil Vicente. Entre Sá de Miranda e Bocage, destacam-se oito poemas de Camões e quinze de Frei Agostinho da Cruz. Do século XIX, entre outros, ombreiam-se Alexandre Herculano, Almeida Garrett, João de Deus, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal e António Nobre. Como a antologia só foi publicada em 1947 [Edições Gama], quase vinte anos após a morte de Guilherme de Faria, os editores acrescentaram – “como preito de saudade” – quatro poemas do desventurado poeta que se suicidou no princípio de 1929.
Quando, em 1958, José Régio e Alberto de Serpa publicam ‘Na mão de Deus – Antologia de poesia religiosa portuguesa’, não esquecem o contributo das duas antologias anteriores: “Resta-nos declarar que nos foram boa ajuda as antologias da mesma natureza que precederam esta: como a de César de Frias e, muito particularmente, a de Guilherme de Faria”.
Em 1996, a ‘Antologia de poesias religiosas’ organizada por Guilherme de Faria foi reeditada com o título ‘As mais belas poesias religiosas’ [Publicações Europa-América], com um texto de apresentação do presbítero António Costa Marques.


José Rui Teixeira | 2018