É hoje apresentado, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica, a edição do projeto de pós-doutoramento que desenvolvi em 2015 e 2016, na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP [Braga], sob a orientação de João Manuel Duque e Mário Garcia: ‘Acerca do desterro. Hermenêutica literária e arqueologia cultural’.
Uma poética vinheta desenhada por Valter Hugo Mãe e um prefácio de Guilherme d’Oliveira Martins introduzem sete ensaios: [1] ‘Viajar outros sentidos, outras vidas. António Nobre, Mário de Sá-Carneiro e Guilherme de Faria: interseções existenciais’, [2] ‘Poetas-filósofos ou filósofos-poetas? Disforia histórico-cultural no contexto português: entre Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes’, [3] ‘Aquela espécie de mulheres que estão sempre na margem daquilo a que pertencem. O caso de Judith Teixeira’, [4] ‘Interseções. Afonso Lopes Vieira, José Bruges d’Oliveira e Guilherme de Faria: intertextualidades e intercontextualidades’, [5] ‘Qualquer coisa de intermédio. Da estesia à astenia: o sono abúlico, a morte e outras derivas intertextuais na poesia de Mário de Sá-Carneiro’, [6] ‘Fronteiras invisíveis. Manuel Laranjeira e Miguel de Unamuno: sobre o desterro e a vertigem suicidária na cultura portuguesa’, [7] ‘António Pedro. Em mansamente dolorida ausência e uma saudade mansíssima: os primeiros vinte anos e a poesia dos anos vinte’.
É Guilherme de Faria quem impressivamente perpassa estes sete documentos: dialogando com António Nobre e Mário de Sá Carneiro no 1.º; com Afonso Lopes Vieira e José Bruges d’Oliveira no 4.º; e com António Pedro no 7.º.
Transcrevo aqui a Introdução:

Esta edição resulta de um projeto de pós-doutoramento que, simbolicamente, nasceu num café de Roma, no princípio de 2014. Relia, então, uma conferência que começara a escrever em dezembro, em Paris, e que pronunciara no dia 4 de janeiro, na Universidade Católica Portuguesa [Porto], por ocasião do 85.º aniversário da morte de Guilherme de Faria, poeta a cuja vida e obra me dedico há mais de dez anos.
Diante de mim, nesse café de Roma, na Via di Monte Giordano, tinha a reedição da antologia da poesia de Guilherme de Faria – ‘Saudade Minha [poesias escolhidas]’ – e ocorreu-me um apontamento de José Gomes Ferreira, no seu diário, no dia 9 de junho de 1968, diante da 1.ª edição desse mesmo livro: “A leitura de Saudade Minha sugeriu-me uma ideia para tratar um dia: o tema do desterro na literatura. […] Sim, o desterro de nós todos. O de ontem e o de agora. E assim esqueci por momentos que faço hoje 68 anos. E diante de mim o caminho pedregoso para o Silêncio”.
Foi em março de 2015 que formalizei o projeto de pós-doutoramento, na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP [Braga]: ‘Acerca do desterro. Interrogações sobre a condição humana e a questão de Deus na poesia portuguesa desde o romantismo: teias contextuais, intertextuais e intratextuais’, sob orientação de João Manuel Duque e Mário Garcia.
Os sete ensaios aqui reunidos, escritos entre 2013 e 2016, no contexto da participação em colóquios nacionais e internacionais, têm em comum um certo sentido de deriva, procuram combinar um discurso académico, nas suas funcionalidades essenciais, com uma abordagem mais idiossincrática e uma hermenêutica mais intuitiva. Em alguns predominam narrativas biográficas, contextos histórico-culturais e apontamentos biobibliográficos; noutros predominam leituras hermenêuticas e relações intertextuais. Entre a documentação e a intuição, foi difícil – mesmo para alguém tão benevolente com os paradoxos – conciliar a necessidade que sinto de classificar, de arrumar conceptualmente, e a irreprimível tendência para desconstruir, para descompartimentar.

 


José Rui Teixeira | 2018