Em 2007, por ocasião do centenário do nascimento de Guilherme de Faria, organizei três importantes momentos em que a memória do poeta foi evocada e em que foi apresentada a reedição da antologia SAUDADE MINHA [POESIAS ESCOLHIDAS]: na Casa Fernando Pessoa [Lisboa], no dia 28 de setembro, com uma intervenção de António Cândido Franco; na Igreja de S. Francisco [Guimarães], no dia 6 de outubro, com uma intervenção minha; e no Clube Literário do Porto, no dia 27 de outubro, com uma intervenção de Fernando Guimarães, que aqui reproduzo.

GUILHERME DE FARIA OU A OUTRA SAUDADE

A poesia pode ter as suas origens na tradição. Isto é particularmente visível no caso do lirismo. A tradição lírica portuguesa é marcada por uma subjetividade espontânea, um tom emocional, um envolvimento temático onde o imaginário do amor ou da saudade ganham uma configuração especial que vem dos Cancioneiros ou dos Romanceiros. Assim é recolhida “do povo a obra de arte”, ponto de vista que procede já do Romantismo de Garrett e chega a uma compreensão etnográfica da expressão artística que nos vinha dum Teófilo Braga ou de um José Leite de Vasconcelos.
Alberto de Oliveira, que pertence à geração de 90, esteve atento a este gosto popular, nacional, quase aldeão. “Em Portugal seria necessário que nós os poetas emigrássemos para as aldeias”, dir-nos-á… Já no Simbolismo se pretendia fugir de uma “Literatura fatigada” que era cara aos simbolistas. É o caminho para o Nacionalismo Literário, o Neogarrettismo, que teve em Alberto de Oliveira um mentor, ou o Neo-Lusitanismo, que Manuel da Silva Gaio ou Veiga Simões irão defender. Os poetas devem ir ao encontro de um “lusitanismo pessoal”.
António Sardinha dará uma inflexão especial a esta tendência, imprimindo-lhe um sentido ideológico que será o do Integralismo Lusitano. Procura-se a “musa anónima da Raça”, as “raízes sentimentais do Passado”, “o que há de avoejante e de grande em nós”. E isto leva a poetar “o amor de Deus, o amor da Terra, o amor do Sangue”.
Note-se desde já que se anuncia aqui o que será de certo modo um aprofundamento simbólico religioso ou histórico que principia a irradiar e a dar outra consistência ao lirismo tradicional. Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, António Sardinha ou até o Fernando Pessoa da ‘Mensagem’, seguindo vias muito diferentes entre si, não deixam de realizar na sua poesia esse aprofundamento. Por vezes, dá-se uma acentuação temática que fica próxima de um lirismo amoroso. O tema do amor elevado, que vem já de Camões, encaminha a poesia para uma confessionalidade que pode confinar com um sentimento religioso. Neste último caso poderá dizer-se à amada: “É por vós que eu creio em Deus”.
Foi assim que se exprimiu Guilherme de Faria numa das muitas poesias em que o seu lirismo assume esse sentido amoroso, o qual está tão presente na recolha antológica de 1929 que se intitula ‘Saudade Minha’, tal como um livro anterior seu que traz a data de 1926. Este é, com efeito, o grande tema da sua obra onde uma leda ou amargurada relação amorosa está quase sempre presente. Há um acento elegíaco ou crepuscular que predomina e fica, por vezes, sustido por uma expressão reticente, elíptica. É a “apática indolência”, o “amor que, antes de o ser, se fez saudade”, a “tortura da esperança” e, no final de tudo, a dolorosa “dúvida de Deus”:

— Não mais sonhar e amar!
Não mais sentir, sofrer
A pena de esperar!
Não mais, sequer, erguer,
Num vago e triste olhar,
A última esperança
Ao ermo azul dos céus…

— Na Morte, enfim, descansa,
Oh dúvida de Deus!

Na poesia de Guilherme de Faria faz-se sentir uma “voz de mágoa e de elegia”. Através dela há todo um conjunto de tensões que se revelam, geralmente centradas na realidade expressiva de um eu dividido: eu, alguém, ninguém são os traços deixados por uma presença que se afunda no desconhecimento de si mesmo, no alheamento, num contraditório estado “saudoso de mim”:

Eu não me lembro de mim,
Não me lembro de ninguém.
— Sou a lembrança de mim?
Sou a lembrança de alguém?

Neste aparente jogo há uma autenticidade dramática que há de terminar numa angustiada invetiva: “Só não quero, Senhor!, ser o que sou!”. Este sentido de perda ou renúncia conduz a sua poesia para um segundo tema, o da religiosidade. Mas tal religiosidade é acompanhada por um tom dolorista — “Sinto ascender a Deus meu ser aflito” — que o prende ainda à própria subjetividade.
Há um terceiro tema a considerar, mas este torna-se quase ocasional. É o que diz respeito à sua simpatia pelo movimento político integralista, pelo seu ideal monárquico ou legitimista. O poema ‘Na morte d’El Rei D. Miguel II’, incluído no seu livro ‘Destino’, é disso um iniludível exemplo. O tom decetivo para que tende o seu lirismo não deixa de se fazer sentir quando considera o destino político da nação.
Almada Negreiros, na conferência que pronunciou aquando do encerramento do II Salão de Outono, fez esta afirmação onde há uma referência a Guilherme de Faria: “Falta-nos […] a ideia comum da Nação, essa é a que está à espera que nós a vamos buscar pessoalmente a Alcácer-Quibir, onde a deixámos há quase cinco séculos, essa luz que de Alcácer há tanto se derrama”.
Pertence, com efeito, a Guilherme de Faria a frase aqui grifada. O livro atrás citado, ‘Destino’, é de 1927; estas palavras de Almada, que é autor de um retrato de Guilherme de Faria, são de 1926. Em Portugal, por esta altura, ocorre uma transformação política que se traduz na mudança do regime da República democrática para um outro de carácter ditatorial — a Ditadura Nacional — de que as forças monárquicas integralistas procuram aproximar-se num assédio ao poder, o qual, se fosse alcançado, levaria à substituição da República pela Monarquia.
Este desequilíbrio e, às vezes, equilíbrio entre forças democráticas e nacionalistas não deixa de ter reflexos nos nossos escritores. Guilherme de Faria será sensível a esta situação. Sabemos de que lado está, mas no seu nacionalismo há quase sempre um tom nostálgico que anda a par com a sua evocação de um Quinto Império que, passados sete anos, Fernando Pessoa e Augusto Ferreira Gomes hão de também cantar:

Trovador do Quinto Império,
Entre falsos e mesquinhos
Portugueses,
Vou, perdido no mistério
Desta noite, por caminhos
De maldições e revezes…

O pessimismo que se entrevê nesta estrofe irá ao encontro de um imaginário sebastianista que se evidencia no poema ‘El-Rei’, onde extrapolações para a situação política do país no início da segunda metade dos anos 20 vêm logo à superfície:

Oh Senhor Rei, Maravilha
Fatal da nossa Saudade,
Vem das brumas da tua ilha,
Por manhã de claridade!

Óscar Lopes, em ‘Entre Fialho e Nemésio’, fala-nos, a propósito de Guilherme de Faria, de um “saudosismo integralista”, englobando aí poetas como Mário Beirão, António Sardinha, José Bruges de Oliveira, Alberto de Monsaraz ou Guilherme de Faria. Destes poetas é Mário Beirão aquele que está mais ligado ao Saudosismo que se desenvolveu em torno do movimento da Renascença Portuguesa, da revista ‘A Águia’ ou do poeta seu amigo Teixeira de Pascoaes. Ora é sabido que a Renascença Portuguesa se insere num contexto ideológico que anda muito próximo da Primeira República e, portanto, dum regime assumidamente democrático. Sujeito aos sobressaltos políticos da época, o movimento da Renascença Portuguesa é, de certo modo, herdeiro da greve académica de 1907, de certos arremedos anarquistas do grupo ABC, da revista ‘Nova Silva’ onde o ideário republicano e libertário vem à superfície. Tudo isto se reflete no Saudosismo que se apresenta como um movimento literário interessado igualmente na intervenção social. Os saudosistas, sobretudo através da Renascença Portuguesa, procuram, como dirá Jaime Cortesão, dar um conteúdo “renovador e profundo” à revolução republicana, mas afastando-se, como logo acrescenta, do ponto de vista antinacional, demolidor e, no fundo, antirrepublicano da geração de 70. Tanto os saudosistas como os integralistas olharam com suspeição o ideário dessa geração. Os saudosistas que, como Jaime Cortesão reconhece, valorizavam o espírito nacional, assumiam um republicanismo que colidia com o legitimismo dos integralistas que, no entanto, colocavam também as suas velas votivas no altar do nacionalismo. Uns e outros acabavam por olhar com desconfiança o tal espírito criticamente demolidor ou essa espécie de “deboche negativista” — a expressão podia vir de um dos mentores do Integralismo, Charles Maurras — a que, aliás castamente, os Vencidos da Vida se entregavam…
Estas duas vertentes, que por vezes têm a mesma inclinação, separam-se realmente quando a exaltação da raça é, para o Integralismo, uma exaltação linhagista, da grei, ou nele se retoma um mito nacionalista que ganha acentos reacionários.
Para aumentar a diferença, o Integralismo, ao pautar algumas das suas opções pelas da Action Française de Maurras, pende para um ideal clássico que poderia ser, no caso português, o dos nossos quinhentistas, enquanto o Saudosismo abraça empenhadamente o Romantismo, seguindo o seu pendor sentimental e emocionado.
Guilherme de Faria exclamativamente diz: “Ah, Saudade minha, luz divina!” ou, sentido adensar-se a sombra que dela chega, lamenta-se: “Ai, Saudade minha […] és talvez a Morte”. Ao dizer isto vêm à superfície as “penas de esperança e desejo”, o sonho, a melancolia, a amargura, o sentimento, a tristeza. Enfim, o que caracteriza a saudade. Mas foi Óscar Lopes quem, mais uma vez, trouxe uma achega importante ao considerar o saudosismo de Guilherme de Faria como um “saudosismo de si mesmo”. É o que leva o poeta a perguntar:

E eu, afinal, o que sou?
Qual o caminho em que vou?
Sou noite? Sou alvorada?
Vou ascender ou cair?

Seja o que for, o lirismo dominante que perpassa ao longo da obra de Guilherme de Faria não acompanha o panteísmo transcendentalista do Saudosismo, tão marcado pelo alegorismo onde se desenvolve um conjunto de imagens que vivem sobretudo das correspondências estabelecidas expressamente entre o homem e a natureza.
A referência à natureza, aos grandes cenários naturais, é pouco significativa. Podemos dizer que a poesia de Guilherme de Faria fica numa espécie de limbo, situada como está entre o Saudosismo e um Modernismo ou uma Vanguarda a que o poeta não chega. A grande amizade que manteve com António Pedro foi numa altura em que este ainda se mantinha fiel na sua poesia a uma influência decadentista, antes, portanto, da deriva posterior para o Surrealismo ou o Dimensionismo vanguardista. O mesmo aconteceu em relação ao Modernismo que vinha da geração de Orpheu. O autor de ‘Saudade Minha’, ao centrar muita da sua poesia numa subjetividade ou num eu que está em conflito consigo mesmo, não chegou à poesia cindida pelo absurdo que vem ameaçar a própria presença desse eu que se dilui no outro que também se ausenta, como se fosse o “Eu não sou eu nem o outro” de Mário de Sá-Carneiro, poeta que, através deste verdadeiro interseccionismo poético, encontra uma expressão que é a de um Modernismo considerado em toda a sua plenitude. O caso de Guilherme de Faria é diferente. A sua voz é mais tranquila, amoldável, em consonância com uma serena disposição que é a do lirismo tradicional. Mas ela também pode ser serenamente bela, como é o caso deste soneto que serve de limiar a ‘Saudade Minha’ e que se intitula ‘Crepuscular’, como se, nestes dois títulos, encontrássemos o sentido da poesia de Guilherme de Faria:

Num grande mar de luz, a tarde cai,
Morre, desfeita em sombras… E a tristeza
Da agonia do sol que, ao longe, vai
Expirando, anoitece a natureza.

Hora triste e magoada como um ai!
Hora saudosa, eterna e portuguesa!
— Ave Maria… Ave Maria… — E cai,
Mais profunda e nostálgica, a tristeza.

Pairam nuvens de sonho sobre os montes;
E, mudo, ouvindo a música das fontes,
Eu vou com ela, extático, a sonhar!

E, no mar, vai o sol a esmorecer…
— Quem me dera, meu Deus, também morrer
Para, amanhã, no azul — ressuscitar!

Fernando Guimarães

 


José Rui Teixeira | 2018